18/Sep/2026
O Brasil amplia sua relevância como fornecedor global de alimentos em um ambiente de maior volatilidade de preços, marcado por eventos climáticos extremos, tensões geopolíticas e perturbações logísticas. O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) subiu para 133,3 pontos em agosto, alta de 1,9% ante julho. O movimento ocorre simultaneamente aos alertas do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que apontam probabilidade superior a 90% de consolidação de um El Niño de forte intensidade nos últimos meses de 2026. Mesmo diante desse cenário, o Brasil mantém elevada capacidade de oferta. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra brasileira de grãos em 361,7 milhões de toneladas. Entre janeiro e agosto, as exportações do agronegócio somaram US$ 57,85 bilhões, alta de 9,45% ante igual período de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O desafio para o setor é transformar essa capacidade produtiva em vantagem estratégica de longo prazo, ao mesmo tempo em que a dependência de aproximadamente 85% de fertilizantes importados permanece como fator de vulnerabilidade para os custos e as margens do produtor. A posição brasileira no mercado mundial de alimentos decorre de fatores estruturais e não apenas de movimentos conjunturais provocados por problemas climáticos em países concorrentes. O Brasil é líder mundial na produção e exportação de soja, açúcar, café, suco de laranja e carne bovina. Na avaliação da Consultoria Agro do Itaú BBA, os ganhos acumulados de produtividade, a consolidação da 2ª safra, a adaptação genética das culturas às condições tropicais e a integração entre lavoura e pecuária sustentam essa posição. Eventos climáticos adversos em outros países podem elevar preços e antecipar embarques brasileiros em determinadas janelas, mas não explicam a participação estrutural do Brasil no comércio mundial.
A combinação de escala e produtividade faz com que, em períodos de restrição de oferta em outras origens, parte relevante da demanda internacional seja direcionada ao Brasil, reforçando o papel do País como fornecedor de segurança alimentar global. No mercado de soja, a China mantém uma estratégia de diversificação das origens de abastecimento. Relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que os chineses mantiveram compras expressivas de soja norte-americana nas últimas semanas de agosto, ao mesmo tempo em que avançaram os embarques pelos portos brasileiros. O movimento reforça a avaliação de que Pequim busca reduzir riscos associados à concentração de fornecedores e manter alternativas de abastecimento em diferentes períodos do calendário agrícola. Segundo o Itaú BBA, o comportamento das tradings estatais chinesas está relacionado à busca por segurança estratégica durante a entressafra da América do Sul.
A estratégia consiste em manter abertas as duas principais janelas de abastecimento, com compras do Brasil durante o fluxo da safra sul-americana e aquisição nos Estados Unidos durante a entressafra da América do Sul. Parte relevante das compras chinesas nos Estados Unidos tem sido realizada por empresas estatais no âmbito do acordo comercial, enquanto as esmagadoras privadas continuam submetidas a uma tarifa adicional de 10% sobre produtos norte-americanos. Esse comportamento indica que, nas operações orientadas predominantemente por critérios econômicos, a China continua priorizando a origem de menor custo. Para a Agrinvest Commodities, os volumes adicionais adquiridos nos Estados Unidos apresentam forte componente institucional e geopolítico, enquanto a China vem reduzindo, ao longo dos últimos 10 anos, sua dependência da soja norte-americana. Na produção agrícola brasileira, a elevada participação dos insumos importados mantém a estrutura de custos exposta às oscilações internacionais.
O País consome aproximadamente 8% da produção mundial de fertilizantes e importa cerca de 85% de sua demanda. Com isso, as lavouras de soja e milho ficam diretamente sujeitas às variações das cotações internacionais dos fertilizantes e do câmbio. Segundo o Itaú BBA, essa dependência gera uma dupla exposição sobre a rentabilidade do produtor, pela combinação entre o preço internacional dos fertilizantes e a taxa de câmbio. A deterioração da relação de troca em 2026 evidencia esse impacto. Na soja, a quantidade necessária para adquirir uma tonelada de MAP passou de aproximadamente 25 a 30 sacas em 2025 para 30 a 35 sacas de 60 Kg em 2026. No milho, a relação aumentou de 40 a 50 sacas de 60 Kg para 50 a 60 sacas de 60 Kg. O movimento representa perda de poder de compra do produtor rural e pressão adicional sobre as margens. A dinâmica de compras de fertilizantes também varia de acordo com o calendário das culturas. Segundo a StoneX, a janela de aquisição de fertilizantes destinados à safra principal de soja está praticamente encerrada, enquanto o foco se desloca para a adubação do milho 2ª safra de 2027.
O período de maior consumo de reposição e recomposição dos estoques de nitrogenados no Brasil ocorre no segundo semestre, antes da 2ª safra do ano seguinte. Nesse contexto, uma eventual escalada das tensões no Oriente Médio, combinada com aumento dos preços do petróleo e dos custos do gás natural, pode elevar os custos dos fertilizantes destinados à 2ª safra de 2027. A exposição é particularmente relevante porque a cadeia brasileira permanece fortemente dependente de importações, fazendo com que choques internacionais sejam transmitidos para os custos domésticos de produção. Ao mesmo tempo em que o Brasil amplia o faturamento das cadeias exportadoras, culturas destinadas predominantemente ao mercado interno, como arroz e feijão, enfrentam redução de área em regiões tradicionais. Para Mertens, o movimento resulta principalmente da alocação de terra e capital conforme a rentabilidade ajustada ao risco de cada atividade, e não de um conflito estrutural entre o agronegócio exportador e a produção destinada ao abastecimento doméstico.
A preservação da oferta de arroz e feijão, nesse cenário, depende da capacidade dessas culturas de oferecer retorno econômico compatível com as demais alternativas de produção. A expansão das cadeias exportadoras tende a continuar direcionando capital para atividades com maior rentabilidade, enquanto a produção voltada ao consumo interno precisa manter competitividade econômica para preservar área e oferta. A consolidação do Brasil como um dos principais pilares da segurança alimentar global resulta de ganhos tecnológicos, aumento de escala e expansão da produtividade acumulados ao longo de décadas. A manutenção desse crescimento, contudo, depende da capacidade de administrar os custos de produção diante da volatilidade dos fertilizantes, energia, câmbio e demais insumos internacionais. O desafio é combinar a expansão das exportações e a geração de receitas externas com a preservação das margens dos produtores e a manutenção da oferta destinada ao mercado doméstico. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.