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08/Oct/2026

China: desafio para disseminar tecnologia no campo

O avanço tecnológico da China em veículos elétricos, baterias e energia solar não pode ser utilizado automaticamente como referência para o desempenho da agricultura. Estudo do Insper Agro Global aponta que a modernização do campo depende da capacidade de disseminar novas práticas entre os produtores e enfrenta limitações naturais e biológicas que tornam o processo mais complexo do que na indústria. A agricultura chinesa reúne pequenos agricultores e produtores de subsistência, além de enfrentar o envelhecimento da mão de obra rural e diferenças no acesso à tecnologia. Esses fatores limitam a velocidade de transformação do setor, mesmo diante da capacidade industrial já desenvolvida pela China em segmentos ligados ao agronegócio. O país possui indústria consolidada de fertilizantes, agroquímicos, máquinas, drones e agricultura digital, com empresas chinesas ampliando sua atuação internacional. No campo, entretanto, a disponibilidade de equipamentos e insumos não assegura sua utilização em larga escala.

A disseminação das tecnologias entre pequenos e médios produtores depende de assistência técnica, capacitação e adaptação das ferramentas às condições locais. O estudo do diferencia o grau de maturidade de uma tecnologia de seu nível de adoção. Uma ferramenta pode apresentar eficácia comprovada e estar disponível comercialmente, mas ainda alcançar apenas uma parcela dos agricultores. Das 32 aplicações tecnológicas analisadas, em 16 não foram encontradas evidências suficientes para classificar o nível de utilização na agricultura chinesa. Na soja, o estudo identifica linhagens obtidas por edição gênica, técnica que altera trechos do DNA da planta, com ganhos de rendimento entre 13% e 17% em ensaios realizados ao longo de três safras. Os resultados, porém, são experimentais e não representam necessariamente adoção comercial em escala. Em agricultura de precisão, existem benefícios documentados em outros países, mas não há dados suficientes para dimensionar a utilização dessas tecnologias nas lavouras chinesas de soja.

A assistência técnica aparece como um dos principais instrumentos para transformar tecnologias e conhecimento em ganhos efetivos de produtividade. Um dos exemplos analisados é o programa Science and Technology Backyard, criado em 2009 pela Universidade Agrícola da China no condado de Quzhou. A iniciativa levou professores e estudantes de pós-graduação a viver e trabalhar nas aldeias junto aos agricultores, aproximando o conhecimento científico das condições produtivas locais. Em Quzhou, região caracterizada pela rotação de trigo e milho, entrevistas com 150 agricultores e 55 experimentos de campo identificaram problemas relacionados à escolha de variedades pouco adaptadas, densidade inadequada de plantas, semeadura e colheita fora das épocas recomendadas e dimensionamento incorreto da adubação. Pesquisa citada pelo Insper mostrou que apenas 6,7% dos agricultores tinham conhecimento suficiente para calcular a necessidade de nutrientes das culturas.

As recomendações foram desenvolvidas em conjunto com os produtores e disseminadas por meio de demonstrações de campo, capacitação e cooperativas informais formadas por grupos de 30 a 40 famílias vizinhas. No condado, que reúne cerca de 93 mil famílias agricultoras, o rendimento passou de 62,8% do potencial atingível em 2009 para uma média de 79,6% nos cinco anos seguintes. Os percentuais representam a parcela da produtividade potencial nas condições locais que efetivamente foi alcançada. O programa também contou com subsídio do governo local para a aquisição de arados e participação de empresas privadas. Embora o exemplo esteja concentrado nas culturas de trigo e milho, o estudo o utiliza para demonstrar que parte da diferença entre a produtividade observada e o potencial produtivo pode decorrer de práticas de manejo e do acesso à informação, e não apenas da disponibilidade de novas tecnologias. Em 2015, a iniciativa já havia sido replicada em 71 plataformas de assistência técnica distribuídas por 21 províncias, incluindo sistemas de produção de soja.

O caso reforça que a transformação tecnológica da agricultura chinesa depende não apenas do desenvolvimento de equipamentos, insumos e ferramentas digitais, mas também da capacidade de levar conhecimento, assistência técnica e práticas adequadas aos produtores. Para o agronegócio chinês, o principal desafio passa, portanto, da capacidade de inovação industrial para a velocidade de disseminação das tecnologias no campo. Diferentemente de setores industriais nos quais a substituição de equipamentos pode ocorrer de forma mais coordenada, a agricultura está condicionada à estrutura fundiária, à qualificação da mão de obra, aos ciclos biológicos, às condições ambientais e à capacidade de adoção dos produtores. Esse conjunto de fatores limita a possibilidade de replicar diretamente no setor agrícola o ritmo observado na expansão chinesa de veículos elétricos, baterias e energia solar. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.