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19/Aug/2026

Estreito de Ormuz: ameaça dos EUA eleva tensões

A escalada verbal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para anexar e controlar o Estreito de Ormuz como "território norte-americano" adicionou um novo fator de instabilidade às já frágeis tratativas para encerrar a guerra contra o Irã e normalizar a navegação na rota por onde circulava cerca de um quinto do petróleo mundial antes do conflito. Em publicação nesta terça-feira (18/08), Trump divulgou uma montagem com um círculo sobre o Estreito de Ormuz e a legenda "Novo território dos Estados Unidos", gesto interpretado como provocação direta ao Irã e a países do Golfo envolvidos em mediações. O presidente norte-americano afirmou não haver "conversas ou negociações" em andamento, nem previstas, com o Irã. Disse ainda que o bloqueio naval norte-americano "permanece em pleno vigor" e que o Estreito de Ormuz está "aberto e operando", declarando que todas as minas aquáticas na região foram removidas ou detonadas.

O republicano tem descrito o bloqueio naval contra portos iranianos como uma "muralha de aço", que demonstraria a posse norte-americana da rota marítima e custaria ao Irã "milhões de dólares por dia". A retórica, contudo, colide com o quadro de impasse relatado por autoridades e com o esfriamento do tráfego marítimo no corredor energético. A pressão de Trump ganhou corpo na segunda-feira (17/08), quando ele ameaçou bombardear Omã caso o país "se intrometa" nos seus planos para o Estreito de Ormuz. A ameaça veio após o Irã informar ter chegado a um entendimento com Omã sobre um plano para que navios voltem a transitar pelo Estreito por rotas predeterminadas. O Catar também indicou que mediadores aguardam o acordo Omã-Irã para retomar negociações mais amplas entre Estados Unidos e Irã, sinal de que a via bilateral pode ser um degrau para uma mesa de paz mais ampla. O problema é que a fala de Trump tensiona justamente o papel de Omã, tradicional facilitador de diálogos entre Estados Unidos e Irã que insiste em manter-se como mediador neutro.

Em outro momento, ainda na segunda-feira (17/08), o presidente norte-americano afirmou que Omã "não tem se comportado bem", mas evitou responder se realmente pretende atacar o país, e voltou a dizer que gostaria de anexar o Estreito de Ormuz. A primeira sugestão de anexação aconteceu no dia 14 de agosto, em um pronunciamento em Nova York: "Logo declararei o Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos", afirmou Trump, ao mesmo tempo em que tentou relativizar o impacto doméstico de combustíveis mais caros, defendendo que pagar "alguns centavos a mais" na gasolina seria aceitável para impedir que o Irã obtenha arma nuclear. Naquele dia, o preço médio nacional da gasolina regular estava em US$ 4,0776 por galão, acima dos US$ 3,8587 de um mês antes, segundo o serviço AAA Gas Prices. Nesta terça-feira (18/08), o petróleo Brent atingiu maior nível em duas semanas. O Irã rebateu imediatamente a declaração. O vice-chanceler iraniano Kazem Gharibabadi disse que Ormuz "sempre será iraniano" e que o Estreito não pode ser tomado "nem com um tuíte, nem com um porta-aviões, nem com a emissão de um decreto".

O chanceler Abbas Araghchi afirmou que o Irã ainda não decidiu se retomará negociações com os Estados Unidos, sustentando que o memorando de Islamabad visava um caminho para encerrar a guerra, e que foi violado pelos norte-americanos, com a retomada dos confrontos. O Rabobank nota que as ameaças públicas de Donald Trump são uma tentativa de equiparar as ameaças privadas do Irã na disputa pelo controle do Estreito de Ormuz e garantir que Omã não feche a passagem sul do Estreito, permitindo navegação "significativa" de petroleiros, segundo os Estados Unidos. O monitoramento da Marine Traffic, contudo, indicou queda de quase 20% no tráfego em Ormuz, de 118 para 95, e um recuo do total diário de embarcações após pico recente: de 19 navios, em 11 de agosto, para apenas 3 navios em 16 de agosto. Há relatos de centenas de navios aguardando ao sul do Estreito de Ormuz por aprovações da marinha da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) para atravessar a rota em segurança.

A pressão também se desloca para corredores alternativos: o Estreito de Bab el-Mandeb registrou alta de 6,7% na navegação, em um ambiente ainda marcado por riscos no Mar Vermelho e no Golfo de Áden. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, tentou minimizar preocupações com o prolongamento da guerra, argumentando que o aumento da produção norte-americana compensaria o fluxo fraco no Estreito de Ormuz e que os Estados Unidos estariam "bem supridos", ao mesmo tempo em que reforçou as palavras de Trump ao afirmar que os norte-americanos controlam o que acontece no Estreito de Ormuz. Em meio às incertezas, o premiê do Iraque, Ali al-Zaidi, afirmou que não pode ficar "refém de um único corredor" e que não pode confiar no Estreito de Ormuz como rota exclusiva. Países do Golfo têm intensificado as conversas com parceiros, a fim de buscar alternativas para o comércio e a segurança regional.

Nos Estados Unidos, a própria política interna passou a refletir o desgaste do confronto. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos, a aprovação de Trump caiu para 33%, o menor nível de seu mandato atual, com 64% de desaprovação. A maioria dos entrevistados também demonstrou temor de que a guerra com o Irã se arraste por muito tempo. As hostilidades se aproximam da marca de seis meses, iniciadas após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra alvos no Irã em 28 de fevereiro. Para o Rabobank, dificilmente Trump deve retomar ataques antes das eleições de meio de mandato, mas os Estados Unidos claramente já se preparam para isso, assinando contratos com empresas de defesa para acelerar produção de mísseis e munições. "Há muito calor geopolítico agora, e os mercados podem ser queimados com isso", alerta o banco. Ainda, uma autoridade dos Estados Unidos afirmou que houve discussões positivas com o Irã sobre as negociações de paz, mas que Donald Trump decidiu esperar e orientou suas equipes a não se engajarem com os iranianos até que o Irã esteja pronto para assinar um acordo. Fontes: Broadcast Agro e Al Jazeera. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.