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28/Sep/2026

Inflação: fim da trégua de alimentos em setembro

O IPCA-15 de setembro subiu 0,70%, acima da mediana de 0,45% das projeções e do teto das estimativas, de 0,66%. A principal surpresa veio da velocidade da reversão dos preços dos alimentos, que passaram a exercer maior pressão sobre o índice após um período recente de deflação. A alimentação no domicílio passou de queda de 0,97% em agosto para alta de 0,38% em setembro, uma mudança de 1,35 ponto porcentual. Entre os principais aumentos, o tomate subiu 20,76%, o arroz avançou 2,39% e as carnes tiveram alta de 1,30%. Açúcares, óleos e laticínios também registraram aumentos. A alta dos alimentos, contudo, não foi disseminada por todo o grupo. A pressão concentrou-se principalmente em produtos in natura, arroz e carnes. Ainda assim, setembro pode representar o início de uma fase menos favorável para a alimentação, com maior influência de fatores climáticos sobre a oferta. O aumento das chuvas e as mudanças nas condições climáticas elevam os riscos de oscilações de produção, disponibilidade e preços. Os produtos que apresentaram maiores altas têm dinâmicas distintas.

No caso do tomate, o frio retardou a maturação e reduziu a oferta. O atacado em São Paulo e no Rio de Janeiro já registrou quedas na semana de 14 a 18 de setembro, o que abre espaço para acomodação dos preços, embora o repasse dessa redução ao varejo ocorra com defasagem. A intensidade do avanço observado em setembro, portanto, não necessariamente deve se repetir nos próximos meses. No arroz, o risco está relacionado à duração da pressão. A indústria enfrenta dificuldades para recompor estoques, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção da safra 2025/26 seja cerca de 13,2% menor que a da temporada anterior. Nas carnes, a menor disponibilidade de animais para abate e a expectativa de confinamento abaixo dos níveis de 2025 reduzem o espaço para quedas de preços. O cenário mantém risco de persistência da pressão no curto prazo e aumenta a possibilidade de aceleração dos alimentos no último trimestre, período em que a sazonalidade tende a ser menos favorável e o fenômeno El Niño permanece no radar climático.

A trajetória recente dos alimentos também ajuda a explicar a percepção de encarecimento da alimentação entre os consumidores. Em seis anos, desde a pandemia, a alimentação no domicílio acumula alta de 63%, ante avanço de 43% do IPCA, diferença de 20 pontos porcentuais. A deflação observada mais recentemente proporcionou apenas alívio parcial, uma vez que a queda dos preços foi pequena diante do aumento acumulado ao longo do período. Enquanto os alimentos explicaram parte relevante da surpresa do IPCA-15, a inflação de serviços permanece como um dos principais pontos de atenção para a política monetária. O grupo acumula alta de 5,3% em 12 meses. Embora tenha recuado em relação ao patamar próximo de 6%, a desaceleração ocorre de forma lenta. Os serviços representam quase 40% do IPCA e permanecem acima do teto da meta, ao contrário dos alimentos, que são mais diretamente influenciados por condições de oferta e fatores climáticos e têm menor sensibilidade à política monetária. Os preços monitorados, como energia elétrica e água, representam cerca de 25% do IPCA e acumulam variação superior a 5% em 12 meses.

Somados aos serviços, os dois grupos correspondem a aproximadamente 65% do índice e permanecem acima do intervalo de tolerância da meta de inflação. No lado mais favorável, os bens duráveis acumulam alta inferior a 3% em 12 meses. O comportamento é associado ao ambiente de juros elevados, com a taxa Selic em 13,75%, que restringe a demanda e reduz a pressão sobre os preços desses produtos. O resultado do IPCA-15 de setembro, portanto, não elimina a possibilidade de continuidade do ciclo de flexibilização monetária, com projeção de pelo menos mais uma redução de 0,25% da Selic ainda neste ano. Ao mesmo tempo, a combinação de alimentos voltando a pressionar o índice e serviços desacelerando lentamente mantém elevado o risco inflacionário. O cenário indica que a contribuição favorável dos alimentos para a inflação está perdendo força, enquanto os componentes mais sensíveis à política monetária ainda não apresentam melhora suficiente para caracterizar uma mudança mais ampla do quadro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.