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09/Oct/2026

Cerrado perde vegetação nativa para agropecuária

Segundo dados da Coleção 11 do MapBiomas, o Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas localizadas a até 500 metros de rios e outros cursos d'água entre 1985 e 2025. O volume corresponde a 26,9% de toda a vegetação nativa perdida no bioma no período. Em 2025, pastagens e lavouras ocupavam, conjuntamente, 18,2% da faixa de até 30 metros dos rios, área considerada de preservação permanente (APP) pelo Código Florestal, na qual a vegetação nativa às margens dos cursos d'água não pode ser desmatada. A perda de vegetação nas proximidades dos cursos d'água está concentrada principalmente nas bacias do Alto Tocantins e Araguaia. Juntas, elas responderam por cerca de 5,7 milhões de hectares de redução de vegetação nativa em áreas situadas a até 500 metros dos rios, o equivalente a 41% de toda a perda registrada nesse recorte do Cerrado.

No Alto Tocantins, a vegetação nativa nessa faixa recuou de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares entre 1985 e 2025. No Araguaia, a redução foi de 7,8 milhões para 5,1 milhões de hectares. Na bacia do Médio São Francisco, a área caiu de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares. A redução da cobertura vegetal próxima aos rios amplia riscos ambientais associados à erosão do solo, ao assoreamento e à perda de qualidade e disponibilidade hídrica, além de aumentar a vulnerabilidade da paisagem a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas. O levantamento do MapBiomas considerou todos os rios e cursos d'água mapeados, independentemente da largura, para avaliar as mudanças ocorridas nas áreas marginais ao longo de mais de quatro décadas. Em 2025, 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa estavam localizados a até 500 metros dos rios, o equivalente a 36,7% de toda a vegetação nativa remanescente no Cerrado.

Na faixa mais próxima dos cursos d'água, de até 30 metros, a cobertura de vegetação nativa recuou 13,9% entre 1985 e 2025. No conjunto do bioma, a perda de vegetação nativa alcançou 51,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025, redução líquida de 34%. Em 2025, a vegetação nativa cobria 49,6% dos 200,4 milhões de hectares do Cerrado. A formação savânica foi a classe mais afetada, com redução de 34 milhões de hectares, ou 41%, ao longo dos 41 anos analisados. Em sentido contrário, a área ocupada pela agropecuária mais que dobrou no período, passando de 46,7 milhões para 97,9 milhões de hectares, crescimento de 110%. Em 2025, as atividades agropecuárias ocupavam 48,9% do Cerrado. A agricultura avançou 24,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025, alcançando 29,7 milhões de hectares. Naquele ano, o bioma concentrava 49,2% de toda a área de soja cultivada no Brasil.

A dinâmica de conversão da vegetação nativa para atividades agropecuárias também mudou ao longo das décadas. Até 2005, predominou em todo o Cerrado a conversão de vegetação nativa em pastagens. Entre 2015 e 2025, nos Estados do Matopiba, formado por Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, predominou a conversão direta de vegetação nativa para agricultura. Nos demais Estados com áreas de Cerrado, ganhou importância a transformação de pastagens em lavouras. Entre 2015 e 2025, 81,4% das transições de vegetação nativa para agricultura ocorreram no Matopiba, enquanto 78% das transições de pastagem para agricultura ocorreram nos demais Estados do Cerrado. O Matopiba concentrou 65,7% da redução de vegetação nativa registrada no Cerrado entre 2015 e 2025. Dos 10,5 milhões de hectares de perda de vegetação nativa registrados no bioma na década, 65,7% ocorreram na região. Considerando todo o período de 1985 a 2025, o Matopiba respondeu por 37,3% da redução de vegetação nativa do Cerrado.

Apesar da perda, a região ainda concentrava, em 2025, 47,7% da vegetação nativa remanescente do bioma. A expansão agropecuária também modificou o perfil dos municípios inseridos no Cerrado. Em 2025, a atividade predominava em 61% dos municípios, ante 41% em 1985. Ao todo, 301 municípios deixaram de ter predomínio de vegetação nativa ao longo do período. Em 1985, 154 municípios tinham menos de 20% de vegetação nativa em sua área inserida no Cerrado. Em 2025, esse número havia aumentado para 381, alta de 227 municípios. Na outra ponta, a quantidade de municípios com mais de 80% de vegetação nativa caiu de 624 em 1985 para 225 em 2025. Entre os 13 Estados que possuem áreas inseridas no Cerrado, 6 ainda mantinham, em 2025, mais da metade de sua porção no bioma coberta por vegetação nativa. O Piauí apresentava a maior proporção, de 78,2%, enquanto São Paulo registrava a menor, de 14,7%.

A maior parte da perda de vegetação nativa ocorreu em propriedades privadas com registro georreferenciado. Segundo o MapBiomas, 77,7% da redução ocorreu nessas áreas. As áreas protegidas ou de uso coletivo, que incluem terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, representam 7,5% da área do Cerrado e concentravam 13,9% da vegetação nativa do bioma em 2025. Nesses territórios, a perda de vegetação nativa desde 1985 foi de 500 mil hectares. Além da agropecuária, outras atividades também ampliaram sua ocupação no território do Cerrado. A silvicultura passou de 600 mil hectares em 1985 para 3,9 milhões de hectares em 2025, alta de 511%. O crescimento percentual foi superior ao registrado pela agricultura no período, de 490%. Desde 2005, a área de silvicultura mais que dobrou. O Paraná apresenta a maior proporção de sua área inserida no Cerrado ocupada pela atividade, de 23,7%.

O campo alagado e a área pantanosa perderam 1,4 milhão de hectares entre 1985 e 2025, redução de 18%. Das áreas convertidas, 76,2% passaram a ser ocupadas por pastagens ou agricultura. Houve redução dessa classe de vegetação em 69,2% dos municípios do Cerrado. O levantamento evidencia que a expansão agropecuária no Cerrado ocorreu paralelamente à forte redução da vegetação nativa, inclusive em áreas próximas aos cursos d'água, com mudanças relevantes na dinâmica de uso da terra entre as diferentes regiões do bioma. A concentração das perdas no Matopiba e nas bacias do Alto Tocantins e Araguaia reforça a importância dessas áreas para a evolução futura da cobertura vegetal, da conservação das APPs e da disponibilidade hídrica. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.