01/Oct/2026
O aumento do custo de vida e a desaceleração da economia do Chile estão reduzindo o consumo das famílias e atingindo inclusive o ‘completo’, versão chilena do cachorro-quente considerada tradicional e de baixo custo. Em Santiago, o preço do lanche passou de cerca de 2.500 pesos, equivalentes a R$ 13,50, para uma faixa entre 3.500 e 4.000 pesos, ou R$ 19,00 a R$ 21,00. Dados oficiais divulgados em setembro apontam que o Chile está próximo de uma recessão, após dois trimestres consecutivos de retração econômica. A taxa de desemprego subiu para 9,5%, o maior nível em cinco anos, enquanto a inflação acumulada em 12 meses acelerou para 4,1%, pressionada principalmente pelos preços dos alimentos e do transporte. Diante desse cenário, o Banco Central do Chile reduziu a projeção de crescimento da economia em 2026. A estimativa anterior, de expansão entre 1% e 1,75%, passou para uma faixa entre 0,25% e 0,75%.
A autoridade monetária também avalia que a fragilidade da economia poderá persistir por mais tempo do que o inicialmente projetado. O ‘completo’ surgiu em uma pequena lanchonete do centro de Santiago no início da década de 1930 e se consolidou como um alimento consumido por diferentes classes sociais. A receita tradicional inclui salsicha, chucrute, tomate e maionese artesanal de batata, posteriormente complementada com abacate e outros ingredientes. A combinação deu origem ao nome completo, por ser considerada uma refeição completa. A trajetória do lanche acompanha mudanças no padrão de consumo. Em períodos de menor renda e maior restrição orçamentária, o completo permanece como alternativa a refeições mais caras. Com a elevação dos preços dos alimentos, entretanto, até esse segmento de consumo passou a sofrer pressão. A cesta básica de alimentos no Chile custava aproximadamente R$ 500,00 em agosto, alta de 5% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
O salário-mínimo no país é de aproximadamente R$ 2.800,00. O mercado chileno também enfrenta aumento dos preços dos combustíveis relacionado à guerra entre Estados Unidos e Irã. A combinação de inflação, combustíveis mais caros e menor crescimento econômico tem pressionado o poder de compra das famílias. Com o orçamento doméstico mais restrito, consumidores passaram a reduzir despesas, inclusive com alimentação fora de casa. O consumo em restaurantes e lanchonetes passou a ser tratado por parte das famílias como uma despesa de menor prioridade. Além da alimentação, os gastos com encontros sociais também vêm sendo reduzidos. Consumidores relatam maior frequência de refeições preparadas em casa e maior controle sobre despesas, em comparação com o ano anterior. A percepção entre trabalhadores é de que os reajustes salariais não acompanham integralmente a evolução dos custos de vida, ampliando a defasagem entre renda e preços.
Desde março, o presidente José Antonio Kast vem conduzindo uma agenda econômica voltada à recuperação do investimento e do emprego, em um momento de retração da atividade e do mercado de trabalho. O desafio para o governo é transformar medidas de médio e longo prazo em efeitos sobre renda, emprego e consumo das famílias. A percepção de frustração econômica também está relacionada ao ritmo de materialização dos investimentos. Embora tenha ocorrido avanço na aprovação de grandes projetos, a avaliação apresentada por analistas é de que os investimentos ainda não avançaram no ritmo necessário para produzir efeitos mais amplos sobre a atividade e o mercado de trabalho. Kast reconheceu recentemente que o país enfrenta inflação acima do esperado e crescimento abaixo das projeções. Em reunião com ministros e líderes dos partidos da coalizão governista, orientou a elaboração de um plano trabalhista de emergência, com apresentação prevista para as próximas semanas, sem detalhamento das medidas.
A iniciativa se soma a outras propostas anunciadas recentemente, entre elas uma reforma econômica e tributária aprovada pelo Congresso, mas ainda sem ratificação definitiva, em razão da análise, pelo Tribunal Constitucional, de ações apresentadas por partidos de oposição. A reforma inclui medidas como isenção tributária para grandes empresas, eliminação da bitributação para estimular o investimento privado e criação de compensação financeira para empresas cujos projetos sejam rejeitados por questões ambientais. Também prevê o direito ao esquecimento financeiro para dívidas antigas em novas avaliações de crédito e a proibição da cobrança de juros sobre juros. O ambiente econômico mais fraco aumenta a pressão para que as medidas de médio e longo prazo sejam convertidas em ações com efeitos mais diretos sobre a renda disponível das famílias. A combinação de renda pressionada e preços elevados amplia a dificuldade de equilíbrio dos orçamentos domésticos e evidencia a distância entre a evolução da renda dos consumidores e o custo dos produtos e serviços. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.