23/Sep/2026
De acordo com dados que integram um estudo publicado no periódico Scientific Data, cerca de 12,5 trilhões de toneladas de gelo foram perdidas pelas geleiras da Groenlândia e da Antártida desde 1979, volume equivalente à quantidade de água congelada necessária para formar uma camada de gelo de 1,5 metro de profundidade sobre toda a extensão dos Estados Unidos continentais. O estudo aponta aceleração do derretimento das duas principais calotas polares do planeta em decorrência do aquecimento global. Segundo o estudo, aproximadamente cinco sextos da perda de gelo não resultam diretamente do aumento da temperatura do ar, mas da atuação de águas mais quentes que corroem as calotas polares por baixo e pelas laterais, contribuindo para o deslocamento das geleiras em direção aos oceanos. O processo amplia a contribuição das regiões polares para a elevação do nível do mar e aumenta a exposição de áreas costeiras a inundações.
O volume de gelo perdido corresponde a quase 11,3 quatrilhões de litros de água e teria contribuído para elevar o nível médio global dos oceanos em cerca de 3,1 centímetros, desde 1979, além de outros fatores climáticos que também contribuíram para a elevação do nível do mar. Embora o aumento pareça pequeno em termos absolutos, cada 0,85 centímetro de elevação está associado à exposição adicional de 2 milhões a 3 milhões de pessoas a inundações pelo menos uma vez por ano. Na Groenlândia, a geleira Jakobshavn apresenta recuo de até 50 metros por dia. O comportamento das principais calotas polares foi analisado por uma colaboração internacional de cientistas liderada pela Agência Espacial Europeia. Estudos anteriores acompanhavam o derretimento apenas desde a década de 1990, com base em dados de satélites europeus. A incorporação de informações provenientes de satélites da Nasa permitiu ampliar a série histórica e mapear os volumes das calotas polares da Antártida desde 1979 e da Groenlândia desde 1972.
Os dados indicam uma tendência de aumento da perda de massa das calotas polares ao longo das décadas, especialmente quando considerado o gelo que é liberado diretamente no oceano. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, as camadas de gelo apresentavam comportamento relativamente estável, mas o processo de perda de massa se intensificou de forma significativa durante a década de 2010. A defasagem entre o aquecimento global e a resposta das calotas polares indica que os efeitos podem persistir por décadas, mesmo em um cenário de interrupção do aumento da temperatura média do planeta. Entre 2020 e 2023, a tendência de crescimento da perda de gelo apresentou uma aparente estabilização. Os autores do estudo consideram, porém, que o comportamento refletiu principalmente variações climáticas de curto prazo, e não uma reversão da tendência de longo prazo. Embora a análise publicada tenha sido encerrada com dados de 2023, medições posteriores indicam retomada da aceleração da perda de massa.
Na Antártida, parte da estabilidade observada no período foi associada a volumes recordes de neve na Antártida Oriental, que compensaram parcialmente o rápido derretimento registrado na camada de gelo da Antártida Ocidental, considerada menos estável. A interrupção temporária da aceleração durante três anos é interpretada como uma variação pontual dentro de uma tendência histórica mais ampla de perda de massa. As maiores mudanças identificadas pelos cientistas estão relacionadas aos chamados processos dinâmicos, caracterizados por movimentos mais abruptos e ativos do gelo do que o derretimento gradual provocado pelo aumento da temperatura do ar. Esses processos são considerados capazes de favorecer pontos de inflexão e acelerar de maneira descontrolada a perda de gelo, ampliando os riscos associados à instabilidade das camadas de gelo. A equipe internacional responsável pela pesquisa utilizou 45 levantamentos independentes e dados de 27 satélites diferentes.
A utilização de métodos relativamente independentes aumenta a confiança na consistência dos resultados, segundo avaliação de pesquisadores externos ao estudo. A tendência de aumento da perda de massa é considerada consistente, enquanto os fatores imprevisíveis associados à perda de gelo na Antártida permanecem como um dos principais desafios para a projeção dos impactos climáticos de longo prazo. A evolução das calotas polares representa um risco de longo prazo para o nível global dos oceanos. Embora parte relevante dos efeitos mais severos possa ocorrer apenas nas próximas décadas, a continuidade da perda de massa de gelo e os processos dinâmicos associados à Antártida e à Groenlândia mantêm elevada a importância do monitoramento climático e das mudanças observadas nas regiões polares. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.