23/Sep/2026
Em julho de 2026, 8,92 milhões de brasileiros estavam inadimplentes simultaneamente com instituições financeiras tradicionais e fintechs, alta de 355,1% ante dezembro de 2019. O avanço ocorre em um cenário de inadimplência recorde, que alcança 83,9 milhões de pessoas, das quais 54,15 milhões possuem dívidas em atraso com o sistema financeiro. O movimento indica redução da margem de manobra das famílias para manter os compromissos financeiros em dia diante do elevado comprometimento da renda. O grupo que possui pendências simultaneamente com instituições financeiras e fintechs acumula, em média, quase R$ 8 mil em dívidas. O valor é cerca de 40% superior à média da inadimplência registrada exclusivamente com instituições financeiras tradicionais. Esse grupo também apresenta o dobro do número de dívidas não pagas na mesma comparação.
Entre dezembro de 2019 e julho de 2026, os inadimplentes simultaneamente com bancos e fintechs registraram a maior taxa de crescimento entre os grupos analisados pela Serasa Experian. No mesmo período, o número de pessoas inadimplentes apenas com fintechs aumentou 74,55%, enquanto o grupo com pendências somente com instituições financeiras tradicionais cresceu 56,69%. Considerando o sistema financeiro como um todo, o número de negativados avançou 77,13% em seis anos e meio. A ampliação da inadimplência simultânea evidencia que parte dos consumidores passou a acumular relacionamentos financeiros em diferentes instituições, em vez de simplesmente substituir uma fonte de crédito por outra. Segundo a análise da Serasa Experian, esse comportamento está associado ao elevado comprometimento da renda e ao ambiente de juros altos. O estudo, contudo, não permite identificar em qual fonte foi contratado o primeiro crédito que posteriormente levou à inadimplência.
O cenário também é influenciado pelo elevado comprometimento da renda das famílias. Outro levantamento da Serasa Experian mostra que, atualmente, o brasileiro compromete, em média, 74,6% da renda com despesas em geral, incluindo gastos básicos do dia a dia e financiamentos. A combinação entre elevada parcela da renda comprometida, custo do crédito e acumulação de dívidas em diferentes instituições reduz a capacidade financeira dos consumidores de absorver novos compromissos ou regularizar pendências existentes. A expansão da bancarização durante a pandemia, impulsionada pelo pagamento do auxílio emergencial, a criação do Pix pelo Banco Central (BC) e o crescimento do número de fintechs, que ampliaram a oferta de crédito no País, contribuíram para uma mudança no perfil do endividamento das famílias. Esse movimento, combinado ao crescente comprometimento da renda, foi analisado pela Serasa Experian em estudo que relaciona a expansão da oferta de financiamentos à inadimplência dos consumidores.
As fintechs ampliaram o acesso ao crédito, especialmente entre as famílias de menor renda, justamente aquelas que apresentam os maiores níveis de comprometimento da renda. Entre os consumidores com renda de até um salário-mínimo, atualmente de R$ 1.621,00, o comprometimento alcança 87,9%. Na faixa de renda entre um e dois salários-mínimos, o índice chega a 87%, reduzindo de forma significativa a margem disponível para absorver novos compromissos financeiros. O novo perfil de endividamento é caracterizado pela acumulação de relacionamentos com diferentes instituições financeiras. Um consumidor que já possui pendências em uma instituição tradicional pode recorrer a bancos digitais ou fintechs para obter recursos e cobrir despesas ou dívidas anteriores, aumentando a exposição financeira. A composição da inadimplência do sistema financeiro também mudou significativamente desde dezembro de 2019. Até julho de 2026, as instituições financeiras tradicionais concentravam 76,3% dos inadimplentes, embora essa participação tenha recuado cerca de 10% em relação a dezembro de 2019.
Em sentido oposto, a participação dos consumidores inadimplentes simultaneamente com fintechs e instituições financeiras tradicionais aumentou de 6,41% do total de inadimplentes do sistema financeiro em dezembro de 2019 para 16,47% em julho de 2026. O grupo passou a representar cerca de um em cada seis inadimplentes do sistema financeiro, evidenciando a ampliação do chamado duplo endividamento. O ambiente macroeconômico tende a manter pressão sobre esse quadro, diante da desaceleração da atividade econômica e de uma oferta de crédito mais restritiva, combinadas a taxas de juros ainda elevadas. O período prolongado de juros em dois dígitos aumenta o custo de carregamento das dívidas e reduz a capacidade de consumidores já comprometidos de absorver novos financiamentos ou renegociar pendências sem ampliar o estoque de obrigações. Além do aumento do número de consumidores com dívidas em diferentes instituições, cresce também a quantidade e o valor das pendências por inadimplente.
Em julho de 2026, cada inadimplente possuía, em média, 2,3 dívidas em atraso com o sistema financeiro como um todo, com valor médio de R$ 5.775,00. Entre aqueles com pendências simultâneas em instituições financeiras tradicionais e fintechs, a média chegava a 4,18 dívidas, praticamente o dobro, enquanto o valor médio alcançava R$ 7.963,00. O comportamento indica que a ampliação da oferta de crédito digital, embora tenha aumentado o acesso de consumidores anteriormente menos atendidos pelo sistema financeiro, também elevou a possibilidade de acumulação de compromissos entre diferentes credores. Com menor margem de renda disponível e custo financeiro elevado, a desaceleração da atividade pode contribuir para o aumento da inadimplência nos próximos meses, tanto em quantidade de dívidas quanto no valor médio das pendências.
O Ministério da Fazenda sustentou que o aperto das famílias com dívidas vem do custo do crédito e não do patamar de endividamento, que está estável há três anos. Houve uma elevação representativa e consistente do endividamento na pandemia, mas, desde então, se observa um aumento do custo do crédito, que tem pressionado o comprometimento da renda das famílias. O cenário é muito influenciado por uma política monetária bastante restritiva. A escalada dos juros tem uma contribuição importante para esse aumento do custo do crédito e do serviço da dívida das famílias. Foi ressaltado que um processo de flexibilização consistente da política monetária tende a reverter esse cenário. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.