10/Sep/2026
O super El Niño está chegando e, com ele, a incerteza sobre os reais efeitos sobre as diferentes culturas e safras de vários países e sobre inflação e câmbio. Com uma visão bullish para soja, trigo e milho, o estrategista de commodities do Citi, Arkady Gevorkyan, afirma que a perspectiva de um El Niño "muito forte, recorde" aumentou a incerteza num momento em que grandes fatores impactam os preços de diversas culturas, como a guerra Rússia-Ucrânia e a seca na África Ocidental. Para o Brasil, Gevorkyan observa que o plantio de soja começa agora e que um clima mais seco pode atrasar a semeadura e, consequentemente, a produção de milho de 2ª safra (semeado logo após a colheita da oleaginosa), reduzindo a produtividade, enquanto café e açúcar não devem ser "superimpactados" na safra atual, embora um excesso de chuva possa atrasar operações das usinas açucareiras. Segue a entrevista:
Os especialistas preveem um El Niño mais forte, mas que vai afetar diferentemente as regiões produtoras de commodities agrícolas. Qual sua expectativa para Brasil e Estados Unidos?
Arkady Gevorkyan: Tipicamente, o El Niño traz mais chuvas e invernos mais moderados, com temperaturas mais elevadas nos Estados Unidos, o que tende a beneficiar as safras de trigo, soja e milho. Mas esse ano a projeção é de um El Niño muito forte, recorde, o que torna uma grande incógnita qual será o volume de precipitação. Será em nível excessivo a ponto de causar inundações e danos às safras? Teremos essa resposta cerca de 14 dias antes de as chuvas chegarem. Por enquanto, temos temperaturas relativamente mais quentes em comparação com a média histórica e mais umidade em áreas de maior altitude, o que poderia explicar parte da menor qualidade das safras informada pelo USDA [sigla em inglês para Departamento de Agricultura dos Estados Unidos]. O relatório de agosto do USDA que mostrou menor rendimento do milho poderia ser em parte explicado por essa precipitação excessiva no verão.
E em relação ao Brasil?
Arkady Gevorkyan: O plantio de soja está começando agora no Brasil. A previsão é de um clima mais seco, o que atrasa o plantio da soja e, como resultado disso, pode atrasar o plantio do milho, o que levaria a uma produtividade mais baixa. Mas o desempenho propriamente vai depender de como o clima evoluir. No caso das soft commodities, a situação é um pouco diferente. O café no Brasil não será superimpactado, na minha avaliação. Pode vir a ser impactado na próxima safra, mas não nesta. No caso do açúcar, a história é semelhante. No entanto, um eventual excesso de chuvas pode provocar atraso nas operações das usinas de açúcar, o que reduziria a oferta. Novamente, entendo que o grande impacto seria observado na próxima safra e não na atual.
Em relatório recente, o senhor relatou uma visão de alta (bullish) para commodities. O mercado está caminhando nessa direção e os preços devem subir até antes do pico do El Niño, entre outubro e novembro?
Arkady Gevorkyan: Acho que a questão do El Niño é muito importante, mas não é o único risco. É preciso ver como vão evoluir as compras nos Estados Unidos pela China. Por enquanto, a China parece cumprir as previsões de importação. Isso servirá como uma alavanca. Outro fator que ficou muito importante no último mês são os ataques e interrupções no Mar Negro com a intensificação da guerra entre Rússia e Ucrânia, que tem impulsionado os preços recentemente. As exportações ucranianas de milho e, em certa medida, de trigo foram zeradas no corredor do Mar Negro. Além disso, as exportações russas de trigo também são impactadas. Um outro fator climático, mas que não está relacionado ao El Niño, são as ondas de calor neste verão na Europa, que reduziram a produtividade de milho, trigo e, especialmente, do açúcar de beterraba. Outro vetor para os preços é a demanda que vem dos biocombustíveis, especialmente nos Estados Unidos. O que quero dizer é que o El Niño é mais um fator em um conjunto de fatores que pressionam os preços para cima.
Considerando o comportamento dos preços das principais culturas na Bolsa em Chicago, o senhor entende que o prêmio de risco já reflete o El Niño?
Arkady Gevorkyan: É realmente difícil precificar o El Niño. Isso significa, basicamente, prever o clima. Existem alguns fenômenos meteorológicos acontecendo, por exemplo, no Oceano Índico, que poderiam mitigar alguns dos impactos do El Niño. Agora, se falamos sobre o cacau, por exemplo, o rali recente no produto [cotado em torno de US$ 6.000/tonelada na Bolsa de Nova York] leva, sim, em conta o quadro atual e as projeções meteorológicas do El Niño. O grande risco que vejo é para a região da África Ocidental. Em 2020, 2023, 2024, o El Niño foi moderadamente forte e provocou ventos muito fortes numa duração maior que a usual, derrubando árvores e gerando perda estrutural, permanente da oferta. Mas, de novo, é possível ter alguma clareza sobre a previsão com 14 dias de antecedência. Por isso, precificar o El Niño é muito volátil e cria muita incerteza.
Como efeito indireto no mercado cambial, o senhor vê efeitos sobre o Real derivados das projeções bullish para algumas culturas e mesmo de ralis em outras que já ocorreram, como no caso do cacau?
Arkady Gevorkyan: Definitivamente, há um impacto. O Brasil é um dos maiores exportadores de commodities. Os preços mais altos afetam diretamente os saldos comerciais e, como resultado, têm um impacto nas taxas de câmbio. O contrário também é verdadeiro. As taxas de câmbio também têm um impacto. Mas é preciso lembrar que há outros fatores que afetam o câmbio e, no caso do Brasil, há a corrida presidencial neste momento. Na Colômbia, por exemplo, as taxas de câmbio reagiram ao resultado das eleições. Então, isso também poderia acontecer.
E o senhor vê efeitos sobre a inflação? As projeções de inflação estão subestimando o impacto do aumento das commodities agrícolas?
Arkady Gevorkyan: Eu fiz um estudo e olhei para o impacto na inflação de alimentos no CPI [índice inflação ao consumidor] dos Estados Unidos. Descobrimos que, usualmente, toma cerca de seis meses depois do pico nos preços de mercado para o índice de inflação absorver essa alta. Se a tendência atual continuar, provavelmente, começaremos a observar algum efeito em dezembro. Mas, novamente, há economistas que argumentariam que há commodities negociáveis e não negociáveis e commodities negociáveis. Algumas não estão diretamente relacionadas com a cesta do índice de preços. Milho e soja, por exemplo, são muito usados como ração animal. Então, poderia inflar o preço da carne bovina e, então, afetar o preço ao consumidor. Mas realmente é difícil de ter certeza sobre a transmissão desses preços.
Fonte: Broadcast Agro.