08/Oct/2026
Uma política estruturada de gestão de riscos e proteção de preços pode reduzir a exposição de produtores e empresas do agronegócio a processos de recuperação judicial e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso ao crédito bancário em condições mais competitivas. A maior previsibilidade de receitas e da capacidade de pagamento tende a melhorar a avaliação de risco das instituições financeiras e pode resultar em taxas de juros mais atrativas para os tomadores. A gestão de riscos deve partir de um orçamento que estabeleça referências para custos e receitas. A partir desse cenário-base, ferramentas financeiras de proteção podem ser utilizadas para preservar margens, reduzir a exposição às oscilações de preços e aumentar a previsibilidade do fluxo de caixa. A maior visibilidade sobre a geração futura de recursos também fortalece a capacidade de planejamento financeiro das propriedades e empresas.
Durante o atual ciclo de recuperação judicial no agronegócio, a StoneX não identificou entre seus clientes e parceiros casos de empresas com uma política institucional estruturada de hedge que tenham ingressado em recuperação judicial. A proteção contra oscilações de preços contribui para preservar a receita necessária ao cumprimento dos compromissos financeiros, principalmente em momentos de deterioração das margens. A gestão de risco ganha importância inclusive durante períodos de alta de preços. A proteção antecipada da receita pode garantir recursos para o pagamento das dívidas bancárias quando as condições de mercado se deterioram posteriormente. Para as instituições financeiras, o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento são elementos centrais na avaliação da concessão e do custo do crédito, o que torna a previsibilidade proporcionada pelo hedge um componente relevante da estrutura financeira do negócio.
A gestão de riscos também deve estar diretamente vinculada às decisões de crédito, investimento e planejamento de longo prazo. Ao reduzir a incerteza sobre receitas e margens, o hedge pode proporcionar maior segurança para que produtores e empresas assumam compromissos financeiros e realizem investimentos. Dessa forma, o gerenciamento de risco passa a integrar a estrutura de planejamento financeiro e operacional, e não apenas a proteção pontual contra oscilações de preços. O uso de ferramentas de hedge para commodities como boi, milho e soja avançou nos últimos anos, embora a disseminação ainda dependa da ampliação do conhecimento dos agentes do mercado. Há menos de dez anos, a utilização desses instrumentos era pouco disseminada no agronegócio, e o processo de educação financeira e de mercado contribuiu para ampliar a adoção das ferramentas de proteção.
A StoneX também busca ampliar a utilização da gestão de riscos para cadeias que ainda possuem pouca ou nenhuma ferramenta de proteção contra a volatilidade dos preços. Uma parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) resultou no lançamento de produtos futuros relacionados à cadeia de lácteos, incluindo contratos para leite ao produtor, leite UHT, muçarela e leite em pó. A criação desses instrumentos amplia as possibilidades de produtores, cooperativas e laticínios administrarem preços e custos e planejarem suas operações em horizonte mais longo. A possibilidade de proteger preços de venda ou de compra com base nos custos projetados permite maior previsibilidade de margem e fluxo de caixa, fortalecendo a gestão financeira das cadeias e reduzindo a exposição a choques de mercado.
A integração entre gestão de riscos, crédito, investimento e planejamento de longo prazo tende, portanto, a ganhar importância em um ambiente de maior volatilidade de preços e elevado endividamento no agronegócio. A proteção das receitas pode reduzir a necessidade de recorrer a renegociações em momentos de baixa, melhorar a capacidade de pagamento e contribuir para condições de financiamento mais competitivas. O produtor rural precisa avançar na gestão de risco e acompanhar continuamente as margens da atividade para evitar que períodos de preços elevados sejam sucedidos por crises financeiras provocadas pela falta de recursos para honrar o crédito rural. A mudança tende a ganhar importância com a sucessão geracional, à medida que os filhos assumem também a gestão financeira e de riscos das propriedades e incorporam práticas de administração mais próximas das utilizadas por empresas de outros setores.
As gerações anteriores de produtores tiveram papel central na construção da capacidade produtiva do agronegócio brasileiro, mas a continuidade da atividade exige que as novas gerações assumam também a gestão financeira e de riscos. Nesse processo, a sucessão em propriedades rurais familiares pode ser complexa, assim como ocorre em empresas familiares de outros setores, o que torna a profissionalização da administração um componente relevante para a sustentabilidade financeira do negócio. Períodos de margem negativa fazem parte da atividade agropecuária, mas o risco aumenta quando os ciclos de elevada rentabilidade são utilizados integralmente para ampliar a estrutura produtiva sem a formação de reservas financeiras. Na safra de soja 2021/22, caracterizada por margens elevadas, houve estímulo para expansão da área, aquisição de máquinas e aumento dos investimentos.
O ponto central, nesse cenário, é dimensionar adequadamente o crescimento para evitar que a expansão provoque uma alavancagem incompatível com a capacidade futura de geração de caixa. Parte dos produtores utilizou as margens elevadas daquele período para aumentar a área cultivada, comprar máquinas e ampliar investimentos, assumindo maior volume de dívida. Com a deterioração posterior das margens, muitos negócios chegaram a esse período sem reservas financeiras suficientes para absorver a redução da rentabilidade. A utilização integral da margem para crescimento elevou a exposição financeira justamente quando os preços e as condições de mercado deixaram de sustentar os níveis observados anteriormente. A trajetória recente da inadimplência no setor está relacionada a esse processo. A inadimplência avançou nas safras 2023/24, 2024/25 e 2025/26, em um período marcado pela passagem de margens negativas para margens baixas e, posteriormente, novamente negativas.
A deterioração financeira reduz a capacidade de o produtor aproveitar períodos de recuperação dos preços, já que parte relevante do caixa gerado nessas fases é direcionada ao pagamento de dívidas acumuladas durante o ciclo de baixa. Nesse contexto, a gestão de risco precisa integrar a rotina da propriedade e estar associada ao acompanhamento da margem antes de cada decisão comercial ou financeira. As operações de barter são um exemplo. Ao antecipar a comercialização de parte da produção para obter insumos ou outros recursos, o produtor deve incorporar as condições da operação ao custo de produção e verificar, no sistema de gestão, o impacto sobre o orçamento projetado para a safra. O objetivo é manter a margem atualizada em tempo real e evitar decisões que comprometam a rentabilidade futura.
A propriedade deve trabalhar com um cenário-base de custos e margens, atualizado continuamente, em uma lógica semelhante à utilizada por empresas e tradings agrícolas para acompanhar o desempenho das operações. O modelo permite estabelecer um orçamento inicial para culturas como soja e milho, com custos de produção projetados, e utilizar esse parâmetro como referência para decisões comerciais e financeiras ao longo do ciclo. A cada operação, como um barter, o produtor pode comparar as condições negociadas com o cenário-base e avaliar se a decisão melhora ou piora a margem projetada. Quando a operação melhora o cenário, contribui para ampliar a margem; quando reduz a rentabilidade, exige revisão antes da contratação. A adoção desse processo de forma contínua permite transformar a gestão de risco em uma ferramenta operacional da propriedade, reduzindo a exposição à alavancagem excessiva e aumentando a capacidade de atravessar períodos de margem negativa sem comprometer a liquidez e o pagamento do crédito rural. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.