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05/Oct/2026

Crédito Rural: inadimplência recorde pressiona bancos

A deterioração do crédito rural ganhou intensidade em agosto e reduz as perspectivas de uma inflexão imediata no ciclo de dificuldades financeiras do agronegócio. O ritmo conservador de redução dos juros, a elevação dos custos de fertilizantes e combustíveis e as incertezas climáticas associadas ao El Niño mantêm pressão sobre as margens dos produtores e indicam um terceiro trimestre ainda desafiador para os bancos com forte exposição ao agronegócio, entre eles o Banco do Brasil (BB). A inadimplência de pessoas físicas no crédito rural com recursos direcionados alcançou o recorde de 9,7% em agosto, ante 8,8% em julho, segundo dados do Banco Central. Nas operações contratadas a taxas de mercado, o indicador avançou de 15,5% para 17,6% no período. Nas operações a taxas reguladas, a inadimplência passou de 3,7% para 3,8%. A evolução dos indicadores evidencia a continuidade das restrições de liquidez, especialmente entre pequenos e médios produtores.

Embora também tenham sido registradas dificuldades pontuais entre grandes agentes, a maior concentração dos problemas está entre agricultores de menor porte, sobretudo nas culturas de soja e milho. Esse segmento é mais exposto à elevação dos custos de fertilizantes e combustíveis, em um ambiente de pressão adicional provocada pela guerra no Oriente Médio. Na avaliação da Moody’s Ratings, os fatores que provocaram a deterioração inicial das condições financeiras continuam presentes e passaram a incorporar também os efeitos potenciais do El Niño sobre a atividade agrícola. O cenário climático acrescenta risco a produtores que já enfrentam restrições financeiras e reduz a visibilidade sobre a recuperação da capacidade de pagamento. A escassez de caixa também tem levado parte dos produtores a recorrer à Justiça para reorganizar as dívidas. No primeiro trimestre, o agronegócio brasileiro registrou 474 pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o levantamento mais atualizado da Serasa Experian.

O aumento dos pedidos de recuperação judicial amplia as incertezas para o sistema financeiro, ao prolongar processos de renegociação, dificultar a recuperação de créditos problemáticos e exigir maior constituição de provisões para eventuais perdas. A resolução dessas situações tende a ser demorada, mantendo elevada a pressão sobre a qualidade das carteiras de crédito rural. No Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio no País, a deterioração do crédito se intensificou desde o ano passado. O banco encerrou o primeiro semestre com carteira rural de R$ 422 bilhões, dos quais 6,27% apresentavam atrasos superiores a 90 dias, ante 3,16% um ano antes. Na Caixa Econômica Federal, a inadimplência rural chegou a 20,7%. A principal expectativa dos bancos para reduzir a pressão sobre as carteiras está concentrada na Medida Provisória 1.376, que estabelece condições para a renegociação de R$ 100 bilhões em dívidas do agronegócio.

No Banco do Brasil, a expectativa inicial é renegociar cerca de R$ 30 bilhões em dívidas atrasadas, movimento que pode proporcionar alívio relevante sobre os indicadores de crédito. O foco imediato do BB é recuperar o índice de pontualidade do agronegócio, que mede o percentual das parcelas de crédito pagas dentro do prazo de vencimento. Em junho, esse indicador estava em 74%. A instituição trabalha com a perspectiva de recuperar, nos próximos meses, níveis de pontualidade próximos de 90%. O banco também adotou critérios mais rigorosos na exigência de garantias para novas operações. Na safra 2025/2026, 70% das operações de crédito rural já previam alienação fiduciária, modalidade em que o bem permanece vinculado ao credor até a quitação da dívida. Apesar das medidas de renegociação e do maior rigor na concessão de crédito, o ambiente de curto prazo continua sujeito a obstáculos.

A recorrência de programas de renegociação contribui para reduzir a pressão financeira sobre os produtores, mas também pode estimular a postergação de pagamentos na expectativa de novas condições favoráveis, mecanismo associado ao chamado risco moral. Na avaliação da Moody’s Ratings, essas medidas têm caráter paliativo quando não solucionam os problemas estruturais de geração de caixa e solvência dos produtores. O Plano Safra 2026/2027, iniciado em julho, será um dos principais testes para avaliar o ritmo de recuperação do setor. O governo disponibilizou R$ 610,3 bilhões para o financiamento de pequenos, médios e grandes produtores, aumento de mais de 2% em relação à edição anterior. Os bancos, de forma geral, já adotam uma originação mais seletiva no novo ciclo, mas os efeitos dessa postura sobre a qualidade dos balanços tendem a aparecer com maior clareza somente em 2027. A avaliação de instituições financeiras é de que ainda é prematuro considerar encerrado o ciclo de deterioração do crédito rural.

O terceiro trimestre deve permanecer pressionado, enquanto o quarto trimestre será importante para verificar se as renegociações previstas estão produzindo efeitos sobre a capacidade de pagamento dos produtores. O principal desafio para os bancos será diferenciar produtores que enfrentam restrições pontuais de liquidez daqueles que apresentam problemas estruturais de solvência. Para a efetiva melhora da qualidade das carteiras e dos balanços das instituições mais expostas ao agronegócio, será necessário verificar a capacidade dos produtores de manter os pagamentos depois do alongamento dos prazos. A normalização do crédito rural tende a depender da redução da dependência de renegociações extraordinárias e da retomada da capacidade dos produtores de acessar recursos em condições de mercado. Enquanto esse processo não ocorrer, a combinação entre inadimplência elevada, custos de produção, incertezas climáticas e necessidade recorrente de reestruturação de dívidas deve manter os bancos sob pressão. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.