30/Sep/2026
Nas últimas semanas, estive duas vezes nos Estados Unidos acompanhando o agronegócio sob perspectivas diferentes. Na primeira agenda, meu olhar esteve principalmente no campo. Acompanhei parte da 50ª edição do Crop Tour do Grupo Labhoro, percorri regiões produtoras em Illinois e Iowa e participei da Farm Progress Show. Observei lavouras, produtividade, perdas e tecnologia e conversei com quem está enfrentando a realidade econômica desta safra, dentro e fora da porteira, em diferentes regiões e cadeias. Na sequência, fui a Nova Orleans para participar do Women in Agribusiness Summit, congresso internacional do setor, com discussões sobre economia agrícola, margens, crédito, tecnologia, consumo, liderança, gestão e transformação dos negócios. O que vi no campo e o que ouvi nas salas de decisão convergiu. O agronegócio intensifica um ciclo de pressão sobre as margens.
Desempenho menos remunerador, custos elevados - e ainda pressionados -, crédito caro, menor disponibilidade de caixa e incerteza climática formam uma combinação que reduz a margem de erro de empresas e de famílias produtoras. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a proximidade entre parte das preocupações que encontrei nos Estados Unidos e aquelas que acompanhamos na América do Sul. Os sistemas são diferentes. Estruturas de crédito, políticas agrícolas, instrumentos de proteção e condições macroeconômicas também. Ainda assim, margem, custo, caixa, crédito, clima, comercialização e rentabilidade estão no centro das discussões nos dois hemisférios. Nos Estados Unidos, milho, trigo e algodão enfrentaram perdas e pressão sobre os resultados em diferentes regiões e intensidades. O quadro financeiro também merece atenção. O USDA projeta renda agrícola líquida de US$ 158,4 bilhões em 2026, queda de 5,5% em termos reais na comparação com 2025.
O Federal Reserve de Kansas City, por sua vez, vem registrando deterioração gradual das condições financeiras no setor agrícola e margens estreitas em culturas relevantes. Não se trata de caracterizar uma crise generalizada na agricultura norte-americana. Os preços das terras seguem oferecendo suporte patrimonial, e há diferenças importantes entre culturas, regiões e atividades. O ponto central é que a equação econômica da produção ficou mais apertada. O atual ciclo de preços das commodities reduziu a capacidade de absorção de uma estrutura de custos que permanece elevada. Por isso, olhar apenas para produção ou cotação oferece uma leitura incompleta. Para uma empresa agrícola, o resultado depende da combinação entre produtividade, preço, câmbio, basis (prêmio/desconto), custos de produção e logística, além do custo financeiro. É justamente nessa combinação que entram estratégia comercial, hedge e instrumentos de proteção.
Hedge não cria margem onde ela não existe, mas pode proteger uma margem quando a oportunidade aparece e reduzir a exposição quando o mercado muda. É possível produzir bem e não obter resultado econômico satisfatório - e essa distinção é particularmente importante neste ciclo, porque há diferentes formas de perda. Há perda produtiva quando o clima ou outros fatores reduzem a produtividade ou retiram potencial da lavoura. Há perda econômica quando a combinação entre produtividade, preço e custo não proporciona margem adequada. E há pressão financeira quando margens menores encontram juros elevados, necessidade de capital de giro, endividamento e menor disponibilidade de caixa. Neste momento, essas três dimensões precisam ser analisadas em conjunto. Gestão de risco começa justamente pela compreensão de como uma variável pode potencializar o efeito da outra. O custo do dinheiro tornou-se uma variável central nas decisões do agro.
Crédito caro interfere na aquisição de insumos, no investimento em tecnologia, no carregamento de estoques e na comercialização. Também amplia a diferença entre operações capitalizadas e aquelas mais dependentes de recursos de terceiros. Quando o dinheiro custa mais, há menos espaço para financiar ineficiências. Uma posição física carregada por mais tempo tem custo financeiro. Uma decisão comercial postergada mantém exposição ao mercado. Investimentos passam a disputar recursos dentro da própria empresa. E a necessidade de financiar o próximo ciclo pode reduzir a liberdade de escolha justamente no momento em que ela é mais necessária. Em gestão de risco, liquidez também significa opcionalidade. Quem preserva caixa e capacidade de crédito preserva alternativas. Quem chega pressionado financeiramente ao momento da decisão muitas vezes já não escolhe entre as melhores opções: escolhe entre as opções que restaram.
Por isso, caixa, liquidez e estratégia comercial não podem ser tratados separadamente. Embora os mecanismos de financiamento sejam diferentes nos Estados Unidos e na América do Sul, há uma lógica comum: quando a margem diminui e o dinheiro fica caro, preservar a capacidade de decisão ganha valor econômico. O clima adiciona pressão à equação. A América do Sul inicia a safra 2026/27 com uma variável de risco relevante. O El Niño vem se formando desde o início do ano e sua evolução ganhou corpo à medida que avança a janela de plantio e desenvolvimento das culturas. Os prognósticos climáticos vêm indicando fortalecimento do fenômeno, o que exige atenção redobrada à distribuição das chuvas, às temperaturas e à evolução das condições regionais. Os indicadores do ENSO seguem apontando intensificação, mas isso não significa associar automaticamente excesso de chuva ou seca a determinadas regiões. Os efeitos precisam ser analisados regionalmente e em conjunto com outros componentes.
