14/Aug/2026
Segundo Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio, a previsão de um El Niño de forte intensidade, com maior probabilidade de atuação entre outubro e dezembro, amplia os riscos climáticos para diferentes regiões produtoras e culturas agrícolas no Brasil. Os dados foram apresentados por Cogo durante o Congresso da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), que reúne representantes da indústria e da distribuição de insumos agrícolas. O fenômeno tende a provocar estiagem mais severa no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e na Região Norte, redução moderada das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média na Região Sul. A distribuição desigual dos efeitos pode atingir soja, milho, café, arroz, feijão e açúcar de formas distintas. A atuação do fenômeno pode ultrapassar o verão e alcançar o outono e o inverno, ampliando a janela de risco para a agricultura brasileira. A exposição é maior porque o País trabalha com duas e, em algumas regiões, três safras por ano. A probabilidade de o Brasil estar sob influência do El Niño entre outubro e dezembro supera 81%. O principal ponto de atenção está na distribuição regional das chuvas.
Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que formam o Matopiba, além da Região Norte, concentram os maiores riscos de seca. O norte de Mato Grosso também pode ser afetado, enquanto as Regiões Centro-Oeste e Sudeste tendem a registrar redução moderada das precipitações. Na Região Sul, a perspectiva é de chuvas acima da média, condição que pode beneficiar algumas atividades, mas prejudicar culturas como o arroz. A soja está entre as culturas mais expostas. O Centro-Oeste concentra 47% da área plantada, seguido pelo Sul, com 27%, e pelo Matopiba, com 14%. Entre 45% e 50% da área brasileira de soja pode ficar sob influência do El Niño. No último episódio de forte intensidade, entre 2015 e 2016, a produção brasileira de soja recuou de 47,6 milhões para 30,2 milhões de toneladas. Apesar do risco climático, a estimativa de produção de soja permanece em 62,3 milhões de toneladas, sem incorporar eventuais perdas provocadas pelo El Niño.
A avaliação é de que uma eventual quebra somente poderá ser mensurada após a ocorrência dos efeitos do fenômeno. Os estoques mundiais de soja representam um fator de proteção para o mercado. Eles correspondem a cerca de 28% do consumo global. Em um cenário de preços deprimidos e margens estreitas no Brasil, uma eventual redução da produção brasileira tende a produzir impacto mais limitado sobre as cotações internacionais em razão da disponibilidade global. No milho, o risco climático é potencialmente mais abrangente. O Brasil responde por cerca de 11% da produção mundial e concentra parcela crescente do cultivo na 2ª safra, realizada durante o inverno. Um eventual atraso no plantio ou comprometimento do desenvolvimento das lavouras pode resultar em redução da produção do ciclo seguinte. No El Niño de 2015/16, a produção brasileira de milho caiu para cerca de 41 milhões de toneladas, ante 55 milhões de toneladas na safra anterior. Diferentemente da soja, o mercado de milho apresenta estoques mais baixos, com consumo mundial superior à produção e redução das reservas.
Nesse cenário, eventuais problemas de oferta no Brasil tendem a produzir impacto mais relevante sobre os preços internacionais. No episódio anterior de El Niño intenso, o preço do milho chegou ao equivalente a R$ 110,00 por saca de 60 Kg (valores deflacionados). Atualmente, a cotação está próxima de R$ 60,00 por saca de 60 Kg. Uma repetição de movimento semelhante representaria praticamente uma duplicação dos preços e teria impacto significativo sobre os custos das cadeias consumidoras do cereal. O café também já incorpora parte do risco climático nas cotações. O Brasil responde por cerca de 38% da produção mundial, enquanto o Sudeste Asiático representa aproximadamente 26% e a Colômbia ocupa a segunda posição entre os maiores produtores de café arábica. A cultura é particularmente sensível ao regime de chuvas e à ocorrência de períodos de sol em diferentes fases do ciclo. O mercado cafeeiro também parte de estoques mundiais historicamente baixos, após os efeitos do El Niño anterior.
Essa combinação entre oferta ajustada e risco climático contribuiu para a recuperação dos preços. O café registrou forte valorização em 2024 em meio às preocupações com os efeitos de um El Niño que, posteriormente, mostrou intensidade inferior à inicialmente projetada. No açúcar, o risco climático já aparece nos mercados futuros. O Brasil é o maior exportador mundial, enquanto o mercado trabalha com perspectiva de déficit global, contribuindo para a sustentação das cotações na Bolsa de Nova York. No arroz, os riscos são distintos entre os principais polos produtores. Cerca de 85% da produção mundial está concentrada na Ásia, onde a redução das chuvas de monções pode comprometer as lavouras. No Brasil, a produção está concentrada no Sul, região que pode registrar precipitações acima da média durante um El Niño, com potencial de impacto negativo sobre as lavouras. A cotação internacional do arroz avançou de cerca de US$ 360,00 por tonelada para aproximadamente US$ 500,00 por tonelada. Os estoques brasileiros, entretanto, permanecem elevados e podem limitar parte da transmissão dessa valorização para os preços domésticos.
Além do clima, os custos dos insumos representam outro fator de risco para a agricultura brasileira. A alta dos fertilizantes, associada aos efeitos da guerra no Oriente Médio, pode levar os produtores a reduzir as compras e a utilização desses produtos. A estimativa é de redução de 10% a 15% no consumo de fertilizantes, em movimento semelhante ao observado após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. A menor utilização de fertilizantes pode ampliar os efeitos de uma eventual adversidade climática. A redução do pacote tecnológico diminui a capacidade de resposta das lavouras diante de condições de estresse hídrico e pode potencializar os impactos do El Niño sobre a produtividade. O avanço da genética, do conhecimento do genoma e das tecnologias de produção amplia a capacidade de adaptação do agronegócio, mas não elimina o risco associado a fenômenos climáticos de grande escala. Entre as estratégias possíveis estão a diversificação das culturas, alterações no espaçamento das lavouras e utilização de espécies mais resistentes à falta de água.
Uma alternativa é combinar a soja com uma segunda cultura de maior resistência ao déficit hídrico, como o sorgo, que também possui demanda para alimentação animal. No café, a adaptação é mais complexa em razão da necessidade de alternância entre chuva e períodos de insolação ao longo do ciclo produtivo. A presença de pequenos produtores organizados em cooperativas pode facilitar o acesso à orientação técnica e às estratégias de manejo. O Brasil cultiva 83,8 milhões de hectares considerando a 1ª safra, a 2ª safra e a 3ª safra, sendo que cerca de 19 milhões de hectares são utilizados mais de uma vez no mesmo ano-safra. Essa característica amplia a exposição do setor aos efeitos de um El Niño iniciado no segundo semestre, que pode atravessar o verão e alcançar o outono e o inverno. O risco climático, portanto, não está restrito a uma única colheita. A possibilidade de efeitos prolongados amplia as incertezas para produtores, agroindústrias e consumidores, especialmente em um cenário de estoques ajustados em algumas commodities e de custos elevados de produção. Fonte: Exame. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.