08/Oct/2026
Segundo a Vallya, independentemente do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, o Brasil deverá manter uma relação comercial pragmática com a China em 2027, preservando os mercados consolidados para o agronegócio e ampliando oportunidades de negócios com maior agregação de valor. A demanda chinesa é um dos principais fatores de desenvolvimento do agronegócio brasileiro nas últimas décadas. Para a próxima etapa dessa relação bilateral, as oportunidades incluem biocombustíveis, infraestrutura, fertilizantes, bioinsumos, biogás, biometano, máquinas e equipamentos. A estratégia brasileira deverá considerar as transformações da economia chinesa e o esforço de Pequim para reduzir a vulnerabilidade decorrente da dependência de produtos importados, como a soja. Esse movimento, entretanto, não significa o encerramento das compras do grão brasileiro, mas indica a necessidade de preparação para uma possível redução da dependência chinesa e de desenvolvimento de novos mercados e produtos.
A China estabeleceu uma meta de redução das compras anuais de soja, o que reforça a importância de diversificar as oportunidades comerciais sem comprometer os fluxos já estabelecidos. A demanda chinesa por soja em grão não dispõe, atualmente, de um mercado substituto com capacidade equivalente de absorção. Por isso, a estratégia do Brasil não deve se concentrar no abandono das commodities tradicionais, mas na agregação de valor às matérias-primas e no desenvolvimento de novas cadeias produtivas. A manutenção das exportações de produtos básicos permanece relevante para o equilíbrio comercial do agronegócio, enquanto a industrialização e a diversificação podem ampliar o retorno econômico e reduzir a exposição a mudanças estruturais na demanda internacional. Entre os segmentos com potencial de retorno mais rápido para o agronegócio brasileiro, os biocombustíveis se destacam. A China mantém compromissos de descarbonização de sua economia, mesmo diante de mudanças de prioridade nessa agenda em outros países.
O tamanho do mercado chinês de aviação e a dimensão de seu comércio internacional criam oportunidades para o fornecimento de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e combustíveis destinados à navegação marítima. O Brasil dispõe de matérias-primas, experiência produtiva e condições para ampliar sua participação nesses mercados. Para transformar esse potencial em negócios, entretanto, será necessário avançar na definição de padrões comuns com a China e estabelecer critérios de reconhecimento da redução de emissões proporcionada pelos biocombustíveis. A comprovação dos benefícios ambientais deverá contar com estudos científicos conduzidos tanto por pesquisadores brasileiros quanto por instituições internacionais, contribuindo para a padronização dos produtos e para o reconhecimento de sua contribuição à descarbonização. O etanol de milho produzido na 2ª safra brasileira, após a colheita da soja, constitui um exemplo de oportunidade para ampliar a agregação de valor.
Nesse sistema, parte da infraestrutura e dos investimentos empregados na primeira safra pode ser aproveitada na produção subsequente, contribuindo para reduzir as emissões associadas ao produto. A expansão desse mercado também depende de superar a oposição entre produção de alimentos e produção de combustíveis, mediante o aumento da oferta de matérias-primas sem pressão proporcional sobre novas áreas agrícolas. Nesse contexto, a recuperação de áreas degradadas representa uma alternativa para ampliar a produção agropecuária e a disponibilidade de matérias-primas para biocombustíveis. As estimativas apontam para uma extensão entre 40 milhões e 100 milhões de hectares de áreas degradadas no Brasil. A recuperação dessas áreas pode combinar expansão produtiva e redução de emissões, desde que o processo não esteja associado ao desmatamento. A possibilidade de ampliar a participação brasileira na cadeia de biocombustíveis também envolve decisões sobre a localização das etapas industriais.
Há interesse dos chineses na importação de etanol brasileiro para a produção de SAF no sul do país asiático. O projeto considerado pelos chineses envolve uma ilha com condições fiscais mais favoráveis, onde o combustível sustentável de aviação seria produzido para abastecer o mercado asiático. Essa perspectiva coloca em discussão a possibilidade de o Brasil permanecer como fornecedor de matéria-prima ou avançar na industrialização e na produção de combustíveis sustentáveis em território nacional. Embora a exportação de etanol represente uma alternativa comercial, a produção doméstica de SAF permitiria ampliar a agregação de valor, desenvolver capacidades industriais e capturar uma parcela maior da receita gerada pela cadeia. A antecipação às demandas chinesas e a definição de uma estratégia industrial são, portanto, fatores relevantes para aproveitar as oportunidades do mercado. A mesma lógica se aplica aos investimentos em infraestrutura, considerados essenciais para reduzir gargalos logísticos e ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro.
Empresas chinesas já participam de projetos no Brasil, incluindo infraestrutura portuária, expansão de portos, cadeia de frio para a exportação de proteína animal e, futuramente, de frutas. Também há investimentos relacionados ao Porto de Santos e à infraestrutura ferroviária. A ampliação desses projetos poderá contribuir para superar limitações de armazenagem e transporte, além de reduzir custos logísticos e facilitar o escoamento da produção. A atração de capital chinês, nesse sentido, deve estar associada a objetivos de desenvolvimento das cadeias produtivas nacionais. Os ganhos de infraestrutura não beneficiariam apenas o comércio bilateral, mas também aumentariam a capacidade de o Brasil competir em outros mercados internacionais. No segmento de fertilizantes, a cooperação bilateral pode contribuir para reduzir vulnerabilidades de abastecimento. A China já adotou restrições às exportações de fertilizantes em períodos de preocupação com a disponibilidade interna, enquanto o Brasil mantém elevada dependência externa desses insumos.
O País importa cerca de 80% do volume de fertilizantes químicos que consome, o que torna o desenvolvimento de capacidade produtiva doméstica uma questão estratégica para o agronegócio. Nesse cenário, empresas chinesas com interesse no setor poderiam ampliar investimentos em unidades de produção no Brasil, contribuindo para reduzir a exposição às oscilações do comércio internacional e às restrições de oferta. A instalação de capacidade industrial no País também poderia fortalecer a segurança de abastecimento e integrar uma agenda bilateral voltada à redução de riscos nas cadeias produtivas. A diversificação de investimentos e parcerias não deve ser direcionada exclusivamente ao atendimento do mercado chinês. A superação dos gargalos logísticos, a ampliação da produção de fertilizantes e o desenvolvimento de cadeias industriais de maior valor agregado também podem melhorar a competitividade brasileira nas exportações para a União Europeia, os Estados Unidos, a África e a América Latina. A redução de custos e o aumento da resiliência produtiva permitiriam ao Brasil atender diferentes destinos com maior eficiência e melhores condições comerciais.
A diversificação promovida pela China em suas fontes de abastecimento deve ser considerada um estímulo à busca de novas oportunidades, sem desconsiderar os benefícios econômicos dos fluxos comerciais consolidados ao longo das últimas décadas. A demanda chinesa por commodities contribuiu para ampliar as receitas do agronegócio brasileiro e gerar ganhos econômicos relevantes, especialmente no meio rural. A manutenção desses mercados permanece importante, mas deverá ser acompanhada de iniciativas que reduzam a concentração comercial e ampliem a capacidade de adaptação às mudanças da economia internacional. Para 2027, a relação entre Brasil e China poderá avançar para um modelo que combine comércio de commodities, investimentos produtivos, transferência de tecnologia e estruturação de cadeias de maior valor agregado. A consolidação dessa agenda dependerá da capacidade brasileira de preservar os mercados existentes, antecipar as transformações da demanda chinesa e direcionar investimentos para áreas capazes de reduzir vulnerabilidades estruturais e ampliar a competitividade internacional do agronegócio. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.