16/Sep/2026
Segundo análise do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a melhora do superávit comercial brasileiro em 2026 é sustentada principalmente pelo desempenho da indústria extrativa, com destaque para o petróleo bruto, que amplia os saldos positivos com China e União Europeia e contribui para compensar o déficit recorrente da indústria de transformação. O cenário ocorre em meio às tensões geopolíticas, aos preços ainda elevados de energia e às incertezas comerciais associadas ao chamado ‘efeito Trump’. No acumulado de janeiro a agosto, o Brasil registrou superávit nos setores de agropecuária e indústria extrativa e déficit na indústria de transformação nas relações comerciais com China, União Europeia e Estados Unidos. A assimetria entre os setores evidencia a concentração dos ganhos comerciais brasileiros em produtos primários e extrativos, enquanto a indústria de transformação permanece como principal fonte de resultados negativos nos intercâmbios bilaterais.
Com a China, o superávit da indústria extrativa alcançou US$ 33,8 bilhões, acima do saldo positivo de US$ 27,9 bilhões da agropecuária. A indústria de transformação, por outro lado, apresentou déficit de US$ 36,1 bilhões. Na União Europeia, a extrativa gerou superávit de US$ 11,2 bilhões, ante US$ 7,8 bilhões da agropecuária, enquanto o déficit da transformação chegou a US$ 15,8 bilhões. Com os Estados Unidos, o déficit bilateral é explicado principalmente pela indústria de transformação, que apresentou saldo negativo de US$ 4,6 bilhões. Os superávits da agropecuária, de US$ 1,1 bilhão, e da indústria extrativa, de US$ 0,4 bilhão, não foram suficientes para compensar o resultado negativo do setor manufatureiro. A sobreposição das pautas de exportação brasileira e norte-americana nos segmentos de agropecuária e indústria extrativa limita o espaço para uma expansão expressiva do superávit brasileiro nesses setores com os Estados Unidos.
O potencial de crescimento das vendas externas tende a ser maior em segmentos nos quais as estruturas produtivas dos dois países sejam menos concorrentes. O petróleo também ganhou participação na pauta exportadora brasileira. Em agosto, o petróleo bruto respondeu por 14,6% das exportações, superando a soja, com participação de 13,3%. No acumulado de janeiro a agosto, contudo, a soja permaneceu na liderança, com 15,7%, seguida pelo petróleo, com 14,7%. O saldo do petróleo bruto alcançou US$ 32,3 bilhões no acumulado do ano até agosto. Considerando também o déficit de US$ 4,9 bilhões registrado por derivados, o saldo líquido de petróleo e derivados ficou em US$ 27,3 bilhões, equivalente a 49,4% do superávit comercial total no período. Parte do fortalecimento das exportações de petróleo está relacionada ao conflito envolvendo o Irã e aos impactos sobre preços internacionais e rotas de comercialização.
A elevação dos preços de petróleo e derivados e a busca de importadores por fornecedores localizados fora das áreas de maior risco favoreceram o reposicionamento do Brasil no mercado internacional. Ao mesmo tempo, o aumento da relevância do petróleo nas exportações amplia o desafio de conciliar os ganhos comerciais do setor com os compromissos associados à transição energética. Na indústria de transformação, os déficits permanecem amplos e estruturais. Entre 23 setores manufatureiros analisados, o Brasil registra saldo negativo em 18 nas relações com a China, em 17 com a União Europeia e em 12 com os Estados Unidos. Apenas três setores apresentam superávit nos três mercados: produtos alimentícios, produtos de fumo e celulose. A FGV identifica maior potencial de expansão das exportações manufatureiras brasileiras para os Estados Unidos.
Na União Europeia, esse espaço também pode aumentar dependendo dos desdobramentos do acordo entre União Europeia e Mercosul. Na China, a ampliação das vendas de produtos industrializados dependerá, em maior medida, dos investimentos chineses realizados no Brasil. O quadro geral do Icomex aponta para um superávit comercial brasileiro maior em 2026 do que em 2025, sustentado principalmente pela indústria extrativa, com o petróleo como principal vetor. Em contrapartida, a indústria de transformação permanece como principal ponto de vulnerabilidade nas contas bilaterais com China, União Europeia e Estados Unidos, mantendo a dependência do resultado comercial brasileiro em relação às exportações de commodities e produtos extrativos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.