19/Oct/2026
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2025, o menor contingente da série histórica do iniciada em 2016. O total corresponde a 4,0% dos 37,8 milhões de brasileiros nessa faixa etária, também a menor proporção em quase uma década. Em relação a 2024, houve redução de 9,2% no número de crianças e jovens nessa condição. Embora a pesquisa não investigue diretamente as razões individuais para a saída do trabalho infantil, o IBGE relaciona a redução a uma combinação de políticas públicas e fatores socioeconômicos. Entre os elementos apontados estão o aquecimento do mercado de trabalho e o aumento da renda familiar, que diminuem a necessidade de crianças e adolescentes contribuírem para o orçamento doméstico, além das ações de fiscalização e proteção realizadas por instituições como o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Ministério Público do Trabalho (MPT).
O Bolsa Família também teve participação relevante no resultado. Entre 2024 e 2025, a redução do trabalho infantil nas famílias beneficiárias respondeu por mais de 95% da queda total registrada no País, com 144 mil crianças e adolescentes a menos nessa situação. O programa pode ter contribuído para assegurar uma renda mínima às famílias e, por meio das condicionalidades relacionadas à frequência escolar, favorecer a permanência dos jovens na escola. Entre 2016 e 2025, o contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil diminuiu 28,6%. A trajetória apresentou quedas sucessivas entre 2016 e 2019, mas houve aumento de 7% em 2022, na comparação com 2019, quando o total chegou a 1,9 milhão de pessoas. Em 2020 e 2021, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua não coletou dados sobre o tema em razão da pandemia de Covid-19. Os pesquisadores associam o aumento observado em 2022 aos efeitos da emergência sanitária sobre a economia e o mercado de trabalho.
A redução da população ocupada e da renda do trabalho naquele período pode ter levado mais crianças e adolescentes a ingressar em atividades econômicas para complementar a renda das famílias. Após uma queda recorde em 2023, o trabalho infantil voltou a crescer 2,1% em 2024, alcançando 1,65 milhão de crianças e adolescentes. O IBGE não considera esse resultado uma ruptura da tendência de redução, mas uma oscilação pontual em um ano atípico, marcado pela continuidade dos pagamentos do Bolsa Família e pelo aquecimento do mercado de trabalho. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), nem toda atividade realizada por pessoas de 5 a 17 anos é classificada como trabalho infantil. A definição considera atividades econômicas e de produção para o próprio consumo, conforme a idade dos envolvidos e as condições em que o trabalho é executado. No Brasil, a legislação proíbe qualquer trabalho antes dos 14 anos. Entre 14 e 15 anos, a atividade é permitida exclusivamente na condição de aprendiz.
Dos 16 aos 17 anos, exige-se carteira de trabalho assinada, sendo vedados o trabalho informal, as jornadas excessivas e as atividades perigosas. Afazeres domésticos e tarefas de cuidado não remuneradas realizadas no próprio domicílio não são contabilizados como trabalho infantil pela pesquisa. Entre os menores que realizavam atividades econômicas em situação de trabalho infantil, 29,0% atuavam no comércio e na reparação de veículos, enquanto 16,7% trabalhavam em atividades relacionadas à agricultura, pecuária e pesca. Outros segmentos relevantes eram a indústria, com 12,5%; alojamento e alimentação, com 12,2%; e serviços domésticos, com 6,5%. Os dados evidenciam que, apesar da redução do contingente nacional, o trabalho infantil permanece presente em diferentes setores da economia, incluindo atividades agropecuárias. Cerca de 525 mil crianças e adolescentes exerciam atividades consideradas como as piores formas de trabalho infantil em 2025. É o menor contingente da série histórica do IBGE, iniciada em 2016.
As atividades estão descritas na Lista TIP, do governo federal, e envolvem risco de acidentes ou são prejudiciais à saúde. A lista inclui trabalho na construção civil, em matadouros, comércio ambulante em locais públicos, coleta de lixo, entre outras. Ao considerar o total de 37,8 milhões de pessoas nessa faixa etária, 1,4% realizavam trabalho infantil classificado na Lista TIP em 2025, porcentual próximo ao registrado em 2024 (1,5%). No entanto, houve uma queda de 6,3% em relação ao total de 2024, quando 560 mil crianças e jovens de 5 a 17 anos estavam nessa condição no País. A distribuição por faixas etárias revela uma concentração entre adolescentes mais velhos. O grupo de 16 e 17 anos concentra quase dois terços de todos os casos de risco do país, com 333 mil jovens, o que representa 63,4% do total de menores na Lista TIP. Na faixa de 14 e 15 anos, são 127 mil adolescentes, o que corresponde a 24,2% dos enquadrados em situação de pior tipo de trabalho infantil. Entre 5 e 13 anos, são 65 mil crianças, representando 12,4% dos casos na Lista TIP.
