04/Sep/2026
O saldo problemático do crédito rural atingiu recorde em julho, tanto em termos nominais quanto percentuais, considerando a série histórica iniciada em agosto de 2020. As operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas somaram R$ 207,4 bilhões, equivalente a 23,5% da carteira total de crédito rural registrada no sistema financeiro nacional, de R$ 881,6 bilhões, segundo dados atualizados do Banco Central. O aumento do saldo problemático ocorreu principalmente pelo avanço das operações inadimplentes, caracterizadas por pagamentos não realizados após 90 dias ou mais do vencimento. O saldo dessa categoria aumentou de R$ 38,1 bilhões em junho para R$ 45,7 bilhões em julho. Os financiamentos com atrasos entre 15 e 90 dias passaram de R$ 21,2 bilhões para R$ 22,4 bilhões.
As operações prorrogadas avançaram de R$ 31,6 bilhões para R$ 32,2 bilhões, enquanto as renegociadas subiram de R$ 106,5 bilhões para R$ 106,9 bilhões. O movimento coincide com o recorde de inadimplência do crédito rural para pessoas físicas, que alcançou 8,8% em julho, também conforme dados do Banco Central. Ao mesmo tempo, produtores rurais enfrentam dificuldades para acessar as condições de renegociação de dívidas estabelecidas pela Medida Provisória 1.376/2026. No Rio Grande do Sul, a deterioração da carteira é mais acentuada, em um cenário de prejuízos acumulados na produção ao longo de cinco anos em razão de secas e enchentes. O saldo problemático das operações de crédito rural atingiu R$ 44,9 bilhões, correspondente a 41,6% da carteira total de R$ 108,8 bilhões.
Em julho, o saldo dos financiamentos em atraso praticamente dobrou e alcançou R$ 4,1 bilhões. Apesar do elevado volume classificado como problemático, grande parte da carteira permanece adimplente, uma vez que R$ 37,4 bilhões correspondem a financiamentos prorrogados ou renegociados. Nesses casos, o prazo de pagamento é ampliado antes do vencimento da parcela ou ocorre alteração contratual, sem caracterização de inadimplência. No Rio Grande do Sul, porém, a carteira de operações em curso normal vem recuando desde março, quando estava próxima de R$ 74 bilhões, para R$ 63,8 bilhões em julho. Em Mato Grosso do Sul, a maior parcela da carteira total já está classificada como problemática, com R$ 19,5 bilhões em operações atrasadas, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas, ante R$ 9,5 bilhões em financiamentos em curso normal. Em Goiás, a carteira problemática recuou para cerca de R$ 20 bilhões, enquanto em Mato Grosso caiu para R$ 21,8 bilhões.
O aumento dos problemas nas carteiras das instituições financeiras ocorre paralelamente às dificuldades enfrentadas pelos produtores para acessar as linhas de renegociação criadas pela MP 1.376/2026. Entre os entraves relatados estão a cobrança de entradas de até 15% do passivo e a exigência de novas garantias para a contratação da liquidação dos débitos. Também há reclamações sobre o não enquadramento de parcelas de custeio já vencidas e de operações de investimento que permanecem adimplentes. No Rio Grande do Sul, contratos renegociados de custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor (Pronamp), com juros de 8% ao ano, e do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com juros de 5% ao ano, enfrentam críticas devido à cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas novas operações, que pode elevar o saldo devedor.
As emissões de Cédulas de Produto Rural (CPRs) e as operações de crédito rotativo utilizadas para rolagem de dívidas anteriores também não vêm sendo incluídas nas renegociações, ampliando as críticas do setor às condições de acesso aos mecanismos de reestruturação dos passivos. O relator da MP 1.376/2026, deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), trabalha com a possibilidade de ampliar o prazo para a prorrogação de parcelas de crédito rural com vencimento próximo, de forma a mantê-las adimplentes e permitir seu enquadramento nas renegociações. As discussões sobre o tema ainda estão em andamento no âmbito do governo federal. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.