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26/Aug/2026

EUA amplia operações militares na América Latina

Os Estados Unidos avançam para uma nova etapa de sua campanha militar contra organizações criminosas na América Latina, com negociações para ampliar a presença de forças norte-americanas em operações terrestres realizadas em conjunto com países aliados. A iniciativa ocorre após um ano de ataques contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico, que resultaram em mais de 200 mortes em mais de 60 ações militares. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou neste mês, durante visita ao Panamá, que Colômbia, Guatemala e Honduras teriam concordado em permitir operações militares conjuntas contra grupos criminosos em seus territórios, seguindo o modelo adotado pelo Equador em março. A Guatemala, entretanto, negou ter aceitado o acordo. Os Estados Unidos negociam com Equador e Colômbia, além de outros parceiros regionais, a ampliação para operações em terra da estratégia utilizada nos ataques contra embarcações suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas.

A iniciativa representa uma nova fase da política do governo de Donald Trump para pressionar governos latino-americanos a se alinharem às prioridades de segurança de Washington e reforçar o que a administração norte-americana classifica como domínio dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental. A expansão ocorre em um ambiente político no qual eleitores de diferentes países da região têm elegido governos alinhados às prioridades de Donald Trump, ampliando o número de potenciais parceiros dos Estados Unidos. Especialistas, entretanto, alertam para riscos de aumento das baixas civis, questionamentos sobre a soberania nacional e possíveis reações contrárias aos Estados Unidos que podem permanecer mesmo após o fim do atual governo republicano. A atuação militar norte-americana na América Latina não é recente. Durante décadas, os Estados Unidos forneceram armas, inteligência e treinamento a governos aliados para combater o tráfico de drogas, mas também acumularam um histórico de apoio a golpes militares e regimes autoritários na região.

Desde o retorno de Trump à Presidência, em janeiro de 2025, o governo norte-americano adotou uma das políticas mais intervencionistas na América Latina em décadas. O governo norte-americano classificou 20 grupos criminosos latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras, enviou forças dos Estados Unidos à Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro e envolveu agentes da CIA em ações de destruição de laboratórios de drogas no México. Os ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental já deixaram mais de 200 mortos, sem apresentação pública de evidências suficientes sobre a natureza dos alvos como narcoterroristas, levantando questionamentos sobre a legalidade das operações. A realização de operações de combate sustentadas pelas forças norte-americanas em conjunto com tropas locais representaria, contudo, uma mudança de natureza da atuação dos Estados Unidos e colocaria à prova os limites políticos relacionados à soberania nacional e à presença de militares norte-americanos na região.

Hegseth forneceu poucos detalhes sobre o formato das operações com Colômbia, Guatemala e Honduras. Na Colômbia, onde Abelardo de la Espriella, apoiado por Trump, assumiu a Presidência neste mês, existe a possibilidade de participação de forças norte-americanas em ações contra grupos armados, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), considerado o último grande grupo guerrilheiro do país. Segundo Hegseth, o governo colombiano teria solicitado maior envolvimento militar dos Estados Unidos. A estratégia norte-americana passou a equiparar organizações envolvidas com o tráfico de drogas a grupos extremistas islâmicos como Estado Islâmico (ISIS) e Al-Qaeda, considerando como potenciais alvos aqueles que comercializam drogas ou representam ameaça aos cidadãos norte-americanos ou a países aliados. O Equador é o exemplo mais avançado do envolvimento militar direto dos Estados Unidos na região.

O país iniciou operações conjuntas com os Estados Unidos, apesar de os eleitores terem rejeitado, em referendo realizado em novembro de 2025, a instalação de bases militares estrangeiras em território equatoriano. Uma investigação do New York Times identificou que um dos ataques realizados em março contra um suposto laboratório de drogas atingiu, na realidade, uma fazenda de gado, ampliando os questionamentos sobre a identificação dos alvos e os critérios utilizados nas operações. A iniciativa de ampliar os acordos ganhou força entre governos conservadores eleitos recentemente com plataformas de endurecimento do combate à criminalidade. A Guatemala constitui uma exceção nesse cenário. O governo do presidente Bernardo Arévalo mantém cooperação estreita com os Estados Unidos em segurança, mas o presidente negou ter concordado com operações conjuntas contra o tráfico de drogas e argumentou que uma iniciativa desse tipo seria ilegal sem autorização do Congresso.

Honduras, Colômbia e Equador não haviam respondido aos pedidos de manifestação sobre as declarações do secretário de Defesa norte-americano. O México permanece como um caso distinto na estratégia regional. O país é uma das principais origens e rotas de passagem do fentanil e de outras drogas destinadas aos Estados Unidos. A presidente Claudia Sheinbaum mantém cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, mas resiste à pressão para permitir presença militar norte-americana em território mexicano no combate aos cartéis. Especialistas avaliam que o governo norte-americano ainda precisará definir o significado de operações conjuntas em cada país, considerando que mesmo governos de direita podem enfrentar forte resistência política e social à presença militar dos Estados Unidos. A estratégia mais militarizada também gera dúvidas sobre seus efeitos de longo prazo.

A intensificação das operações pode funcionar como demonstração de força dos Estados Unidos, especialmente após a captura de Nicolás Maduro, enquanto o governo Trump busca compensar dificuldades em outras frentes de política externa, incluindo o Oriente Médio. Na Colômbia, o risco de baixas civis é considerado particularmente elevado porque grupos armados operam em áreas densamente povoadas e, em regiões onde a presença do Estado é limitada, exercem funções semelhantes às de autoridades locais. A intensificação dos ataques também pode provocar adaptação dos grupos criminosos, em vez de sua eliminação. A pressão militar sobre acampamentos pode levar organizações como o ELN a abandonar estruturas concentradas e transferir suas atividades para vilarejos e centros urbanos, dificultando a distinção entre combatentes e população civil.

A ampliação do envolvimento militar dos Estados Unidos também poderá testar o limite até o qual os governos latino-americanos estão dispostos a priorizar segurança em detrimento de autonomia e soberania. Embora exista amplo apoio popular a medidas mais duras contra grupos criminosos, os governos enfrentam o desafio de equilibrar a pressão por resultados na segurança pública com a resistência à presença militar estrangeira. Nesse contexto, mesmo presidentes alinhados politicamente aos Estados Unidos podem enfrentar dificuldades para aprofundar a cooperação caso a percepção pública seja de perda excessiva de soberania. A evolução das negociações deverá determinar se a atual campanha contra o tráfico de drogas permanecerá concentrada em ações de apoio e inteligência ou avançará para uma presença militar norte-americana mais ampla e permanente em território latino-americano. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.