02/Oct/2026
A inadimplência no crédito rural para produtores pessoas físicas atingiu novo recorde em agosto, alcançando 9,7% da carteira total de recursos direcionados, provenientes de depósitos à vista e da poupança rural, conforme dados do Banco Central. O índice avançou quase dez vezes em três anos, ante 1% em agosto de 2023, e ocorre em um ambiente de dificuldades financeiras, elevado endividamento e menor liquidez no setor agropecuário, com potencial de impacto sobre a safra 2026/27, cuja implantação já começou. A deterioração da capacidade de pagamento dos produtores vem sendo contínua. Em julho, a inadimplência das pessoas físicas havia atingido 8,8%, até então o maior nível da série, e avançou para 9,7% em agosto. O indicador considera operações de financiamento rural com atraso superior a 90 dias. Entre as pessoas jurídicas, a inadimplência chegou a 1% em agosto, o maior percentual desde outubro de 2020, quando havia alcançado 5,8%.
O cenário de endividamento e falta de liquidez observado no campo desde 2025 continua pressionando a capacidade financeira dos produtores e tende a manter o ambiente de crédito restritivo. A renegociação das dívidas previstas nas medidas adotadas pelo governo ainda não produziu efeito suficiente para reverter a deterioração dos indicadores. A dificuldade de acesso às renegociações previstas na Medida Provisória 1.376/2026 também permanece como um dos pontos de atenção para os produtores. O aumento da inadimplência já afeta a concessão de novos financiamentos. Instituições financeiras passaram a adotar maior cautela na liberação de recursos, enquanto lideranças do setor apontam que o ritmo de contratação das linhas tradicionais do crédito rural é o mais lento dos últimos cinco anos. A área financiada pelo Plano Safra também apresenta retração, reduzindo a capacidade de utilização do crédito formal para custeio e investimentos. A deterioração é mais acentuada nas operações contratadas a taxas de mercado.
Entre as pessoas físicas, a inadimplência avançou de 15,6% em julho para 17,6% em agosto, o maior nível da série histórica acompanhada pelo Banco Central desde 2011. Nos financiamentos com juros controlados para o tomador final, o indicador passou de 3,7% para 3,8%, também recorde. A carteira de crédito rural com recursos direcionados das pessoas físicas somava R$ 557,7 bilhões em agosto. Nas pessoas jurídicas, a inadimplência também é mais elevada nas operações com taxas de mercado, nas quais o indicador permaneceu em 1,2% em agosto. Nos financiamentos com tarifas controladas, o percentual ficou em 0,4%. A carteira de crédito rural com recursos direcionados para pessoas jurídicas totalizava R$ 127,1 bilhões. A elevação da inadimplência ocorre em paralelo a uma mudança no comportamento financeiro dos produtores, que, em alguns casos, têm priorizado o pagamento de fornecedores de insumos em detrimento das obrigações bancárias.
A utilização dos recursos provenientes da comercialização da produção passada para financiar a aquisição de insumos para a nova safra reduz a disponibilidade de caixa para o serviço da dívida e amplia a pressão sobre o sistema financeiro. Apesar das restrições de crédito, as compras e o consumo de insumos continuam apresentando volumes próximos aos observados em safras anteriores, sustentados pela expectativa de produção recorde e pelo crescimento da área plantada em torno de 1,4% na safra 2026/27. Esse comportamento indica que a necessidade de preservar o potencial produtivo mantém a demanda por fertilizantes, defensivos, sementes e demais insumos, mesmo diante da deterioração da liquidez dos produtores. A combinação entre maior inadimplência, concessão mais seletiva de crédito e necessidade de financiamento para a nova safra aumenta o risco de restrição financeira ao longo do ciclo 2026/27. O problema tende a ser mais relevante para produtores com maior exposição a operações de mercado, nas quais os juros são mais elevados e a inadimplência já alcança patamares significativamente superiores aos registrados nas linhas controladas.
As taxas médias de juros apresentaram movimentos distintos em agosto. Para produtores pessoas jurídicas, a taxa média caiu de 12% ao ano em julho para 11,6% ao ano em agosto. Para pessoas físicas, permaneceu em 11,1% ao ano. A redução pontual do custo médio para empresas, contudo, ocorre em um ambiente de maior seletividade na concessão, de modo que a taxa contratada não representa isoladamente a facilidade de acesso aos recursos. A evolução dos indicadores reforça a necessidade de acompanhamento da capacidade de financiamento da produção agropecuária durante a safra 2026/27. A expansão da inadimplência para níveis recordes entre produtores pessoas físicas, combinada à retração da área financiada pelo Plano Safra e à maior cautela das instituições financeiras, indica que o crédito se tornou um dos principais pontos de pressão sobre a liquidez do setor. A efetividade das renegociações de dívidas e a capacidade de normalização do fluxo de recursos serão determinantes para reduzir as restrições financeiras ao longo do ciclo. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.