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08/Oct/2026

Crédito Rural: juros altos ampliam a inadimplência

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), a alta da inadimplência no agronegócio brasileiro está associada principalmente ao custo e à composição das dívidas, e não ao aumento do endividamento total em relação à renda do setor. O debate é sobre a natureza do atual estresse financeiro, entre uma possível restrição momentânea de liquidez e um problema estrutural de solvência. A carteira de crédito rural destinada a pessoas físicas registrou inadimplência de 9,7% do saldo em agosto de 2026, ante 0,8% em dezembro de 2022. Em julho, a carteira problemática do setor somava R$ 207 bilhões, equivalente a quase um terço do crédito rural concedido no País. Desse total, R$ 46 bilhões correspondiam a dívidas vencidas, R$ 107 bilhões a recursos renegociados e R$ 32 bilhões a valores prorrogados. O Rio Grande do Sul concentrava 41,6% da carteira problemática, apesar de apresentar o menor índice de inadimplência entre os Estados.

Em termos relativos à renda, o passivo rural representou 78% da renda da agropecuária em 2025, abaixo dos 109% registrados em 2014. Mesmo com essa redução, a taxa de inadimplência atual é seis vezes superior à observada há dez anos, indicando que a deterioração financeira não pode ser explicada apenas pelo volume total de dívida em relação à capacidade de geração de renda do setor. O aumento do custo de financiamento é um dos principais fatores dessa diferença. A taxa média do crédito rural para pessoas físicas passou de 6,3% em 2021 para 12,2% em 2025. Com a elevação dos juros, o montante destinado ao pagamento de encargos financeiros quase triplicou, de R$ 30 bilhões para R$ 82 bilhões, equivalente a 9,6% da renda do setor. A maior despesa financeira reduz a capacidade de geração de caixa das propriedades mesmo quando o estoque de dívida não apresenta crescimento proporcional à renda.

A migração do financiamento para fontes privadas e operações com taxas livres também aumentou a pressão financeira. A participação dos recursos livres no crédito rural passou de 3% em 2013 para 49% em 2024. As operações contratadas a taxas de mercado representam 43% do crédito destinado a pessoas físicas, mas concentram 77% dos atrasos. A inadimplência nessas linhas alcança 17,6%, ante 3,8% nas operações com juros controlados. Outro fator de pressão está relacionado ao financiamento dos investimentos. Os investimentos em ativos imobilizados cresceram 71% desde 2019, com 73% desse montante financiado fora do crédito rural oficial, por meio de recursos próprios, Cédulas de Produto Rural (CPR), fornecedores e operações de leasing. Ao mesmo tempo, o setor de grãos enfrentou queda de 28% nos preços a partir de 2021, reduzindo a capacidade de geração de receita em uma atividade com elevada necessidade de capital de giro e investimentos.

Em 2025, a relação de troca atingiu a pior marca da série histórica. Foram necessárias 29 sacas de soja para adquirir uma tonelada de fosfato no mercado internacional, evidenciando a perda de poder de compra do produtor diante dos custos dos insumos. A combinação entre preços de commodities mais baixos, custos elevados e maior participação de financiamentos a taxas de mercado aumentou a pressão sobre o fluxo de caixa das propriedades. O estresse financeiro também ultrapassou o segmento produtivo e alcançou empresas que integram a cadeia do agronegócio. Revendas, agroindústrias e empresas de logística responderam por 41% dos pedidos de recuperação judicial do agronegócio no primeiro semestre de 2026. No âmbito das medidas de reestruturação, a Medida Provisória nº 1.376, que autoriza a criação de linhas de crédito especial para composição, liquidação ou amortização de dívidas de crédito rural e de CPRs, havia alcançado R$ 3,6 bilhões em setembro de 2026, equivalente a 4% do montante estimado.

As renegociações também alteram a estrutura das dívidas. Operações originalmente contratadas em linhas de crédito controlado, com juros mais baixos, podem ser substituídas por financiamentos a taxas livres durante os processos de repactuação. Esse movimento aumenta o custo financeiro e pode prolongar o período necessário para recompor a capacidade de pagamento, especialmente quando o prazo de amortização da dívida supera o ciclo de geração de receita de uma única safra. O quadro indica que a atual deterioração da qualidade do crédito rural está relacionada menos ao tamanho absoluto do passivo e mais ao encarecimento das dívidas, à maior participação de recursos privados e às condições de geração de renda das atividades agropecuárias. A combinação desses fatores tende a manter elevada a pressão sobre o fluxo de caixa de produtores e empresas do setor, tornando a gestão do passivo e a adequação dos prazos de pagamento elementos centrais para a recuperação financeira do agronegócio. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.