ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

08/Oct/2026

El Niño não indica quebra geral da safra brasileira

Segundo estudo da Ghia Multi Family Office, que analisou episódios anteriores do fenômeno para dimensionar possíveis efeitos sobre a safra 2026/27, o El Niño forte esperado para o fim de 2026 não implica, necessariamente, quebra generalizada da produção agrícola brasileira, mas aumenta os riscos para culturas como algodão e milho. O estudo “El Niño: impactos no agro e ativos domésticos” cruza dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com séries históricas de preços de commodities. Nos quatro episódios fortes de El Niño analisados desde 1980, a produção de algodão ficou, em média, 25,9% abaixo da tendência, enquanto a produção de milho apresentou desvio negativo de 11,1%. Para a soja, o desvio médio foi positivo em 0,7%. A análise ressalta que o exercício não incorpora as particularidades de cada episódio de El Niño e deve ser interpretado dentro de uma margem de erro.

Os resultados funcionam como referência de risco para a safra 2026/27, e não como projeção de produção. Entre as demais culturas avaliadas, os episódios fortes apresentaram desvios médios negativos de 15,2% para o feijão, 10,4% para o arroz e 1,8% para o trigo. A cana-de-açúcar permaneceu praticamente estável, com recuo médio de 0,1%, enquanto o café registrou avanço médio de 10,1%. No algodão, os desvios de produção foram negativos nos quatro episódios fortes considerados, com recuo de 16,4% em 1982/83, de 30,0% em 1991/92, de 41,7% em 1997/98 e de 13,8% em 2015/16. No milho, as perdas foram de 12,3%, 3,6%, 6,5% e 18,5%, respectivamente. Na soja, houve crescimento de 8,1% em 1982/83, de 4,4% em 1991/92 e de 6,8% em 1997/98, seguido de queda de 5,2% em 2015/16.

Os dados do IBGE entre 1980 e 2025 indicam que as perdas se concentraram principalmente na Região Nordeste, enquanto a Região Sul e partes da Região Norte chegaram a registrar ganhos de produção. Na Região Sudeste, o comportamento foi mais ambíguo, com perdas de menor intensidade. O padrão está associado à distribuição das chuvas característica do El Niño, que tende a provocar estiagem no centro-norte do País e precipitações acima do normal na Região Sul. O impacto regional é, portanto, um dos principais elementos para a avaliação dos riscos sobre a produção agrícola. A análise da Ghia indica que a composição por região e por cultura pode produzir resultados significativamente diferentes do efeito observado na produção nacional agregada, que tende a ocultar diferenças relevantes entre as áreas produtoras e os cultivos.

Historicamente, as perdas mais intensas foram observadas em culturas específicas, sobretudo algodão e milho, e em lavouras de sequeiro das regiões Norte e Nordeste. Esse comportamento não resultou, nos episódios analisados, em quebra agregada da safra brasileira. Ainda assim, o saldo por cultura foi majoritariamente negativo, o que reforça a necessidade de cautela no planejamento da safra 2026/27. Com base nas informações disponíveis em setembro, a Ghia estimava probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte no fim de 2026 e cerca de 75% de chance de que o episódio apresentasse intensidade superior à dos eventos registrados desde 1950. O pico de intensidade é esperado no quarto trimestre, com possibilidade de efeitos climáticos se estenderem até meados de 2027. O comportamento dos preços das commodities também tende a ser afetado pelo fenômeno.

Com base em dados mensais do Banco Mundial, a Ghia identificou comportamento predominantemente altista durante os ciclos de El Niño, especialmente para produtos tropicais e oleaginosas. O óleo de palma apresentou alta mediana de 15,1% entre o início e o fim dos episódios analisados, seguido por açúcar, com 13,6%; cacau, com 8,2%; óleo de soja, com 5,9%; e soja, com 3,0%. O algodão subiu 2,7%, o arroz, 1,2%, e o milho, 0,8%. O trigo permaneceu estável, enquanto o café robusta recuou 0,7% e o suco de laranja caiu 7,4%. Os grãos de clima temperado tendem a apresentar menor sensibilidade ao El Niño. Além disso, a valorização das commodities não costuma ser permanente. Aproximadamente um ano após o pico do fenômeno, há possibilidade de devolução dos ganhos acumulados nos preços. Na inflação, o principal canal de transmissão ocorre pelos alimentos e tende a apresentar efeito temporário.

As estimativas disponíveis apresentam magnitudes distintas. O Citi projeta impacto de até 2% sobre o IPCA em 12 meses, com reversão rápida, enquanto o Banco Central estima efeitos de 0,6% em 2026 e de 0,4% em 2027 associados ao fenômeno. O quadro reforça que um El Niño de forte intensidade não deve ser interpretado automaticamente como sinônimo de quebra generalizada da safra brasileira. O histórico mostra efeitos distintos entre culturas e regiões, com maior vulnerabilidade para algodão, milho e lavouras de sequeiro do Norte e Nordeste, enquanto a distribuição das chuvas pode favorecer partes do Sul. Para 2026/27, a combinação entre intensidade elevada do fenômeno, efeitos potencialmente prolongados até meados de 2027 e possível valorização de commodities exige monitoramento regionalizado das condições climáticas, da produção e dos preços. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.