ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

26/Aug/2026

Terra Indígena Sararé/MT é foco do garimpo ilegal

A Terra Indígena (TI) Sararé, em Mato Grosso, onde vivem cerca de 200 indígenas do povo Nambikwara, tornou-se a principal fronteira de expansão dos alertas de garimpo ilegal entre os territórios indígenas. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostram que, de 2025 até 20 de agosto de 2026, a TI acumulou 2.295 alertas de atividade minerária ilegal, abrangendo 976,5 hectares, área equivalente a cerca de 1.360 campos de futebol. A pressão sobre o território está associada à migração de garimpeiros retirados de outras terras indígenas, como a TI Yanomami, em Roraima, a partir de 2023. A desintrusão promovida pelo governo federal em diferentes territórios levou parte dos grupos criminosos a buscar novas áreas de atuação. Na TI Sararé, o garimpo ilegal também apresenta vínculos com o Comando Vermelho, facção criminosa que ampliou suas atividades ilícitas para além do tráfico de drogas.

Outro fator que favorece a expansão da atividade é a facilidade de acesso terrestre à TI Sararé. O território possui estradas no entorno e está próximo de uma região de fronteira, condições que facilitam tanto a entrada de garimpeiros e equipamentos quanto a retirada e o escoamento do ouro extraído ilegalmente. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a União realizasse a desintrusão de nove terras indígenas. A intensificação das ações de retirada nessas áreas contribuiu para a migração de grupos criminosos para territórios considerados menos protegidos. A TI Sararé passou a apresentar condições favoráveis à expansão da atividade ilegal, combinando menor presença permanente do Estado e acesso terrestre facilitado. Entre 2023 e 2026, o Ibama realizou 649 ações de fiscalização na TI Sararé, com ampliação das operações ao longo dos anos. Apesar do aumento da fiscalização, o território registrou recordes de alertas de garimpo.

Após decisão judicial decorrente de ação do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU), a União colocou em prática, no início de 2026, um plano de retirada de garimpeiros. Entre março e julho, o governo federal realizou 1.313 ações contra o garimpo ilegal na TI Sararé, segundo informações do Ministério da Casa Civil. As operações geraram prejuízo estimado em R$ 110,5 milhões aos grupos criminosos e resultaram em 72 prisões. As forças de segurança apreenderam e destruíram armas, combustível, ouro, equipamentos e outros materiais utilizados na atividade ilegal. Após a desmobilização das forças federais que atuaram na retirada dos garimpeiros, autoridades passaram a receber relatos sobre o retorno de criminosos à região. A DPU também recebeu informações diretamente dos indígenas sobre o surgimento de novos focos de garimpo com a redução da presença das forças de segurança.

A retirada dos invasores representa uma etapa fundamental, mas não encerra a necessidade de proteção territorial permanente. Diferentemente de outros territórios indígenas, onde ocorre o recrutamento de indígenas para atividades de garimpo ilegal, na TI Sararé as relações entre garimpeiros e indígenas são caracterizadas por conflito. A facilidade de acesso ao território também dificulta o trabalho das forças de segurança, pois os grupos criminosos conseguem abandonar rapidamente as áreas de exploração e esconder armamentos e equipamentos diante da aproximação de operações. As apreensões realizadas na TI Sararé evidenciam ainda a presença de estruturas relacionadas ao crime organizado. As forças de segurança localizaram armas de grosso calibre, equipamentos de alto valor e túneis utilizados na atividade minerária. Em uma operação coordenada pela Casa Civil, foram inutilizadas cerca de 4 toneladas de explosivos.

Segundo avaliação do Ministério Público Federal, o garimpo ilegal apresenta atratividade para organizações criminosas em razão da elevada rentabilidade, da baixa presença do Estado em determinadas regiões e das consequências jurídicas consideradas pouco dissuasivas. A combinação desses fatores permite que grupos envolvidos na atividade retomem rapidamente a exploração após operações policiais, mantendo elevada capacidade de reorganização. Neste mês, a Polícia Federal, o MPF e a Receita Federal deflagraram a Operação Solo Sagrado na TI Sararé para desarticular uma organização criminosa envolvida na extração e comercialização de ouro ilegal. O grupo utilizava empresas e cooperativas para inserir o metal de origem irregular no mercado formal. Entre 2022 e 2025, um dos núcleos financeiros da organização movimentou R$ 20,5 milhões. A avaliação do MPF é de que o Brasil precisa adotar uma atuação articulada e permanente contra o garimpo ilegal, considerando a capacidade de recuperação rápida da atividade após operações de fiscalização e repressão.

Experiências de desintrusão, como as realizadas nas terras indígenas Yanomami e Munduruku, demonstram a possibilidade de redução da atividade ilegal, mas a expansão simultânea do garimpo em outras regiões reforça a necessidade de uma política de Estado contínua, e não de ações circunstanciais, temporárias ou esporádicas. O cenário internacional também é apontado como fator de pressão sobre a atividade. A ocorrência de conflitos, como os registrados no Irã e na Ucrânia, amplia a busca por ativos considerados estáveis, entre eles o ouro. A área de mineração na Amazônia Legal aumentou 20 vezes até 2024, enquanto, especificamente dentro de territórios indígenas, a expansão alcançou 24 vezes. A valorização do ouro amplia a atratividade econômica do garimpo ilegal. O preço do metal citado no contexto das operações estava próximo de R$ 700,00 por grama, elevando o incentivo econômico para a exploração em áreas protegidas e de difícil fiscalização.

A operação de desintrusão realizada na TI Sararé resultou, segundo o governo federal, em redução de 97% na abertura de novas áreas desmatadas para garimpo. Durante a operação, foram registrados seis alertas de focos de garimpo, ante 226 nos 90 dias anteriores ao início da repressão federal. A área desmatada identificada pelos alertas caiu de 1 Km² para 0,05 Km². No início de agosto, o Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou o emprego da Força Nacional na TI Sararé para novas operações durante 180 dias. O Ministério dos Povos Indígenas informou que, após a desintrusão, foram destruídos 72 barracos, 7 escavadeiras hidráulicas, 67 motores de garimpo e outros materiais utilizados na atividade ilegal. A continuidade das ações de fiscalização e da presença das forças de segurança será determinante para evitar a retomada dos focos de garimpo na TI Sararé. O histórico recente indica que a retirada dos grupos criminosos produz forte redução imediata da atividade, mas a ausência prolongada do Estado pode favorecer a reocupação das áreas e a reorganização das estruturas ilegais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.