12/Aug/2026
Os estoques globais de alimentos próximos dos níveis recordes, os avanços tecnológicos e a consolidação de grandes potências exportadoras, como Brasil e Rússia, aumentaram a resiliência do sistema alimentar mundial diante dos efeitos do super El Niño previsto para este ano. O cenário atual é considerado mais preparado para absorver choques climáticos do que em episódios severos registrados no passado, em razão do aumento da produtividade e da diversificação das fontes globais de abastecimento. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que o crescimento da produtividade agrícola desde a década de 1980 permitiu que a oferta de alimentos avançasse acima do crescimento populacional.
Entre os fatores responsáveis estão a adoção de sementes mais tolerantes à seca, a expansão da agricultura de precisão, o uso de inteligência artificial e melhorias nos sistemas de irrigação. O aumento da produtividade ampliou a capacidade de resposta da produção agrícola a eventos climáticos adversos. A existência de estoques elevados também oferece uma margem adicional para absorver eventuais perdas localizadas de produção, reduzindo o risco de interrupções generalizadas no abastecimento e de aumentos abruptos dos preços internacionais dos alimentos. A diversificação geográfica da produção e das exportações também fortaleceu a segurança do sistema alimentar global.
O Brasil multiplicou suas exportações de soja em mais de 13 vezes desde a temporada 1997/98, consolidando-se como um dos principais fornecedores mundiais da oleaginosa. A Rússia, por sua vez, ampliou sua participação no comércio internacional de trigo, com embarques de 48 milhões de toneladas no ano passado. A expansão desses polos exportadores reduz a dependência global de um número restrito de regiões produtoras e amplia as alternativas de abastecimento quando eventos climáticos comprometem a produção em determinados países. Brasil e Rússia passaram a exercer, nesse contexto, papel relevante na composição da oferta internacional de commodities agrícolas. Apesar da maior resiliência do sistema alimentar, os riscos associados ao El Niño permanecem relevantes.
A ocorrência de eventos climáticos extremos pode afetar diferentes culturas e regiões simultaneamente, enquanto problemas logísticos ou restrições à oferta de insumos podem ampliar os impactos sobre os custos de produção e sobre os preços dos alimentos. Os conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro, além da crise no Estreito de Ormuz, aumentaram os custos de fertilizantes e combustíveis. A elevação dos preços dos insumos reduz o uso de fertilizantes e outros componentes da produção agrícola em determinadas regiões e pressiona as margens dos produtores, limitando parcialmente os ganhos proporcionados pelos avanços tecnológicos e pelo aumento da produtividade.
A combinação entre estoques elevados, diversificação dos fornecedores e evolução tecnológica representa uma diferença importante em relação a episódios anteriores de forte impacto climático. Entretanto, a capacidade de absorção de um novo choque dependerá da intensidade e da abrangência do El Niño, da duração dos eventos extremos e da evolução dos custos de produção e logística. Para o agronegócio brasileiro, o cenário reforça a importância estratégica da posição do País como grande fornecedor global de alimentos. A expansão da produção e das exportações de soja, associada à evolução tecnológica e à capacidade de resposta produtiva, amplia a contribuição do Brasil para a segurança alimentar mundial em um ambiente de maior frequência e intensidade dos riscos climáticos. Fonte: Reuters. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.