02/Oct/2026
A reunião de ministros do Comércio do G20, realizada em Milwaukee, nos Estados Unidos, colocou as negociações bilaterais no centro da agenda comercial, com as tarifas norte-americanas e as relações entre Estados Unidos, Brasil, China, União Europeia e Índia entre os principais temas. A presidência norte-americana do encontro definiu quatro frentes de discussão: comércio de alimentos, excesso de capacidade e produção, princípio da Nação Mais Favorecida (NMF) e trabalho forçado nas cadeias globais de suprimentos. O princípio da Nação Mais Favorecida, previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), estabelece que vantagens, privilégios ou reduções tarifárias concedidos a um parceiro comercial devem ser estendidos de forma imediata e incondicional aos demais membros da organização. A discussão sobre o princípio ganhou relevância diante da política tarifária dos Estados Unidos, que passou a privilegiar negociações e acordos bilaterais. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, colocou entre os objetivos da reunião a revisão do princípio da NMF e o enfrentamento de distorções associadas ao excesso de capacidade produtiva e ao trabalho forçado.
Para o Brasil, a reunião ministerial também abriu espaço para a discussão das sobretaxas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, incluindo as medidas relacionadas à Seção 301 e aquelas associadas a esforços de combate ao trabalho forçado. A agenda bilateral ganhou espaço dentro da programação do G20 porque os interesses nacionais dos países participantes permanecem vinculados às negociações comerciais específicas. Brasil e Estados Unidos realizaram uma reunião bilateral de aproximadamente 40 minutos à margem do encontro ministerial, com participação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e de Jamieson Greer. O encontro foi considerado construtivo pelos governos e resultou na decisão de criar um grupo de trabalho para discutir temas relacionados a um possível acordo comercial. Os Estados Unidos deverão encaminhar nas próximas semanas um documento com uma proposta para o escopo dos trabalhos, incluindo questões tarifárias e não tarifárias.
A negociação bilateral ocorre em um contexto de tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e de busca do Brasil por uma redução dessas barreiras. O MDIC informou que os dois governos reconheceram a necessidade de avançar na superação dos obstáculos existentes e manifestaram disposição para trabalhar de forma célere na busca de um entendimento sobre a relação comercial. A avaliação de especialistas em comércio exterior e geopolítica é de que eventuais avanços durante a reunião do G20 tendem a ocorrer principalmente por meio de entendimentos bilaterais dos Estados Unidos com parceiros como Brasil, União Europeia e Índia. A expectativa para resultados amplos no âmbito multilateral permanece limitada, em razão das diferenças entre os integrantes do grupo sobre regras comerciais, tarifas e políticas industriais. A proximidade das eleições brasileiras também é apontada como um fator que pode influenciar o ritmo das negociações nas próximas semanas.
A avaliação é de que documentos, propostas e indicações de avanço podem ser apresentados no curto prazo, mas que decisões de maior alcance podem depender do cenário político após o processo eleitoral. Nos Estados Unidos, a realização das eleições legislativas de meio de mandato em novembro também integra o contexto político das negociações comerciais. A reunião ministerial ainda é acompanhada pelos preparativos para a cúpula de líderes do G20, prevista para dezembro, em Miami. Nesse encontro, os resultados das eleições brasileira e norte-americana já estarão conhecidos, o que poderá alterar o contexto das negociações entre os dois países e a composição das respectivas equipes de governo. A China ocupa posição central na agenda comercial dos Estados Unidos e representa um fator relevante para o Brasil. A política norte-americana busca conter o avanço da capacidade produtiva chinesa em setores industriais, enquanto o Brasil mantém relações comerciais e industriais crescentes com o país asiático.
O debate envolve setores como aço e produtos químicos, nos quais a expansão da oferta chinesa é acompanhada simultaneamente por efeitos sobre os custos de insumos e por maior concorrência para a indústria brasileira. No comércio agrícola, a relação com a China também apresenta mudanças. O plano quinquenal chinês prevê redução da dependência de importações de alimentos e aumento da autossuficiência produtiva. Esse movimento já é associado à redução das compras de milho brasileiro e à utilização da cota anual de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina, cuja limitação afeta o fluxo das exportações brasileiras até a abertura de um novo ciclo. Apesar da ampliação da produção interna chinesa por meio de investimentos tecnológicos, há limitações para a expansão da oferta doméstica de produtos agropecuários. Nesse contexto, a relação comercial entre Brasil e China permanece marcada simultaneamente pelo crescimento da presença chinesa na economia brasileira e pelos efeitos das políticas de autossuficiência e de redução da dependência externa adotadas pela China. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.