02/Sep/2026
Em 2025, o mundo registrou 65 conflitos com participação de um ou mais países, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo dados do Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Universidade de Uppsala, na Suécia. Desse total, 13 foram classificados como guerras, com mais de mil mortes em um ano. A tendência de aumento dos conflitos deve continuar em 2026, diante da guerra iniciada em fevereiro entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. O UCDP contabilizou mais de 244 mil mortes em conflitos em 2025, ante 187 mil em 2024, considerando confrontos entre Estados e entre Estados e grupos armados, como rebeldes, organizações terroristas e milícias. A evolução da violência é associada por especialistas à crescente multipolaridade e ao enfraquecimento da chamada Pax Americana, período de relativa estabilidade internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial.
O programa classifica os conflitos em três categorias: violência estatal, quando um ou mais governos são os principais atores; violência não estatal, envolvendo exclusivamente grupos rebeldes, terroristas e milícias; e violência unilateral, caracterizada por ataques deliberados de governos ou grupos contra a população civil, como genocídios e massacres. A violência estatal apresenta recordes consecutivos desde 2022 e tende a ser mais letal em razão da capacidade militar dos governos. Em 2025, essa categoria contabilizou 153 mil mortes, enquanto os conflitos não estatais resultaram em 14,5 mil mortes. A violência unilateral alcançou 76,5 mil mortes, ante 14 mil em 2024, principalmente em razão do conflito no Sudão, responsável por quase 62 mil dessas mortes. As principais frentes de violência estatal em 2025 foram Ucrânia, com 94 mil mortes, Gaza, com mais de 14,4 mil, e Sudão, com 12 mil mortes. Os números do UCDP ainda não incorporam integralmente a guerra de 2026 contra o Irã, que possui estimativa preliminar de cerca de 3,7 mil mortes.
O aumento da instabilidade internacional começou a ganhar força na década passada, especialmente a partir de 2011, com a Primavera Árabe. A onda de revoltas contra governos autoritários no Oriente Médio e no Norte da África derrubou governos e desencadeou guerras civis, incluindo o conflito na Síria, que se prolongou por mais de uma década e continua produzindo vítimas mesmo após a queda de Bashar al-Assad. Egito, Líbia, Tunísia e Iêmen também passaram por mudanças de regime, enquanto a instabilidade contribuiu para a ascensão do Estado Islâmico. Esse período também evidenciou dificuldades na governança global e ampliou o uso das redes sociais como instrumentos de mobilização política e social. A incapacidade dos Estados de responder às demandas, preocupações e inseguranças de suas populações, combinada à coordenação proporcionada pelas plataformas digitais, contribuiu para aumentar a instabilidade.
Em 2014, a anexação da Crimeia pela Rússia reativou na Europa o risco de revisão territorial e estimulou uma nova corrida armamentista. O chamado dilema de segurança ocorre quando um país amplia sua capacidade militar para se proteger, levando outros a interpretar o movimento como ameaça e responder com novos investimentos em defesa. Após a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022, esse processo se intensificou, elevando também as preocupações com uma nova corrida nuclear. A hipótese de enfraquecimento da Pax Americana é apontada pelo UCDP como um dos principais fatores para o aumento dos conflitos. O conceito descreve a relativa estabilidade internacional do período posterior à Segunda Guerra Mundial, caracterizada pela ausência de confrontos militares diretos e de grande escala entre as principais potências, embora tenha sido marcada por guerras por procuração. Após o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética, os Estados Unidos consolidaram posição dominante no sistema internacional.
Esse período de predominância começou a sofrer maior desgaste após a crise financeira de 2008, enquanto a ascensão econômica e militar da China contribuiu para uma configuração mais multipolar ou para uma estrutura bipolar diferente daquela observada durante a Guerra Fria. Nesse cenário, tratados e instituições multilaterais passaram a enfrentar maiores dificuldades para limitar o uso da força pelas grandes potências. A mudança de postura dos Estados Unidos também ficou explícita na Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro de 2025, que sinalizou redução do papel norte-americano como principal garantidor da ordem global e classificou aliados como um encargo. Os conflitos contemporâneos combinam características das guerras do século 20 com tecnologias do século 21. A guerra na Ucrânia reúne trincheiras, tanques e artilharia com drones, sistemas de defesa aérea e ataques cibernéticos.
A tendência é de guerras mais híbridas, assimétricas e rápidas, com menor dependência de campos de batalha convencionais. A guerra envolvendo o Irã também apresenta forte assimetria militar, com emprego de mísseis de alto custo e estoques limitados de um lado e utilização de drones de menor custo, produção acelerada e apoio indireto de aliados de outro. Os efeitos ultrapassam as áreas diretamente envolvidas no conflito, especialmente porque o Estreito de Ormuz possui importância estratégica para o transporte de energia e para a economia mundial. A Organização das Nações Unidas (ONU), criada para contribuir para a prevenção de novos conflitos globais após a Segunda Guerra Mundial, enfrenta limitações estruturais e políticas. A legitimidade da organização vem sendo questionada em episódios como a invasão do Iraque em 2003, a guerra na Ucrânia iniciada em 2022 e o conflito envolvendo o Irã. Entre os principais obstáculos estão a crise financeira da organização, marcada por pagamentos atrasados, e sua própria estrutura institucional.
A ONU não possui caráter supranacional e depende da vontade dos Estados, especialmente dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França. Sem consenso entre as principais potências, o Conselho de Segurança fica limitado pela utilização do poder de veto, como ocorre em questões relacionadas à Ucrânia, Taiwan e Gaza. A postura do governo de Donald Trump, contrário ao fortalecimento do multilateralismo e frequentemente crítico à ONU, também contribui para o questionamento sobre a capacidade da organização de acompanhar a transformação do sistema internacional. Nesse contexto, países do Sul Global, incluindo o Brasil, defendem uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, com ampliação do número de membros permanentes e revisão do poder de veto das grandes potências. A alteração, contudo, enfrenta obstáculos políticos e institucionais justamente em razão da necessidade de aprovação das próprias potências que detêm os mecanismos decisórios atuais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.