16/Oct/2026
O aumento dos incêndios na Amazônia volta a pressionar as estruturas de prevenção e combate ao fogo, em um cenário de riscos climáticos associados ao El Niño e de acúmulo de vegetação seca. No Amazonas, foram registrados 1.380 focos de incêndio nos dez primeiros dias de outubro, alta de 271% em relação às 372 ocorrências contabilizadas no mesmo período de 2025, segundo dados do Painel do Fogo, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), vinculado ao Ministério da Defesa. Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor, quase quatro vezes o número observado no mesmo mês de 2025. Ao menos 36 municípios estão em situação de emergência, enquanto a fumaça tem afetado a qualidade do ar em Manaus. A contaminação atmosférica provocou a suspensão de aulas em escolas e universidades e levou à recomendação de que a população evitasse a exposição ao ar contaminado, ampliando os impactos sociais e sobre a saúde pública.
Os riscos de agravamento dos incêndios já eram conhecidos pelas autoridades, diante dos efeitos associados ao El Niño e da possibilidade de maior propagação das chamas após períodos de menor incidência de fogo, quando o acúmulo de vegetação seca aumenta a disponibilidade de material combustível. Esse cenário reforça a importância do planejamento antecipado, da preparação das brigadas e da mobilização de recursos antes do início dos períodos críticos de estiagem. A resposta aos incêndios também evidencia dificuldades de coordenação entre o governo do Amazonas e a União. O Corpo de Bombeiros estadual informou que um pedido de apoio federal havia sido negado, enquanto o Ministério do Meio Ambiente apresentou uma versão divergente, indicando que houve mobilização de brigadistas e de uma aeronave. Segundo o ministério, o próprio governo estadual dispensou o reforço de brigadistas após uma melhora temporária das condições, associada às chuvas.
A mobilização conjunta de equipes, aeronaves e recursos para conter os focos em atividade demonstra a necessidade de protocolos permanentes de cooperação entre os governos. A preparação das brigadas antes da estiagem, a definição de responsabilidades e a comunicação entre as esferas federal e estadual são fatores essenciais para reduzir o tempo de resposta e limitar a propagação do fogo. Outro ponto relevante é a possibilidade de incêndios provocados deliberadamente para degradar áreas preservadas. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, apontou indícios de ação criminosa, o que reforça a necessidade de fiscalização contínua nas áreas de risco, investigação das ocorrências e responsabilização dos envolvidos. O combate às chamas, isoladamente, não elimina as causas dos incêndios quando há práticas ilegais associadas à destruição da vegetação. A recorrência de episódios de grande dimensão, como os incêndios recordes de 2024, evidencia a necessidade de fortalecer as políticas de prevenção, monitoramento e fiscalização da Amazônia ao longo de todo o ano.
A combinação entre riscos climáticos, disponibilidade de vegetação seca e possíveis ações criminosas exige planejamento antecipado e integração operacional entre os órgãos responsáveis, de modo a reduzir os danos ambientais, sociais e econômicos. A Justiça deu prazo de dez dias para que a União e os estados do Amazonas e do Pará apresentem planos, medidas, recursos e estruturas que estão sendo usados no combate às queimadas nos dois Estados. A decisão atende a uma ação popular ambiental de litigância climática que questiona a suposta omissão dos réus no enfrentamento ao fogo. Diante do fenômeno climático El Niño, já havia a expectativa de que ocorresse seca mais severa neste ano, com risco de queimadas, o que exigia reforço na preparação. Só no Amazonas, onde a fumaça encobre a capital Manaus, o total de focos de incêndio em outubro quase dobrou ante o mesmo mês de 2025. Aulas foram suspensas e os moradores, orientados a usar máscaras.
O Ministério do Meio Ambiente do governo Luiz Inácio Lula da Silva afirma que 330 brigadistas e 11 aeronaves atuam no combate às chamas e diz que os Estados tiveram acesso a recursos do Fundo Amazônia. O governo do Amazonas, por sua vez, informa que proibiu o uso do fogo no Estado por 120 dias e diz executar ações de fiscalização. O governo do Pará diz ter sido notificado e acrescenta que prestará esclarecimentos à Justiça. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram 1.608 focos de incêndio até o dia 13, quase o dobro do registrado em outubro do ano passado (874). Trata-se da maior média diária para o mês desde o início da série histórica, em 1998. O governo federal decretou estado de emergência. A crise é impulsionada pela severa seca que atinge a região, decorrente do El Niño. Segundo especialistas do Inpe, o fenômeno climático (de aquecimento das águas do Oceano Pacífico) prolongou o período da estiagem (que geralmente termina em setembro) em toda a região, criando um “barril de pólvora”.
Conforme autoridades, há denúncias de incêndios criminosos e de manejos que saem do controle. Na decisão judicial, a juíza Mara Elisa Andrade, da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Amazonas, diz que a falta de dados transparentes e de planejamento adequado dos réus compromete a eficácia da fiscalização na fase de estiagem. A ação popular é assinada pelo procurador de Contas do Amazonas, Ruy Marcelo Alencar de Mendonça, responsável pela Coordenadoria de Meio Ambiente, pelo analista jurídico Marcelo de Vargas Estrella e pela advogada Laiza Bezerra Maciel. Ao pedir tutela de urgência para superar a “atuação insuficiente” dos órgãos públicos, a ação ressalta o sofrimento agravado de comunidades isoladas, com “privação de alimentos e água, mortandade de fauna aquática e impactos severos na navegabilidade”.
A juíza também cita em sua decisão o ambiente eleitoral em curso. “Não nos esqueçamos de que estamos em meio a eleições gerais e estaduais, cenário extremamente sensível do ponto de vista cívico, onde não se pode descartar narrativas descontextualizadas quanto à adequada atuação dos entes, suas respectivas responsabilidades, dimensão adequada do problema e soberania nacional”, afirma. Segundo o Inpe, a maior parte do fogo se concentra em terras públicas (1.186 focos), mas também afeta assentamentos federais, terras indígenas e até mesmo unidades de conservação. Em Manaus, a qualidade do ar atingiu níveis considerados péssimos e perigosos, forçando a prefeitura a suspender as aulas presenciais da rede municipal e orientar a população a usar máscaras e evitar atividades ao ar livre. Moradores relatam sintomas graves como irritação na garganta, dores de cabeça e falta de ar, superlotando serviços de saúde locais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.