16/Sep/2026
O avanço da inteligência artificial (IA) vem reduzindo a distância tecnológica entre Estados Unidos e China e ampliando a disputa pelo desenvolvimento de modelos cada vez mais avançados, ao mesmo tempo em que aumenta o debate internacional sobre segurança, governança e riscos associados à tecnologia. Durante anos, os Estados Unidos mantiveram liderança em capacidade de modelos, pesquisa e influência acadêmica, mas a China vem avançando rapidamente apesar das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso a tecnologias estratégicas, como chips de última geração e equipamentos utilizados em sua fabricação. Avaliações recentes, incluindo estudos do Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence, apontam a China como principal contraponto aos Estados Unidos no desenvolvimento de IA e indicam redução significativa da vantagem norte-americana em 2026. A diferença de desempenho entre os modelos dos dois países é considerada estreita e sujeita a mudanças rápidas, refletindo a elevada velocidade de evolução dos sistemas de inteligência artificial.
A disputa ganha importância adicional diante da expectativa de uma visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Washington neste mês para encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O avanço da IA passou a integrar também a agenda estratégica e geopolítica entre as duas maiores economias, com o futuro do setor condicionado não apenas às iniciativas individuais de empresas e governos, mas também às decisões de cooperação, restrição tecnológica e estabelecimento de regras internacionais. Entre os principais avanços chineses está a startup Moonshot AI, de Pequim, que lançou o modelo Kimi K3. O sistema chegou a ocupar a terceira posição no ranking global de inteligência da plataforma Artificial Analysis, atrás do Claude Fable 5, da Anthropic, e do GPT-5.6 Sol, da OpenAI. Posteriormente, o modelo recuou para a nona posição, evidenciando a velocidade com que as posições competitivas se alteram entre os principais desenvolvedores globais.
A DeepSeek também ampliou a pressão sobre a liderança norte-americana ao demonstrar que modelos chineses podem competir com sistemas desenvolvidos nos Estados Unidos. O modelo R1, lançado em janeiro de 2025, ganhou destaque pelo menor custo em relação a equivalentes norte-americanos. Em abril, a empresa apresentou uma prévia do V4, com avanços em conhecimento, raciocínio e capacidades agênticas, que permitem planejar e executar múltiplas etapas de tarefas complexas com menor necessidade de orientação humana. Outros modelos chineses também avançam em áreas estratégicas. A Z.ai desenvolve o GLM-5.2 e o GLM-5.3, com melhorias em programação e funções agênticas, enquanto a Alibaba apresentou o Qwen3.8-Max, descrito pela companhia como o modelo mais poderoso de sua série. O avanço tecnológico ocorre paralelamente a uma preocupação crescente das autoridades chinesas com os riscos associados à IA.
O governo chinês vem destacando potenciais ameaças à segurança nacional e ao controle social. Em artigo publicado no dia 13 de setembro, o ministro da Segurança do Estado, Chen Yixin, avaliou que a tecnologia pode representar riscos à segurança política, institucional e ideológica caso seja utilizada por forças consideradas hostis ou por indivíduos com objetivos adversos. Entre os riscos estão o uso de deepfakes para disseminação de desinformação política em larga escala e a exploração de vulnerabilidades de cibersegurança por meio de ferramentas avançadas. Apesar dos alertas, a estratégia chinesa mantém como prioridade a aceleração do desenvolvimento de IA e a busca por maior autossuficiência tecnológica. O avanço é acompanhado pela defesa de mecanismos de controle de riscos e pela construção de um arcabouço global de governança capaz de estabelecer parâmetros para o uso da tecnologia.
Nos Estados Unidos, a disputa também envolve acusações de transferência indevida de capacidades tecnológicas. Autoridades norte-americanas acusam desenvolvedores chineses de realizar destilação em escala industrial, técnica na qual modelos são treinados para reproduzir ou imitar capacidades de sistemas mais avançados. Em 8 de setembro, o FBI, a NSA e a Cybersecurity and Infrastructure Security Agency apontaram que desenvolvedores chineses teriam extraído capacidades de alguns dos modelos mais avançados dos Estados Unidos por meio de atividades consideradas agressivas, maliciosas e direcionadas. Na mesma data, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, reforçou a acusação de que empresas chinesas utilizam destilação para reproduzir capacidades dos modelos norte-americanos sem conseguir superar a liderança dos Estados Unidos. A China rejeitou as acusações, argumentando que a destilação é uma técnica comum no setor, e pediu que Washington evite acusações sem fundamento.
A China também acusou os Estados Unidos de tentar estabelecer um monopólio na indústria de IA. A avaliação do Asia Society Policy Institute diferencia a técnica de destilação, considerada padrão no desenvolvimento de modelos, das acusações específicas feitas pelos Estados Unidos. Nesse caso, o foco está na alegação de que empresas chinesas teriam utilizado acesso não autorizado e outros mecanismos para extrair capacidades de modelos de fronteira com acesso restrito. O conflito amplia a dimensão estratégica da competição. Além de restringir insumos considerados críticos, como chips avançados e equipamentos para sua fabricação, os Estados Unidos podem passar a tratar as capacidades produzidas pelos próprios modelos de IA como ativos de transferência tecnológica. A disputa, portanto, tende a envolver simultaneamente infraestrutura, semicondutores, modelos, dados, propriedade intelectual, segurança cibernética e regras internacionais de governança, tornando a inteligência artificial um dos principais eixos da competição tecnológica e geopolítica entre Estados Unidos e China. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.