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17/Aug/2026

EUA perde controle estratégico da guerra contra Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém capacidade militar para ordenar ataques contra alvos no Irã, mas perdeu parte da capacidade de determinar o curso da guerra iniciada há cinco meses. Os Estados Unidos alternam bombardeios, ameaças e tréguas, enquanto a solução para a reabertura do Estreito de Ormuz depende de entendimentos entre Irã, Omã e os países do Golfo Pérsico. A diferença entre capacidade militar e poder estratégico tornou-se central no conflito: a primeira permite destruir alvos, enquanto o segundo depende da capacidade de converter força militar em resultados políticos. A ofensiva norte-americana foi iniciada sob a expectativa de que a superioridade militar dos Estados Unidos reduziria rapidamente a duração do conflito. Israel também considerava que a eliminação da liderança iraniana poderia provocar o colapso do regime.

A estratégia, entretanto, subestimou a capacidade do Irã de absorver danos e continuar impondo custos aos adversários. Os Estados Unidos também não apresentaram de forma convincente como os ataques aéreos poderiam levar o Irã à capitulação, enquanto advertências sobre os riscos envolvendo o Estreito de Ormuz receberam atenção limitada. O próprio recuo dos objetivos norte-americanos evidencia a dificuldade de transformar superioridade militar em resultado político. Em março, Trump defendia a rendição incondicional do Irã e a destruição de seu programa nuclear e de sua rede de milícias. Posteriormente, chegou a ameaçar destruir a civilização iraniana. Atualmente, a prioridade está concentrada em uma meta mais limitada: reabrir o Estreito de Ormuz. A mudança representa uma inversão relevante, uma vez que a guerra iniciada para modificar o comportamento do Irã levou os Estados Unidos a negociar a recuperação da liberdade de navegação existente antes dos primeiros ataques.

Os Estados Unidos atingiram forças iranianas ao longo da costa, mas o Irã preservou capacidade suficiente para manter elevado o risco sobre a navegação no Estreito. O Irã não precisa igualar o poderio militar norte-americano para conservar capacidade de coerção sobre a passagem marítima. Enquanto a campanha militar norte-americana buscava reduzir de forma significativa essa capacidade iraniana, as discussões atuais estão concentradas no nível de influência que os Estados Unidos precisarão aceitar para restabelecer o tráfego marítimo. A condução do conflito também ampliou a dificuldade dos Estados Unidos ao transformar a incerteza em instrumento recorrente. A efetividade de uma ameaça presidencial depende da percepção de que ela será efetivamente cumprida. A sucessão de ultimatos, pausas, negociações e anúncios antecipados de acordos reduziu o impacto das ameaças posteriores e diminuiu a capacidade coercitiva das declarações do governo norte-americano.

A recuperação desse poder de dissuasão exigiria elevação das ameaças ou novo recurso à força militar, prolongando justamente o ciclo que os Estados Unidos buscavam encerrar. Os países vizinhos também passaram a ajustar suas estratégias. Arábia Saudita e outros governos do Golfo continuam dependentes da proteção norte-americana, mas procuram reduzir sua exposição aos limites dessa garantia. A estratégia inclui negociações com o Irã, busca por parcerias militares e investimentos em rotas alternativas ao Estreito de Ormuz. Para países expostos à capacidade de ataque iraniana, essa diversificação reduz riscos. Para os Estados Unidos, porém, representa um custo estratégico adicional, pois aliados passam a reorganizar suas estruturas de segurança considerando a possibilidade de que os Estados Unidos não consigam produzir o desfecho prometido. China e Rússia também encontram incentivos para preservar a capacidade iraniana e explorar a dispersão dos recursos militares norte-americanos.

O emprego de munições e equipamentos dos Estados Unidos no Golfo reduz a disponibilidade desses recursos para outros teatros estratégicos e amplia o custo de oportunidade da guerra. Os sinais de desgaste, contudo, não permitem concluir que esteja em curso um declínio estrutural do poder norte-americano. O Irã enfrenta forte deterioração econômica, perdeu parte de sua rede regional e sofreu danos militares severos. A continuidade do bloqueio ainda pode levar o Irã a moderar suas exigências. Os Estados Unidos também preservam uma capacidade de escalada militar muito superior à do Irã. O principal elemento de preocupação está na persistência do impasse apesar dessa assimetria. A maior potência militar do mundo continua capaz de infligir perdas significativamente superiores às que recebe, mas ainda busca uma saída para um conflito que inicialmente deveria ser encerrado em poucas semanas. A capacidade militar norte-americana permanece elevada, mas o poder de organizar expectativas entre aliados e adversários está sendo desgastado.