Ainda assim, já se observam bolsões de produção sob estresse, e o risco climático encontra agora uma estrutura econômica menos confortável. Perda de produtividade em um ambiente de margens amplas produz determinado impacto. A mesma perda, sobre custos elevados, crédito caro e caixa pressionado, tem consequências maiores. Essa relação também precisa fazer parte da gestão e da mitigação de riscos. O desafio está na combinação das variáveis. Preço, clima, câmbio, juros, crédito, custos e geopolítica sempre fizeram parte do agronegócio. O que merece atenção neste ciclo é a possibilidade de mais de uma dessas variáveis pressionar simultaneamente o resultado. Uma operação pode absorver preços menos favoráveis se tiver produtividade e custos adequados. Pode enfrentar redução de produtividade se tiver margem, liquidez e proteção. Pode atravessar um período de preços baixos se tiver caixa. A situação se torna mais complexa quando preço, produtividade, custo e financiamento pressionam o resultado ao mesmo tempo.
Por isso, gestão de riscos não pode ser entendida apenas como hedge ou proteção contra oscilações de preços. Hedge é uma ferramenta importante, mas a gestão de risco é maior do que isso. Precisa incorporar margem, liquidez, crédito, câmbio, clima, comercialização, estrutura de capital e capacidade de reação. Mitigar risco não significa eliminar risco. Significa conhecer a exposição, estabelecer limites e usar os instrumentos disponíveis para impedir que uma variável fora de controle comprometa todo o negócio. Em um ambiente como este, compra de insumos, comercialização, câmbio, hedge e financiamento não deveriam ser decisões isoladas. São partes da mesma construção de margem. Mais importante do que tentar antecipar o melhor preço de uma commodity é saber qual margem determinado preço oferece, que parcela dela pode ser protegida e quanto risco financeiro a operação consegue suportar. O custo de esperar aumentou.
Em períodos de incerteza, há uma tendência natural de adiar decisões: esperar um preço melhor, uma definição do câmbio, uma mudança nos juros ou uma sinalização climática mais clara. Mas esperar também tem custo. Uma posição mantida por mais tempo tem custo de carregamento. Uma decisão comercial adiada mantém exposição. Capital financiado continua acumulando juros. E há uma diferença importante entre decidir manter uma exposição e simplesmente não tomar uma decisão. A primeira pode fazer parte de uma estratégia. A segunda também produz consequências econômicas, mas sem necessariamente ter sido mensurada. Hedge não deveria ser avaliado pelo preço que o mercado apresentou depois, mas pela margem e pelo risco que permitiu proteger no momento da decisão. Isso não significa defender comercializações antecipadas a qualquer preço ou eliminar exposição ao mercado. Significa trabalhar com critérios.
Margens-alvo, necessidade de caixa, capacidade financeira, instrumentos de hedge e níveis de exposição precisam fazer parte da estratégia antes que o mercado - ou a situação financeira - imponha uma decisão. Depois dessas duas passagens recentes pelos Estados Unidos, o principal saldo que trago não está em um número específico de produtividade de soja ou milho, nem em uma projeção de tendência de preços, mas na convergência dos sinais. No campo, acompanhei discussões sobre a extensão das perdas e a pressão sobre resultados em diferentes culturas e regiões. Nas discussões executivas, ouvi preocupações semelhantes sobre margens, crédito, caixa, custos, tecnologia, produtividade e rentabilidade. Quando cruzo essas observações com o que estamos acompanhando na América do Sul, minha leitura é de um período de menor tolerância ao erro e maior dispersão de resultados. Isso não significa que todas as operações terão perdas.
Mas é um alerta ainda mais relevante em um ambiente no qual dificuldades de liquidez, endividamento e recuperações judiciais passaram a ocupar espaço crescente nas discussões do setor. Duas empresas agrícolas com produtividade semelhante podem encerrar o ciclo com resultados muito diferentes, dependendo da estrutura de custos, endividamento, momento de aquisição de insumos, estratégia cambial, hedge, comercialização e disponibilidade de caixa. As operações mais capitalizadas terão maior flexibilidade; as mais alavancadas, menos. Quem conhece seus custos e trabalha com margem terá mais elementos para decidir do que quem administra o negócio olhando predominantemente para preço. E quem preservou liquidez poderá encontrar oportunidades que não estarão disponíveis para todos. Esse é, para mim, o principal saldo das duas viagens: as realidades físicas, culturais e econômicas dos dois hemisférios não são iguais, mas a margem para decisões equivocadas diminuiu em ambos.
Produzir continua sendo a base do negócio agrícola. Neste ciclo, porém, a qualidade das decisões comerciais e financeiras pode ter peso tão relevante para o resultado quanto a própria produtividade. Minha leitura é que, além das expectativas sobre a trajetória dos mercados, esta janela exigirá muito mais clareza sobre o que decidir, proteger e controlar dentro dos negócios. Conhecer a fundo os custos, preservar caixa, trabalhar margens, definir níveis de exposição, fazer hedge quando a oportunidade se apresenta e antecipar decisões não elimina os riscos de uma atividade sujeita ao clima, aos mercados e à geopolítica. Mas amplia a capacidade de mitigá-los e, sobretudo, preserva alternativas quando o cenário muda. Depois de quase três décadas acompanhando mercados e vivenciando a máxima de que dinheiro não aceita desaforo, aprendi que risco não se resume a preço, clima, decisões geopolíticas, fatores macroeconômicos ou câmbio. O risco também reside nas decisões que adiamos, nas exposições que desconhecemos e na margem que deixamos de proteger. Fonte: Andrea Cordeiro. Broadcast Agro.