26/Aug/2026
A China divulgou sua visão estratégica para o período de cinco anos entre 2026 e 2030, no âmbito de seu 15º plano quinquenal, em movimento que estabelece a autossuficiência alimentar como uma das prioridades nacionais e prevê, inclusive, moderação nas importações. A estratégia tem impactos diretos sobre o Brasil, principal fornecedor de produtos agrícolas para o mercado chinês. Para ampliar a produção doméstica de alimentos, a China está direcionando investimentos para tecnologia e aumento de produtividade, com foco em proteínas animais e grãos, incluindo a soja. No primeiro trimestre de 2026, a produção chinesa de carne suína aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025. Embora seja a maior produtora mundial de carne suína, a China ainda necessita importar o produto devido ao tamanho de sua população. O Brasil está entre os fornecedores desse mercado. Entretanto, uma expansão significativa da produção chinesa tende a reduzir os preços internacionais da carne suína e pressionar as margens dos exportadores brasileiros.
A China também ampliou os investimentos em biossegurança após o impacto provocado pelo surto de peste suína africana (PSA), que levou ao abate de parcela significativa do rebanho suíno do País em 2019. O objetivo é reduzir os riscos de novos episódios sanitários que possam comprometer a produção doméstica e, consequentemente, dificultar a estratégia de redução das importações de carne suína. Na soja, a China pretende elevar a produção doméstica nos próximos anos entre 13% e 30%, dependendo da estimativa considerada. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de toneladas de soja por ano. O Brasil, por sua vez, exportou em 2025 o equivalente a 80% de sua produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo uma expansão de 13% da produção chinesa representaria um desafio adicional para os produtores brasileiros, especialmente após os embarques recordes do Brasil para a China em 2025.
O desempenho das exportações brasileiras de soja para a China em 2025 também foi favorecido pelo cenário da guerra tarifária entre China e Estados Unidos. Em meio às disputas comerciais, a China reduziu as compras de soja dos Estados Unidos, segundo maior produtor mundial, e ampliou as importações do Brasil e da Argentina. Em 2026, contudo, a China voltou a acelerar as compras de soja norte-americana. A soja dos Estados Unidos permanece como um componente relevante das negociações comerciais entre China e Estados Unidos, diante da retomada da ofensiva protecionista de Trump contra a China. O presidente chinês, Xi Jinping, tem encontro previsto com Trump na Casa Branca no final de setembro. Além dos efeitos da política comercial, a China vem reduzindo o uso de soja na alimentação animal e ampliando a utilização de DDG, subproduto do milho. A China é um dos maiores produtores mundiais de milho, atrás apenas dos Estados Unidos e à frente do Brasil. A substituição parcial do farelo de soja por DDG representa outro fator com potencial para reduzir a demanda chinesa pelo produto importado.
A estratégia chinesa de autossuficiência alimentar, entretanto, enfrenta limitações. A disponibilidade de terras cultiváveis na China é restrita, enquanto a utilização de DDG na alimentação animal apresenta desafios, uma vez que o farelo de soja consumido pelos rebanhos possui maior valor nutricional. Essas limitações podem reduzir a velocidade de avanço da produção doméstica e da substituição de importações. Para o Brasil, a posição de principal exportador mundial de produtos agrícolas para a China não tende a mudar de forma imediata. Entretanto, a dimensão dos investimentos chineses em tecnologia, produtividade, produção de proteínas, grãos e biossegurança exige acompanhamento permanente das mudanças estruturais no mercado. O avanço da China nas últimas décadas demonstra a capacidade de transformação de sua economia e de seus sistemas produtivos. Em pouco mais de três décadas, o País passou de uma economia de baixa renda para a condição de segunda maior economia mundial.
Nesse contexto, a estratégia de ampliação da autossuficiência alimentar deve ser considerada como um movimento estrutural, e não apenas conjuntural. O governo brasileiro e o setor agrícola precisam avaliar conjuntamente os desdobramentos do plano quinquenal chinês e estruturar estratégias para ampliar o valor agregado da cadeia produtiva agrícola nacional. A diversificação e a ampliação dos mercados de destino para os produtos brasileiros também se tornam fundamentais para reduzir a dependência de um único mercado e preservar a competitividade internacional do agronegócio. A manutenção do protagonismo brasileiro no comércio agrícola internacional dependerá, portanto, da capacidade de antecipar as mudanças na demanda chinesa, ampliar a agregação de valor e conquistar novos mercados. Sem medidas de adaptação, o Brasil corre o risco de perder participação inclusive em uma das áreas de maior competitividade internacional do País, o agronegócio. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.