26/Aug/2026
Transformações climáticas globais mais rápidas e intensas, avanços tecnológicos, mudanças nos padrões de consumo e uma economia mais aberta reduziram o peso da sazonalidade na composição da inflação brasileira. As variações regulares e previsíveis de preços em determinados períodos do ano continuam presentes, mas passaram a dividir espaço com choques mais frequentes e abrangentes. Nas décadas de 1990 e 2000, os índices de preços eram mais diretamente influenciados por eventos sazonais específicos. Entre os principais fatores monitorados estavam geadas, excesso ou falta de chuvas nos cinturões verdes, com impacto sobre hortifrutigranjeiros, além da escassez de pastagens em invernos rigorosos, que afetava os preços das carnes, e de problemas climáticos sobre a florada do café.
Nesse período, economistas como Juarez Rizzieri, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe); Salomão Quadros, da Fundação Getúlio Vargas (FGV); Cornélia Nogueira, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese); Luís Roberto Cunha, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Basiliki Litvac, então na MCM Consultores; Heron do Carmo, da Fipe; e Paulo Picchetti, da Fipe/FGV, eram referências para avaliar os efeitos sazonais sobre os preços, incluindo o impacto da Quaresma sobre ovos e pescados e as quedas sazonais das carnes. No vestuário, os padrões também eram mais evidentes. As famílias aguardavam períodos de liquidação entre coleções e, em São Paulo, a Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), realizada no Anhembi entre 1958 e 2009, simbolizava o calendário do setor e contribuía para reforçar os movimentos sazonais de preços.
A sazonalidade continua influenciando os preços, mas perdeu relevância diante de choques maiores e mais recorrentes. A Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP) relaciona parte dessa mudança à demografia e aos padrões de consumo. O microclima regional passou a ter menor peso relativo diante de fenômenos climáticos de escala global, como os episódios rigorosos de El Niño registrados em 2014 e 2024. As mudanças também foram influenciadas por crises geopolíticas e transformações no mercado de vestuário. A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, ampliou a importância de choques externos sobre os preços, enquanto a menor diferenciação entre moda de inverno e de verão reduziu a nitidez dos ciclos sazonais do setor de vestuário. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a sazonalidade não desapareceu, mas passou a ser sobreposta por eventos atípicos.
A pandemia de 2020 alterou padrões de consumo e provocou elevação de preços em razão de gargalos produtivos e aumento dos custos logísticos. Em 2021, a crise hídrica afetou safras e pressionou os custos de energia por meio das bandeiras tarifárias. Em 2022, a guerra entre Rússia e Ucrânia atingiu commodities como soja e trigo e contribuiu para o encarecimento dos alimentos. Após uma redução das pressões em 2023, os impactos climáticos voltaram a ganhar relevância em 2024. A maior frequência e intensidade dos fenômenos de El Niño e La Niña reduziram os intervalos de estabilidade e aumentaram a volatilidade dos preços, dificultando a utilização dos padrões históricos de sazonalidade como referência isolada para projeções de inflação. O Banco Daycoval avalia o impacto do El Niño a partir de duas dimensões, global e local, devido aos diferentes efeitos do fenômeno sobre os preços internacionais das commodities e sobre produtos da cesta básica, como hortaliças e legumes.
Como as pressões variam entre culturas, com efeitos altistas sobre algumas e neutros ou baixistas sobre outras, as correlações históricas são alteradas e a inflação se torna mais volátil e menos previsível a partir dos padrões tradicionais. A FEA-USP avalia que a sazonalidade perdeu peso na composição da inflação brasileira não porque tenha desaparecido, mas porque passou a conviver com novas fontes de oscilação de preços e com um ambiente inflacionário mais estável desde meados dos anos 1990. Nesse contexto, a análise dos índices de preços exige separar a sazonalidade clássica dos movimentos mais recentes e considerar a ocorrência cada vez mais frequente de choques de oferta. Surgiram fatores de sazonalidade que anteriormente tinham pouca ou nenhuma relevância, com destaque para as passagens aéreas. O item passou a apresentar variações sazonais acentuadas, movimento intensificado no período pós-pandemia.
A fragilidade financeira das companhias aéreas durante a crise sanitária levou muitas empresas a adotar políticas de preços mais agressivas, consolidando uma dinâmica de fortes oscilações nos períodos de maior demanda. Há diferença nessa nova dinâmica dos ajustes tradicionais, frequentemente denominados movimento gregoriano de preços. Trata-se dos reajustes habituais concentrados no início do ano, como mensalidades escolares, IPTU e honorários de serviços profissionais, geralmente associados ao retorno das férias. Historicamente, esses aumentos estiveram vinculados à indexação e à inflação registrada no período anterior. Apesar dessas alterações, a inflação brasileira se tornou mais resiliente e comportada desde 1996. A média do IPCA desde então gira em torno de 6%, com raras oscilações acima de 10% ou abaixo de 4%.
Nesse ambiente, embora os reajustes contratuais continuem ocorrendo, eles tendem a manter maior coerência com a expectativa inflacionária do próprio ano, reduzindo o potencial de amplificação da sazonalidade sobre o índice. Há exceções, como os planos de saúde, que frequentemente registram reajustes acima da média, mas, no conjunto, esses movimentos contribuem para uma trajetória de preços mais estável ao longo do ano. Além da mudança na natureza da sazonalidade e da maior estabilidade do regime inflacionário, a dinâmica recente dos preços é cada vez mais influenciada por choques de oferta. Entre os principais fatores estão as questões geopolíticas, incluindo a volatilidade do petróleo, e os eventos climáticos extremos. O El Niño, por exemplo, aumenta a incerteza sobre a produção de alimentos no Brasil e no exterior e pode afetar os preços de energia ao elevar o risco de crises hídricas.
Esse risco energético, entretanto, vem sendo parcialmente mitigado pela diversificação da matriz elétrica, com maior participação das fontes solar e eólica. Os projetos dessas fontes apresentam viabilidade operacional e maior agilidade de execução em comparação com usinas termelétricas. O principal desafio está na expansão e modernização da infraestrutura de transmissão, processo que exige mais tempo. Ainda assim, a volatilidade dos preços de energia, historicamente associada às crises hídricas, está atualmente mais controlada pelo sistema de bandeiras tarifárias, mecanismo que reduziu a sazonalidade anteriormente característica do setor. A menor intensidade da sazonalidade contribui para manter a inflação em uma faixa mais previsível, geralmente entre 4% e 6%, o que facilita a condução da política econômica.
Com índices mais comportados, o Banco Central consegue atuar com maior precisão diante de choques, como elevações dos preços de alimentos, buscando evitar que pressões pontuais se propaguem para outros preços e contaminem as expectativas de longo prazo. Além da atuação da política monetária para impedir efeitos secundários dos choques, o governo pode utilizar instrumentos para amortecer pressões temporárias, como facilitar importações, reduzir tributos ou conceder subsídios a combustíveis. Essas medidas podem contribuir para estabilizar a trajetória da inflação ao longo do ano. A vulnerabilidade da inflação aos eventos climáticos é relativamente recente no debate econômico brasileiro. Historicamente, esse fator tinha peso menor, e dois marcos importantes dessa mudança foram a crise hídrica de 2001-2002, que produziu fortes impactos políticos e econômicos, e um novo episódio severo em 2014, que reforçou a necessidade de monitoramento permanente dos choques exógenos sobre a economia. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.