O custo estratégico aumenta quando aliados precisam diversificar sua segurança para se proteger das decisões dos Estados Unidos e adversários deixam de organizar seu comportamento em função das ameaças norte-americanas. Ainda, uma reportagem do jornal britânico Guardian afirma que alguns marinheiros norte-americanos a bordo do USS Abraham Lincoln, em meio a uma crise de saúde mental, tentaram se jogar no mar. O Guardian citou dois importantes jornais militares, Navy Times e Stars and Stripes, que relataram que as más condições e o estresse mental chegaram ao limite. A tripulação passou mais de 260 dias consecutivos no mar, um recorde para um porta-aviões em tempos modernos. Segundo relatos, falta comida, água quente, sabonete e desodorante. Muitos banheiros estariam quebrados e não haveria como lavar a roupa suja. A refeição seria meia xícara de arroz e duas tortilhas, de acordo com mensagens enviadas por eles.

Na quinta-feira (13/08), o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que os relatos “distorcem completamente” a situação. Segundo o Wall Street Journal, no entanto, as forças armadas teriam reconhecido a gravidade do problema e preparam o envio do porta-aviões USS George Washington, para substituir o USS Abraham Lincoln. Congressistas democratas exigem respostas sobre as condições a bordo do Abraham Lincoln. O porta-aviões partiu de San Diego, em 21 de novembro, para cumprir uma missão que deveria durar sete meses. Ele foi desviado para o Oriente Médio antes de a guerra contra o Irã começar, em 28 de fevereiro. A missão deveria ter terminado em maio. Mas, sem perspectiva para o fim do conflito, a embarcação permanece sem data para voltar. Em carta a Hegseth, o senador democrata Richard Blumenthal pediu que a marinha apresente um relatório sobre a situação. O senador Ruben Gallego, também democrata, pediu uma visita oficial ao porta-aviões com uma delegação bipartidária do Senado.

Em duas reuniões recentes, parentes dos marinheiros e fuzileiros discutiram com o comando da marinha as condições, incluindo a escassez de alimentos, enfrentadas pelos 5 mil marinheiros e fuzileiros navais a bordo do USS Lincoln. Elas exigiram saber quando seus parentes retornariam. Alguns denunciaram graves problemas de saúde mental e tentativas de suicídio a bordo. As histórias de membros da tripulação que ameaçam pular do navio são um sinal de alerta assustador de quão grave a situação se tornou: chuveiros com mofo, água quente esporádica, refeições e sabonete racionados, banheiros quebrados e exaustivas jornadas de 12 a 16 horas de trabalho sem dias de folga. Segundo o Wall Street Journal, autoridades norte-americanas afirmam que as condições a bordo do Lincoln não são incomuns para uma missão em tempo de guerra, mas reconhecem que passar meses sem fazer escala em um porto pode pesar. Normalmente, os porta-aviões fazem uma parada para reabastecer e para dar à tripulação um tempo de descanso.

O USS Gerald Ford esteve no mar durante 11 meses antes de regressar aos Estados Unidos, em maio, tornando-se o porta-aviões com a missão mais longa desde o colapso da União Soviética. O navio fez uma parada de vários dias em Split, na Croácia, em março, no auge da guerra com o Irã, para manutenção da embarcação e para dar folga aos marinheiros. Ainda assim, a missão e as condições difíceis pesaram sobre os militares. A rotação dos porta-aviões também levantou preocupações quanto à capacidade da marinha de responder a crises globais e sustentar suas operações no longo prazo, afirmam analistas. A marinha dispõe de 11 porta-aviões em serviço, que necessitam de manutenção quando regressam à base. Segundo o Hudson Institute, devido à guerra com o Irã, restabelecer a frota norte-americana ao seu estado ideal de prontidão poderá levar três anos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.