25/Sep/2026
Segundo levantamento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), elaborado com base em dados do Banco Central, a tomada de crédito rural do Plano Safra 2026/27 totalizou R$ 52,4 bilhões em julho e agosto, recuo de 26,43% ante os R$ 71,2 bilhões registrados em igual período do ciclo 2025/26. O estudo não considera as Cédulas de Produto Rural (CPRs). O volume contratado nos dois primeiros meses do ciclo representa 12,6% dos R$ 416,3 bilhões anunciados para o crédito rural no Plano Safra 2026/27. Segundo a FPA, trata-se do menor volume concedido e do menor porcentual de execução para o período desde a safra 2022/23. Entre os principais programas, as contratações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) somaram R$ 15,69 bilhões. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) registrou R$ 12,45 bilhões, enquanto os demais produtores responderam por R$ 24,27 bilhões. A área financiada por meio do crédito rural no País somou 5,07 milhões de hectares em julho e agosto de 2026/27, ante o pico de 14,2 milhões de hectares registrado em igual período da safra 2023/24.
O número de contratos também recuou, de 457,8 mil operações em julho e agosto de 2025/26 para 375,1 mil no mesmo período de 2026/27. Apesar da retração no número de operações e no volume total de recursos, o valor médio por contrato aumentou entre todas as categorias de produtores. Entre os agricultores familiares, o tíquete médio alcançou R$ 49 mil, alta de 49,1% na comparação anual. Para os médios produtores, a média chegou a R$ 359 mil, avanço de 18,7%. Entre os demais produtores, o valor médio subiu 9,5%, para R$ 1,4 milhão. A FPA relaciona a menor concessão de crédito à expansão da carteira problemática de crédito rural, indicador que reúne operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas. Esse indicador passou de uma faixa entre 4% e 5% na safra 2022/23 para 23,5% em julho de 2026, sinalizando maior restrição na oferta de recursos e maior pressão financeira sobre os produtores. Também relaciona o cenário de crédito às dificuldades enfrentadas pelo setor, incluindo redução das vendas de máquinas agrícolas, aumento dos custos dos fertilizantes importados e nível elevado das taxas de juros.
Esse ambiente tem contribuído para o aumento da inadimplência e para a busca de recuperação judicial por produtores, ampliando a pressão sobre a capacidade de contratação de novos financiamentos. O levantamento cita ainda dados do Ministério da Fazenda segundo os quais R$ 3,6 bilhões haviam sido renegociados por meio da Medida Provisória 1.376/2026 até a semana anterior, ante estimativa inicial de R$ 100 bilhões. Com 50 dias restantes para o encerramento da vigência da MP, o estudo aponta como exigência nas renegociações o pagamento antecipado de 15% do valor do débito. Segundo a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o acesso aos recursos do Plano Safra 2026/27 enfrenta dificuldades no início da temporada, com volume de crédito efetivamente disponível aos produtores abaixo do anunciado pelo governo federal. O cenário ocorre em um momento de juros elevados, margens menores e elevado endividamento no campo, aumentando a dependência dos produtores em relação ao crédito para custeio da nova safra.
O Plano Safra 2026/27 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, dos quais R$ 384,9 bilhões são destinados ao custeio e à comercialização e R$ 140,2 bilhões aos investimentos. Nos dois primeiros meses do ciclo, julho e agosto, foram contratados R$ 65,7 bilhões em operações de crédito rural por produtores enquadrados no Pronamp e nas demais categorias, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Desse total, R$ 10,9 bilhões foram concedidos por meio de recursos equalizáveis, modalidade em que o Tesouro Nacional cobre parte da diferença entre a taxa cobrada do produtor e o custo de mercado. Para toda a safra 2026/27, a programação prevê R$ 97,6 bilhões em operações com recursos equalizáveis. O ritmo efetivo de liberação de recursos no início da safra ficou significativamente abaixo do necessário para atender à demanda dos produtores. Em alguns casos, o volume disponibilizado teria correspondido à metade ou menos do observado anteriormente, embora não tenha sido especificada a base de comparação utilizada.
A restrição ocorre em um ambiente de elevado custo financeiro e de deterioração da capacidade de pagamento do setor. O endividamento dos produtores rurais é estimado em mais de R$ 170 bilhões, enquanto a recuperação dos preços agrícolas ainda não foi suficiente para recompor a situação financeira de parcela relevante dos produtores. A combinação entre compromissos acumulados de safras anteriores e necessidade de financiar a temporada 2026/27 reduz a margem financeira disponível para novos investimentos e custeio. A qualidade das operações de crédito rural também apresenta deterioração. Segundo os números citados pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, há dois anos aproximadamente R$ 5,00 de cada R$ 100,00 emprestados ao setor eram classificados como problemáticos. Essa proporção teria aumentado para cerca de R$ 20,00 de cada R$ 100,00 neste ano, refletindo o avanço de operações em situação de maior risco. As condições de financiamento também são pressionadas pelo nível das taxas de juros, considerado entre os mais elevados do mundo.
O custo financeiro dificulta tanto a contratação de recursos para custeio quanto a reorganização das dívidas acumuladas em safras anteriores, ampliando a necessidade de renegociação das operações. Nesse contexto, produtores afetados por frustrações de safra encontram dificuldades para obter a prorrogação de financiamentos. Embora a legislação estabeleça mecanismos para a extensão de determinadas operações, a efetivação da renegociação depende da análise das instituições financeiras, o que amplia a incerteza para produtores que já iniciaram o novo ciclo produtivo. A restrição de crédito ocorre após parte relevante dos custos da safra já ter sido assumida. Produtores já realizaram despesas com sementes, fertilizantes e defensivos e avançaram no planejamento da produção, enquanto permanecem incertos os preços de comercialização e o resultado financeiro após a colheita. O cenário mantém elevada a pressão sobre o fluxo de caixa das propriedades e sobre a capacidade de pagamento dos compromissos acumulados. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.