28/Sep/2026
As casas de apostas que patrocinam clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro já começaram a notificar equipes sobre a possibilidade de rescisão imediata dos contratos comerciais caso o governo federal avance com a proibição dos serviços. Na Série A, 14 dos 20 clubes exibem atualmente marcas de bets no principal espaço comercial das camisas, evidenciando a relevância financeira do setor para as agremiações. As empresas do segmento preparam ações judiciais para contestar eventual medida provisória do governo, sob o argumento de inconstitucionalidade. Um escritório de advocacia já foi contratado para atuar no caso. Corinthians, São Paulo e Fluminense estão entre os clubes que receberam notificações sobre os possíveis impactos nos contratos. O Corinthians é patrocinado pela Esportes da Sorte, que paga R$ 150 milhões anuais ao clube. No conjunto dos clubes, as casas de apostas investiram R$ 1,14 bilhão em patrocínios em 2025, valor equivalente a 7,9% das receitas totais das equipes. Os 20 clubes da Série A registraram faturamento de R$ 14,9 bilhões no período, enquanto o endividamento alcançou R$ 14,3 bilhões.
A Betano, líder do mercado brasileiro de apostas, com participação de 25%, paga R$ 268 milhões por ano ao Flamengo. A empresa também patrocina o Campeonato Brasileiro, que utiliza a marca da plataforma em seu nome. A companhia acompanha com preocupação as discussões sobre mudanças no mercado e avalia que eventuais decisões serão tomadas conforme a evolução do cenário. A Sportingbet, que possui o terceiro maior contrato de patrocínio da Série A, pagou R$ 120 milhões ao Palmeiras em 2025, dos quais R$ 100 milhões correspondiam à parcela fixa. A empresa também mantém sua marca no Vasco e aguarda a divulgação integral da eventual medida para avaliar seus efeitos e as medidas jurídicas ou comerciais aplicáveis. Patrocinadora do Cruzeiro, a Betnacional considera que alterações capazes de modificar significativamente suas condições de operação podem afetar a capacidade de investimento e a manutenção dos atuais contratos de publicidade e patrocínio. A avaliação definitiva, contudo, depende do conteúdo e da abrangência das medidas eventualmente adotadas pelo governo.
A possibilidade de rompimento dos contratos está relacionada a cláusulas que vinculam a validade dos acordos às condições legais de funcionamento das empresas. A interpretação das casas de apostas é de que a manutenção da exposição das marcas perderia sentido caso todos os serviços oferecidos pelo setor fossem proibidos. Entidades representativas das empresas de apostas e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) defenderam a manutenção do atual marco regulatório. O setor aponta a proteção aos apostadores, a arrecadação e a segurança jurídica como elementos associados ao modelo regulado e sustenta que eventuais problemas devem ser enfrentados com fiscalização, regras de publicidade mais rígidas, proteção a grupos vulneráveis e combate ao mercado ilegal. Representantes jurídicos do segmento avaliam que uma mudança abrupta poderia afetar contratos firmados sob o marco regulatório vigente e gerar impactos sobre investimentos, empregos e negócios relacionados ao mercado regulado. A possibilidade de perda de receitas ocorre em um momento de elevada alavancagem financeira dos clubes.
Quatro equipes que disputaram a Série A na última temporada tiveram receitas diretamente provenientes de casas de apostas superiores a 10% do faturamento em 2025. A participação foi de 17,3% no Corinthians, 12,71% no Flamengo, 12,64% no Sport e 10,49% no Juventude. O impacto potencial, porém, varia conforme o grau de dependência de cada clube. Na avaliação da área de indústria do esporte da EY no Brasil, uma eventual saída das bets não necessariamente provocaria uma ruptura estrutural no futebol brasileiro, mas poderia gerar pressão relevante no curto prazo sobre clubes que incorporaram essas receitas à estrutura de custos, especialmente em despesas com salários e contratações. Uma redução abrupta dos recursos poderia afetar a liquidez e a sustentabilidade financeira das equipes mais dependentes. A possível redução dos investimentos das operadoras também poderia alterar a dinâmica do mercado de patrocínios. Após um período de forte expansão, o setor poderia passar por consolidação entre operadores e maior seletividade nos investimentos, pressionando os valores dos contratos.
Esse processo, contudo, é diferente de uma interrupção generalizada da estrutura de receitas do futebol. Clubes das Séries A e B também procuraram o governo federal para discutir um programa de renegociação de dívidas, com redução de juros e alongamento de prazos. A iniciativa é liderada por dirigentes de Corinthians, Internacional e Atlético Mineiro e ganhou relevância diante do risco de perda de receitas provenientes de patrocínios de casas de apostas. O modelo de auxílio ainda não está definido, mas o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avalia a abertura de uma linha de crédito destinada aos clubes. A intenção manifestada pelo governo de proibir o funcionamento de cassinos on-line e das bets provocou reação entre os clubes. Dos 20 times da Série A, 15 assinaram manifesto contrário à medida, associando a eventual proibição a impactos severos sobre o futebol brasileiro. Apesar de o número de equipes patrocinadas por casas de apostas já ser menor em 2026 do que na temporada de 2025, os clubes consideram o segmento relevante não apenas para os patrocínios de camisa, mas também para competições, naming rights de estádios, publicidade em transmissões televisivas e placas nos estádios.
A discussão também expõe a necessidade de diversificação das receitas dos clubes. Especialistas em finanças esportivas apontam que a dependência de um único segmento amplia a vulnerabilidade financeira, sobretudo quando os recursos são incorporados rapidamente a despesas recorrentes. A diversificação, entretanto, exige planejamento de médio e longo prazo e não substitui imediatamente uma fonte relevante de investimentos. Nesse contexto, a eventual saída das bets precisa ser diferenciada entre movimentos pontuais e uma ruptura generalizada do mercado. A dimensão dos efeitos dependerá do alcance das medidas adotadas, da situação financeira individual dos clubes, da possibilidade de substituição dos contratos e da velocidade com que novas fontes de receita possam ser desenvolvidas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.