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08/Oct/2026

Agro: juros altos ampliam risco de crise de solvência

A manutenção da taxa básica de juros em dois dígitos por 55 meses, combinada ao elevado nível de alavancagem dos produtores rurais, pode transformar a atual restrição de liquidez do agronegócio em uma crise de solvência. O cenário aumenta os riscos para o financiamento do plantio das próximas safras e pode dificultar o controle da inflação de alimentos, diante da possibilidade de menor disponibilidade de recursos para custeio e investimento. O Brasil atravessa, na avaliação da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), uma forte crise de crédito associada a desequilíbrios fiscais e à participação do crédito direcionado, que representa 44% do total concedido no País. O quadro de restrição financeira também se reflete no número de pessoas e empresas negativadas. As estimativas indicam que 51% da população adulta e 9,47 milhões de empresas, identificadas por CNPJs, estão negativados, volume 45% superior ao pico registrado durante a pandemia de Covid-19. O impacto dos juros sobre o resultado financeiro das propriedades rurais é especialmente relevante diante das margens operacionais normalmente estreitas, estimadas entre 5% e 7%.

Em uma propriedade com alavancagem de 15%, o pagamento de juros consumiria 2% da receita bruta. Com alavancagem de 30%, o custo financeiro alcançaria 4% da receita bruta, reduzindo a margem líquida para 3% e fazendo com que a parcela direcionada às instituições financeiras superasse o ganho do proprietário. Com alavancagem de 50%, o custo financeiro poderia eliminar o lucro da atividade. A retração dos recursos disponíveis já afeta o custeio do plantio. Nos dois primeiros meses do Plano Safra 2024/25, julho e agosto, a captação teria somado entre R$ 40 bilhões e R$ 42 bilhões, ante R$ 90 bilhões em igual período do ano anterior. A redução também alcança o mercado de capitais e o estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs), ampliando a preocupação com as fontes de financiamento necessárias para sustentar a expansão da produção agrícola. O risco deixa de estar concentrado exclusivamente na situação financeira dos produtores e das instituições de crédito e passa a envolver a capacidade de financiamento da própria produção nacional.

A menor disponibilidade de recursos pode comprometer o custeio das próximas safras justamente em um período de expansão da produção de grãos, elevando o risco de redução do ritmo de crescimento da oferta agrícola. O agronegócio continua exercendo papel relevante no desempenho da economia brasileira. No último trimestre, o setor registrou crescimento de 2,8% no Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a indústria avançou 0,1% e os serviços cresceram 0,2%. No ano anterior, a expansão do agro havia alcançado 15,1%, mantendo a perspectiva de o Brasil atingir em breve a marca de 400 milhões de toneladas de grãos. No campo das medidas governamentais, a Medida Provisória nº 1.247, que autoriza a concessão de subvenção econômica para liquidação ou renegociação de operações de crédito rural de custeio, investimento e industrialização no Rio Grande do Sul, é considerada insuficiente. A estimativa inicial da Farsul indicava que a medida atenderia 12% do endividamento do Estado, mas a adesão efetiva teria alcançado 9,9%.

É preciso ajustes por meio do relatório do Projeto de Lei nº 5.122 em tramitação no Congresso. Para o próximo ciclo de alta das commodities, projetado para 2027, a orientação é direcionar o fluxo de caixa para a redução do endividamento e a recomposição da liquidez. Nesse cenário, a expansão da área cultivada por meio de novos arrendamentos e a aquisição de máquinas devem ser avaliadas com maior cautela, diante do custo financeiro elevado e da necessidade de preservar a capacidade de pagamento. O quadro reforça uma mudança na gestão financeira do agronegócio. A expansão da produção deixa de depender apenas do aumento de área, produtividade e investimentos e passa a exigir maior capacidade de administração da estrutura de capital, do risco de crédito e do fluxo de caixa. A combinação entre juros elevados, alavancagem e restrição de recursos torna a preservação da liquidez um fator estratégico para sustentar a produção e o financiamento das próximas safras. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.