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08/Oct/2026

Crédito Rural perde participação no financiamento

O crédito rural vem perdendo relevância como fonte de financiamento do agronegócio brasileiro, com os recursos efetivamente liberados ficando cada vez mais distantes dos volumes anunciados nos Planos Safra. Atualmente, apenas 25% das necessidades de financiamento do setor são cobertas pelo sistema de crédito rural. Quando considerado o custo do dinheiro, essa participação chega a 33%, evidenciando a crescente dependência de fontes alternativas de recursos para financiar as atividades agropecuárias. A diferença entre os valores programados pelo governo e os recursos efetivamente disponibilizados aos produtores constitui um dos principais pontos de atenção. Os Planos Safra estabelecem volumes de recursos e taxas de juros, mas a execução na ponta não acompanha integralmente os valores anunciados. Essa discrepância vem aumentando e reduz a disponibilidade efetiva de crédito para produtores e empresas do setor.

Na safra 2025/26, foram programados R$ 405,9 bilhões em crédito rural, dos quais R$ 338,9 bilhões foram efetivamente utilizados, correspondendo a 83,5% do total, em 2,39 milhões de contratos. Na safra anterior, o porcentual de utilização havia sido de 80,5%. Apesar do aumento da proporção executada, o volume efetivamente emprestado em 2025/26 foi 11% inferior ao registrado na temporada anterior, considerando todos os programas. Para a safra 2026/27, o governo anunciou R$ 525,1 bilhões em recursos para a agricultura empresarial, além de R$ 85,2 bilhões destinados à agricultura familiar. Entretanto, para avaliar a disponibilidade efetiva de financiamento, é necessário separar os recursos controlados. Após esse ajuste, o volume considerado chega a R$ 416,3 bilhões. Nos três primeiros meses da safra 2026/27, 17% desses recursos controlados haviam sido utilizados. Embora o porcentual indique execução relevante no início do ciclo, as liberações registraram queda de 35% em relação ao mesmo período da safra anterior, que já havia apresentado retração na comparação com a temporada precedente.

Os dados indicam uma redução da capacidade de o sistema oficial de crédito acompanhar as necessidades financeiras do setor. Parte da retração está relacionada a atrasos na publicação de portarias do Conselho Monetário Nacional (CMN), que postergaram a liberação de algumas operações. Entretanto, como atrasos semelhantes também ocorreram na safra anterior, o fator regulatório não explica integralmente a redução atual. As liberações de crédito permanecem 35,3% abaixo das registradas no mesmo período da safra passada. A situação é ainda mais acentuada nas operações destinadas a investimentos. Os financiamentos de investimento registram contração de 43% ante igual período da safra anterior. O movimento indica mudança na prioridade financeira dos produtores, com maior concentração dos recursos na manutenção das atividades e menor capacidade de direcionamento de capital para máquinas, equipamentos, armazenagem, expansão produtiva e outras aplicações de longo prazo.

O cenário é agravado pelo elevado custo do dinheiro e pelo nível de alavancagem dos produtores. A taxa média praticada no mercado está em 13,52%, enquanto a taxa média dos recursos controlados é de 9,52%. A diferença entre as duas modalidades amplia o custo financeiro para produtores que precisam recorrer a fontes não controladas diante da insuficiência ou menor disponibilidade do crédito rural oficial. A combinação de endividamento elevado e juros mais altos tem contribuído para o avanço da inadimplência no crédito rural. Entre pessoas físicas, o índice se aproxima de 17%. Nas revendas de insumos agrícolas e veterinários, os dados da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav) apontam inadimplência entre 20% e 22%. Nas operações com taxas subsidiadas, a inadimplência permanece significativamente menor, em 3,5%. A diferença evidencia o impacto do custo financeiro sobre a capacidade de pagamento dos agentes da cadeia.

Historicamente, a inadimplência do agronegócio costuma ficar abaixo da registrada em outros segmentos da economia, mas o indicador já ultrapassou esse padrão. A combinação de menor disponibilidade efetiva de crédito, juros elevados, maior endividamento e aumento da inadimplência tende a restringir a capacidade de investimento do agronegócio. O recuo de 43% nas operações de investimento é particularmente relevante porque sinaliza uma postura mais defensiva dos produtores, com prioridade para a preservação do fluxo de caixa e da continuidade das atividades. Esse ambiente amplia a importância de fontes alternativas de financiamento, como CPRs, mercado de capitais, fornecedores e instituições financeiras privadas, mas também eleva o custo médio do capital utilizado pelo setor. A diferença entre o crédito anunciado e o efetivamente contratado deve permanecer como um dos principais pontos de atenção para a capacidade de financiamento das safras e para a manutenção dos investimentos produtivos ao longo do ciclo 2026/27. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.