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26/Aug/2026

Alimentos: cultivares ajudam a estabilizar preços

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o desenvolvimento de variedades agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas vem contribuindo para reduzir os efeitos da sazonalidade sobre a inflação, com destaque para o avanço no aprimoramento de cultivares pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Entre os exemplos está o desenvolvimento de um tipo de milho que demanda 25% menos água e permite o cultivo em condições climáticas adversas. A incorporação de tecnologias e de materiais genéticos mais adaptados amplia a possibilidade de produção e colheita em ambientes anteriormente considerados pouco favoráveis, contribuindo para reduzir oscilações de oferta e, consequentemente, a sazonalidade dos preços. A capacidade de estabilização, entretanto, permanece condicionada à frequência dos eventos climáticos extremos.

A recorrência de fenômenos como o El Niño reduz a previsibilidade dos ciclos produtivos e pode comprometer a regularidade esperada da oferta, mesmo diante dos avanços tecnológicos. Além dos fatores climáticos, tensões geopolíticas, como o conflito entre Rússia e Ucrânia, as instabilidades no Oriente Médio e o uso recorrente de tarifas como instrumento de política externa, passaram a exercer pressão mais constante sobre os mercados. Esses fatores se sobrepõem aos ciclos naturais dos produtos e tornam menos evidente a sazonalidade tradicional dos alimentos. O ciclo natural das culturas permanece existente, mas a combinação de inovações tecnológicas, incluindo cultivo em ambientes controlados e aprimoramento genético, com mudanças na dinâmica da logística global vem alterando a forma como as oscilações de preços são percebidas e transmitidas ao consumidor.

Segundo a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a redução do protagonismo da sazonalidade na inflação também está relacionada à mudança nos padrões de consumo e à maior disponibilidade de produtos, resultado de um processo de abertura econômica mais amplo do que o observado no passado. Os índices de preços ao consumidor são calculados a partir de amostras selecionadas, mas existe uma ampla variedade de produtos que, embora tenham peso individual reduzido nos indicadores, influencia indiretamente o consumo e os preços da cesta básica por funcionar como substitutos. No setor de alimentos, esse processo é particularmente relevante. No passado, variações climáticas regionais provocavam impactos mais intensos sobre produtos específicos, como feijão e batata.

Atualmente, o avanço tecnológico na produção agrícola e a maior integração do mercado nacional reduziram parte desses efeitos. A expansão de novas fronteiras agrícolas, como a fruticultura no Nordeste, ampliou a capacidade de abastecimento do mercado nacional independentemente das condições climáticas verificadas em outras regiões. Paralelamente, apesar das deficiências logísticas ainda existentes, os avanços na infraestrutura de transporte reduziram o tempo de escoamento das mercadorias e contribuíram para modificar os padrões tradicionais de sazonalidade. Produtos como frutas, batatas e tomates, anteriormente sujeitos a oscilações sazonais mais acentuadas, podem exercer influência relevante sobre os índices de inflação não necessariamente pelo peso individual na cesta de consumo, mas pela elevada volatilidade de seus preços.

Esse comportamento deve ser diferenciado da dinâmica dos produtos de maior participação no grupo alimentação. Na pecuária, a transformação do modelo de produção também contribuiu para reduzir a sazonalidade dos preços. A carne bovina, principal produto do segmento, tem peso relevante na formação de preços e consolidou o Brasil entre os maiores exportadores mundiais. A maior utilização do confinamento em substituição à pecuária extensiva reduziu o efeito tradicional da sazonalidade de inverno, período em que a menor disponibilidade de pastagens costumava reduzir a oferta e limitar o ganho de peso dos animais, pressionando os preços. Apesar da menor intensidade da sazonalidade anual, os ciclos pecuários de longo prazo permanecem. Esses ciclos são determinados pelas oscilações da oferta. Em períodos de preços baixos, o aumento do abate de matrizes aprofunda inicialmente a queda dos preços e, posteriormente, provoca redução da oferta, contribuindo para uma nova valorização.

A volatilidade dos preços, contudo, passou a ser determinada em maior medida por fatores globais do que por condições regionais. Fenômenos climáticos como o El Niño podem afetar a produção de alimentos em diferentes regiões do mundo e provocar impactos simultâneos sobre mercados distintos. Entre os exemplos estão a forte valorização do azeite em decorrência de secas na Europa e a alta do café associada a quebras de safra no Brasil e no Vietnã, um dos principais produtores da variedade robusta. Esse comportamento está relacionado ao modelo econômico de defasagem distribuída, no qual choques de oferta provocam elevação dos preços e, após determinado intervalo, estimulam a expansão da produção, contribuindo para o reequilíbrio do mercado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.