07/Oct/2026
A expansão dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) e dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) representa uma mudança estrutural no financiamento do agronegócio e deve continuar nos próximos anos, embora em ritmo potencialmente inferior ao observado nos últimos três anos. Juros elevados, maior acesso dos investidores às operações de crédito e mudanças regulatórias contribuíram para ampliar o mercado de crédito estruturado destinado ao setor. A eventual elevação da inadimplência não elimina a capacidade de financiamento das cadeias do agronegócio. O mercado reúne investidores com diferentes níveis de tolerância ao risco, desde que a remuneração e as condições das operações sejam compatíveis com a exposição assumida. Essa estrutura permite a realização de operações inclusive com empresas em recuperação judicial (RJ), desde que a análise considere a capacidade do devedor, as garantias envolvidas e os prazos de carência e pagamento.
Os FIDCs direcionam recursos de investidores para direitos creditórios, como valores decorrentes de vendas a prazo, permitindo antecipar recursos para empresas ou produtores que têm recebíveis a receber. Os Fiagros são instrumentos específicos para o agronegócio e podem aplicar em diferentes ativos vinculados ao setor, incluindo operações de crédito. A regulamentação específica dos Fiagros entrou em vigor em março de 2025, após um período de regras experimentais, e foi incorporada ao marco regulatório dos fundos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O ambiente de juros elevados contribuiu para direcionar recursos dos investidores para aplicações vinculadas ao CDI nos últimos anos, mas essa condição pode perder força caso ocorra redução das taxas de juros. A expansão do crédito estruturado, entretanto, apresenta componentes considerados mais permanentes, como a aproximação entre investidores e operações e a possibilidade de distribuir riscos entre diferentes perfis de participantes do mercado.
Nesse modelo, podem ser estruturadas operações com cotas em diferentes níveis de proteção e remuneração. Investidores dispostos a assumir maior risco podem buscar retornos superiores, enquanto participantes com menor tolerância à exposição podem optar por posições mais protegidas e, consequentemente, aceitar remuneração inferior. A estrutura permite distribuir o risco da operação de acordo com o perfil de cada investidor. Na seleção dos créditos, a avaliação interna das gestoras ganha importância como complemento às classificações produzidas pelas agências de risco. Operações com a mesma nota externa podem apresentar diferenças relevantes em suas características, estrutura de garantias e remuneração. O conhecimento do histórico do devedor e o acompanhamento de sua evolução financeira permitem aprimorar a diferenciação dos riscos e o processo de precificação do financiamento.
Nas operações de maior valor e maior concentração em uma única empresa, balanços financeiros, governança corporativa e fundamentos do negócio assumem papel central na avaliação. A análise individualizada torna-se particularmente relevante para identificar diferenças entre empresas que, embora apresentem classificações de risco semelhantes, podem possuir estruturas financeiras e capacidades de geração de caixa distintas. A tecnologia ganha relevância nas carteiras com grande quantidade de tomadores e menor disponibilidade de informações financeiras estruturadas. Em operações com 500 a 1.000 produtores rurais, por exemplo, parte relevante dos tomadores pode ser composta por pessoas físicas sem balanços financeiros comparáveis aos disponíveis em grandes empresas. Nesse cenário, ferramentas de geolocalização e imagens de satélite podem auxiliar na avaliação das condições das regiões produtoras e das atividades financiadas.
A análise também considera a capacidade do originador do crédito de utilizar tecnologia para acompanhar os clientes após a concessão dos recursos. O monitoramento contínuo permite identificar antecipadamente alterações nas condições financeiras ou produtivas dos tomadores e adotar medidas antes que os problemas comprometam a capacidade de pagamento. Essa atuação preventiva pode contribuir para elevar a recuperação dos valores financiados e melhorar o retorno dos cotistas. A proteção contra oscilações dos preços agrícolas também ganhou importância na avaliação do crédito. A capacidade de produtores e empresas de reduzir a exposição às variações das cotações passou a ser considerada um elemento relevante de gestão de risco, especialmente diante da dificuldade de antecipar a direção dos mercados de commodities. A utilização de mecanismos de proteção de preços pode preservar a geração de caixa e a capacidade de pagamento durante períodos de condições adversas.
Outro ponto relevante é a diferença entre patrimônio e liquidez. A existência de patrimônio, especialmente em ativos de baixa liquidez, não substitui a disponibilidade de recursos necessária para honrar compromissos financeiros. A aquisição de terras por produtores sem recursos líquidos suficientes reforça a necessidade de avaliar a capacidade de geração de caixa e a estrutura de liquidez do tomador. Nesse contexto, o crédito estruturado tende a continuar ampliando sua participação no financiamento do agronegócio, mas com maior exigência de análise, monitoramento e diferenciação de risco. A capacidade de pagamento deve permanecer vinculada à geração de caixa das empresas e produtores, enquanto garantias, governança, proteção contra oscilações de preços, tecnologia e liquidez ganham peso na definição das condições das operações. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.