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08/Oct/2026

Crédito Rural problemático ameaça área plantada

O crédito problemático no agronegócio brasileiro soma R$ 204,9 bilhões, equivalente a 23,8% da carteira total do setor, e a deterioração das condições financeiras dos produtores pode afetar a área plantada na próxima safra. O cenário combina preços ainda desfavoráveis das principais commodities agrícolas, aumento dos custos de produção e elevado endividamento, reduzindo a capacidade de investimento e ampliando a necessidade de fontes alternativas de financiamento. O crédito problemático engloba operações em renegociação, inadimplência, prorrogação ou atraso. Do total de R$ 204,9 bilhões classificados como crédito problemático, R$ 105,1 bilhões correspondem a operações em atraso. Outros R$ 30,6 bilhões estão relacionados a operações prorrogadas, R$ 48,6 bilhões a operações inadimplentes e R$ 20,7 bilhões a créditos renegociados.

A composição mostra que a deterioração financeira ocorre por diferentes mecanismos, envolvendo desde postergação de vencimentos até operações já caracterizadas como inadimplentes. A pressão sobre a capacidade financeira dos produtores ocorre em um ciclo menos favorável para os preços das principais commodities. Entre as safras 2024/25 e 2025/26, os preços recuaram 4,5% para a soja, 7,12% para o milho, 20,85% para o trigo e 8,57% para o algodão. A queda das receitas potenciais ocorre simultaneamente ao aumento dos custos de produção, comprimindo as margens e reduzindo a capacidade de geração de caixa para honrar compromissos financeiros e realizar novos investimentos. Parte da elevação dos custos está associada aos efeitos dos conflitos no Irã e na Ucrânia sobre o mercado internacional de insumos. A ureia agrícola acumulou alta de 14,36% no período analisado, enquanto o fertilizante formulado 20-00-20 avançou 17%.

O aumento dos preços dos fertilizantes eleva o custo por hectare justamente em um momento de menor remuneração das principais culturas, ampliando a pressão sobre a rentabilidade. Os efeitos sobre as margens podem ser observados na produção de soja em Cândido Mota (SP). Na safra 2025/26, a margem bruta foi negativa em 18,95%. Para a safra 2026/27, a expectativa é de recuperação de 42,08%, enquanto a margem líquida poderia passar de uma perda de 33,14% para uma margem positiva de 33,21%. Na mesma comparação, o resultado entre lucro e prejuízo poderia evoluir de uma perda de 92,57% para uma perda menor, de 11,29%. Apesar da melhora projetada para a próxima safra, a rentabilidade ainda dependerá do comportamento dos preços e, principalmente, das condições climáticas. A expectativa de ocorrência de um Super El Niño adiciona risco à produtividade e à geração de receita, podendo alterar de forma significativa as margens projetadas.

A deterioração financeira também reforça a necessidade de diversificação das fontes de recursos utilizadas pelo agronegócio. Instrumentos privados como Cédulas de Produto Rural (CPRs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) vêm ampliando sua participação no financiamento das cadeias produtivas. Outro instrumento com potencial de expansão é o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro). Entretanto, o desenvolvimento desse mercado ainda depende de maior maturidade tanto dos investidores quanto das gestoras, especialmente em relação à compreensão dos riscos específicos da atividade agropecuária. A avaliação adequada dos riscos produtivos, climáticos, de preços e de crédito é necessária para ampliar a participação do mercado de capitais no financiamento do setor.

Apesar das dificuldades, a ampliação desses instrumentos pode aumentar a disponibilidade de recursos para o agronegócio e reduzir a dependência do crédito rural tradicional. A diversificação das fontes de financiamento ganha importância em um ambiente de juros elevados, maior inadimplência, margens pressionadas e necessidade de preservar os investimentos produtivos. O nível de crédito problemático, portanto, passa a representar não apenas um risco financeiro para produtores e instituições, mas também um potencial limitador da produção agrícola. Caso a restrição de caixa comprometa a aquisição de insumos, a manutenção das lavouras ou a implantação das áreas previstas para a próxima safra, os efeitos podem alcançar a área plantada e, consequentemente, a oferta futura de commodities agrícolas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.