21/Aug/2026
Segundo estudo do Rabobank, choques climáticos associados ao El Niño tendem a pressionar a inflação de alimentos no Brasil, mas com intensidade e duração diferentes entre os segmentos. Parte relevante da volatilidade recente dos preços dos alimentos está relacionada a choques de oferta, cuja origem não está em aumento da demanda e, portanto, reduz a capacidade de resposta da política monetária no curto prazo. Mais importante do que a ocorrência do fenômeno climático é avaliar a duração do choque e seu grau de disseminação para outros componentes do índice de preços. Efeitos temporários sobre os alimentos tendem a produzir impacto limitado sobre a inflação agregada.
Já choques persistentes ou que se espalham para outros segmentos elevam os riscos inflacionários e exigem maior atenção da autoridade monetária. Mudanças de temperatura e precipitação associadas ao El Niño afetam a produtividade e a disponibilidade de alimentos, com reflexos sobre as commodities agrícolas e os preços ao consumidor. O Rabobank acompanha o fenômeno por meio do Índice Oceânico Niño (ONI), calculado pela NOAA, que classifica episódios com médias móveis trimestrais superiores a 0,5°C e 1,0°C como moderados e fortes, respectivamente. Para agosto, a NOAA indicava probabilidade de 26% de El Niño moderado, 57% de evento forte e 16% de ocorrência muito forte, além de cerca de 80% de probabilidade de El Niño forte no fim do ano.
A partir de um modelo de Projeção Local Não Linear, o Rabobank estima que o impacto do El Niño sobre a inflação atinge o pico aproximadamente seis meses após o choque. Os alimentos in natura são os primeiros a reagir, devido à maior sensibilidade às condições de oferta. Os produtos semi-elaborados absorvem o impacto de forma mais gradual, por meio dos custos dos insumos agropecuários, enquanto os industrializados apresentam repasses mais suaves, associados aos custos de processamento, embalagem, transporte e comercialização. A magnitude e a persistência dos efeitos variam conforme a intensidade do fenômeno, as condições das safras e o ambiente macroeconômico.
Em um episódio moderado de El Niño, a inflação acumulada em 12 meses dos alimentos in natura pode aumentar 13,4% no sexto mês após o choque. Considerando o peso desse grupo no IPCA, o impacto direto seria de aproximadamente 0,36%, enquanto o efeito total sobre o IPCA cheio chegaria a 0,41% com a inclusão dos alimentos semi-elaborados e industrializados. Em um episódio forte, o impacto sobre os alimentos in natura seria de aproximadamente 0,53%. Os produtos semi-elaborados acrescentariam 0,20% e os industrializados, 0,11%, resultando em impacto agregado estimado em cerca de 0,83% no IPCA após seis meses.
O efeito do fenômeno também apresenta diferenças regionais. Regiões metropolitanas com maior exposição aos alimentos in natura tendem a registrar respostas mais rápidas e intensas, enquanto outras apresentam efeitos mais graduais e persistentes. Os maiores impactos de curto prazo estão concentrados em Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Goiânia (GO), Brasília (DF), Fortaleza (CE) e Belém (PA). Salvador (BA) e Recife (PE) apresentam respostas inicialmente menos intensas, indicando possibilidade de repasse mais gradual aos preços. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.