As crianças e adolescentes pretos ou pardos, sobretudo do sexo masculino, são os mais afetados pelo trabalho infantil, somando dois terços (67,0%) de todos os casos do País em 2025. O percentual é maior do que a proporção deste grupo na população geral na faixa etária de 5 a 17 anos (59,7%). Em números absolutos, havia 1 milhão de crianças e adolescentes pretos ou pardos em situação de trabalho infantil no ano passado, de um total de 22,587 milhões nesse grupo. Crianças e jovens do sexo masculino representam a maioria (65,4%) dos trabalhadores infantis, somando 980 mil pessoas. Os meninos representam 51,2% da população geral de 5 a 17 anos. As meninas, por sua vez, representam cerca de um terço do contingente de trabalhadores (34,6%), totalizando 519 mil pessoas. Enquanto no total da população de 5 a 17 anos de idade, cerca de 50% eram homens, entre aquelas pessoas em situação de trabalho infantil, os homens eram 65,4%, ou seja, os homens realmente são a maioria dessas pessoas em situação de trabalho infantil.
A participação masculina e negra é ainda mais acentuada nas atividades de maior risco. Entre as 525 mil crianças e jovens em ocupações da Lista TIP, que classifica as piores formas de trabalho infantil, 72,6% eram homens e 68,3% eram de cor ou raça preta ou parda. O IBGE também observou que os homens em situação de trabalho infantil tinham um rendimento substancialmente maior do que as mulheres. As meninas em situação de trabalho infantil recebiam, em média, R$ 224,00 a menos por mês que os meninos (R$ 782,00 ante R$ 1.006,00 dos meninos). As crianças brancas tinham um rendimento um pouco maior do que as pretas ou pardas. As crianças e jovens pretos ou pardos recebiam R$ 39,00 a menos por mês na comparação com os brancos (R$ 925,00 versus R$ 964,00 de brancos). Na análise por grupos etários, a prevalência do trabalho infantil tende a aumentar com o avanço da idade, chegando a 14,5% do grupo de 16 e 17 anos. São, ao todo, 871 mil adolescentes nessa condição. Entre eles, 79,6% frequentavam a escola, enquanto os estudantes eram 89,6% do total da população de mesma faixa etária.
O Bolsa Família foi o principal motor na redução do trabalho infantil no país entre 2024 e 2025. A redução do trabalho infantil nos domicílios beneficiados pelo programa foi de 20,1% em um ano, o que representa 144 mil crianças e adolescentes a menos nessa situação. O total recuou de 717 mil em 2024 para 573 mil crianças e jovens em 2025, o que representa mais de 95% da queda total no contingente nacional. Em 2025, houve uma queda de 9,2% no total de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no País. O contingente passou de 1,65 milhão em 2024 para 1,49 milhão em 2025, o menor da série histórica iniciada em 2016. Ao longo da série, o trabalho infantil nas famílias atendidas pelo Bolsa Família apresentou uma trajetória de retração mais acentuada do que a média nacional. Em 2016, 7,3% das crianças e jovens em lares beneficiários estavam em situação de trabalho infantil (971 mil pessoas), enquanto a taxa média do país era de 5,2%, uma distância de 2,1%. Em 2025, a proporção no grupo do programa caiu para 4,4%, aproximando-se do patamar geral da população (4,0%) e reduzindo a lacuna para apenas 0,4%.
No acumulado de 2016 a 2025, o trabalho infantil na população beneficiária despencou 41,0%. O rendimento médio mensal real domiciliar per capita nos lares com crianças que recebem o benefício era de R$ 660,00 em 2025, o equivalente a cerca de um terço do valor registrado nos domicílios não beneficiados com moradores de 5 a 17 anos (R$ 1.990,00). O Bolsa Família pode ter contribuído para garantir uma renda mínima para essas famílias, além de ter condicionalidades relacionadas à frequência escolar. O impacto positivo também se reflete em indicadores sociais, como a escolarização. Entre os trabalhadores infantis atendidos pelo programa, a taxa de frequência à escola foi de 89,8%, superando a média geral de todas as crianças em trabalho infantil no país (86,9%) e alcançando 98,8% no grupo de 14 e 15 anos. Entre os beneficiários em situação de trabalho infantil, 34,2% realizavam exclusivamente a produção para o próprio consumo, como cultivo agrícola ou criação de animais para o próprio lar, parcela superior aos 23,9% observados no total nacional. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.