07/Oct/2026
A nova projeção mensal do European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF), atualizada no início de outubro, prolonga o atual episódio de El Niño com intensidade muito forte até o outono de 2027. A rodada do sistema SEAS5, inicializada em 1º de outubro de 2026, indica aquecimento excepcionalmente persistente do Oceano Pacífico Equatorial, com temperaturas da superfície do mar permanecendo em níveis extremamente elevados durante todo o verão do Hemisfério Sul e ainda em patamar muito forte pelo menos até o outono de 2027. A projeção considera a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para acompanhar a evolução do El Niño. A maior parte dos cenários aponta anomalias próximas ou superiores a 4°C no fim de 2026, com pico entre novembro e dezembro. Alguns membros do conjunto de previsão do ECMWF chegam a projetar anomalias próximas de +4,3°C na região Niño 3.4, patamar considerado extraordinariamente elevado.
Pelo Índice Oceânico Niño (ONI), o recorde de aquecimento registrado até este episódio era de +3°C, em 2015. Atualmente, a anomalia na porção Centro-Leste do Pacífico está em +3,2°C, já em território recorde. A maior parte das simulações permanece acima de +3,5°C no período de pico, indicando que o fenômeno deve alcançar sua maior intensidade entre o fim da primavera e o início do verão do Hemisfério Sul. Depois do pico projetado para o fim de 2026, o modelo europeu indica redução gradual das anomalias da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial, mas em ritmo lento. Em janeiro e fevereiro de 2027, grande parte dos cenários ainda mantém anomalias entre aproximadamente +3°C e +4°C. Em março e abril, apesar da tendência de enfraquecimento, muitos membros continuam apontando valores entre +2,5°C e +3,5°C. Dessa forma, a projeção do ECMWF indica que o El Niño não desapareceria rapidamente após o verão, permanecendo em intensidade muito forte durante os primeiros meses de 2027 e ainda em nível forte no início do outono.
Os valores apresentados pelo modelo europeu representam anomalias mensais da temperatura da superfície do mar em relação à climatologia de 1991-2020 do ERA5 e, portanto, não devem ser comparados diretamente com o ONI utilizado pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). A dispersão entre os membros do conjunto de previsão também aumenta conforme o horizonte temporal se amplia a partir da inicialização de 1º de outubro, indicando maior incerteza para os meses mais distantes. Apesar disso, praticamente todas as simulações permanecem em território de forte aquecimento durante vários meses, reforçando a perspectiva de persistência do fenômeno. O modelo climático norte-americano CFS (Climate Forecast System), da NOAA, apresenta trajetória semelhante à do ECMWF no curto e médio prazo, mas diverge quanto à velocidade de enfraquecimento no longo prazo. O modelo dos Estados Unidos, que é atualizado diariamente, projeta a região Niño 3.4 com anomalias extremamente elevadas no fim de 2026, com o conjunto de previsões concentrado em valores próximos de +3°C a +3,5°C e alguns membros acima de +3,5°C.
O pico projetado pelo CFS também ocorre entre novembro e dezembro de 2026, seguido por uma tendência gradual de enfraquecimento a partir do início de 2027. A principal diferença em relação ao ECMWF está na velocidade desse processo. Enquanto o modelo europeu mantém grande parte dos cenários com anomalias próximas ou acima de +3°C até março e abril de 2027, o CFS prevê uma queda mais acentuada durante o primeiro semestre. Pela projeção norte-americana, a anomalia do Niño 3.4 recuaria para perto de +2°C em março, aproximando-se de +1°C em abril e maio. Em parte dos membros, o índice chegaria próximo da neutralidade no início do inverno de 2027. Dessa forma, os dois principais modelos apresentam consenso quanto à forte intensidade do El Niño no fim de 2026, mas divergem sobre a persistência do fenômeno ao longo de 2027. A intensidade excepcional do El Niño, entretanto, não implica necessariamente que seus impactos regionais terão magnitude igualmente excepcional.
A relação entre a intensidade do fenômeno e suas consequências não é linear, uma vez que diferentes fatores atmosféricos atuam simultaneamente e podem alterar a intensidade dos efeitos em cada região do Brasil. Assim, um El Niño de intensidade recorde não significa necessariamente que o Sul do Brasil terá as maiores enchentes da história ou que o Norte e o Nordeste enfrentarão as maiores secas já observadas. Historicamente, na Região Norte do Brasil, o El Niño tende a reduzir as chuvas, principalmente no norte e no leste da Amazônia. A menor precipitação, combinada a temperaturas mais elevadas, favorece a propagação de queimadas e pode agravar incêndios florestais. Na Região Nordeste, os efeitos tendem a ser mais críticos, com redução acentuada das precipitações, possibilidade de episódios de seca, comprometimento do abastecimento de água e impactos negativos sobre a agricultura. Na Região Centro-Oeste, os efeitos historicamente são mais moderados, com possibilidade de chuvas acima da média em algumas áreas, especialmente no Sul da região, acompanhadas por temperaturas mais elevadas.
Episódios de calor intenso tendem a se tornar mais frequentes, principalmente no fim do inverno e durante a primavera, enquanto as condições de maior calor e secura podem favorecer o aumento das queimadas. Na Região Sudeste, os sinais são mais heterogêneos. Há episódios de El Niño associados a chuvas acima da média, como no atual evento, e outros caracterizados por condições mais secas e quentes, como ocorreu em 2023. Dessa forma, não existe um padrão consistente de alteração do regime de chuvas e temperaturas na região exclusivamente em função do El Niño. Na Região Sul do Brasil, os efeitos historicamente são mais marcantes, com aumento das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente durante o inverno e a primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Mesmo durante o verão, entretanto, podem ocorrer episódios extremos de chuva e enchentes. As duas maiores enchentes da história do Rio Grande do Sul, registradas em 1941 e 2024, ocorreram no primeiro outono do ano seguinte ao início do El Niño, e não no primeiro ano do fenômeno.
No episódio atual, essa janela corresponderia ao outono de 2027, o que mantém a necessidade de monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas ao longo do próximo ano. O El Niño também tende a elevar a frequência de temporais e ciclones no Sul do Brasil, incluindo eventos de maior intensidade, enquanto as temperaturas permanecem acima da média, embora possam ocorrer incursões de frio. O fim do inverno e a primavera constituem períodos de maior risco de tempo severo e temperaturas elevadas, com possibilidade de ondas de tempestades acompanhadas de granizo, vendavais e tornados. Para o agronegócio brasileiro, a persistência do fenômeno até 2027 amplia a importância do acompanhamento das projeções climáticas, principalmente porque os efeitos sobre chuva e temperatura variam significativamente entre as regiões e ao longo das estações. A diferença entre os modelos ECMWF e CFS também reforça que, embora exista elevada confiança na manutenção de um El Niño forte no fim de 2026, a duração e a intensidade ao longo de 2027 ainda apresentam incerteza, especialmente nos horizontes mais distantes. Fonte: MetSul. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.