11/Aug/2026
Segundo Roberto Rodrigues, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o seguro rural é considerado essencial para estabilizar a renda dos produtores e evitar que perdas agrícolas sejam transferidas ao Tesouro Nacional, diante da exposição do setor a riscos climáticos e de mercado. é necessário que haja reformulação e modernização da política de seguro rural no Brasil. Vinte e três anos após a criação da política de seguro rural, em 2003, menos de 5% dos produtores brasileiros têm acesso ao instrumento. A baixa cobertura decorre da insuficiência da participação do governo na estruturação da política. O seguro rural deveria oferecer maior estabilidade à atividade agrícola, considerando que o produtor está sujeito tanto à volatilidade dos preços quanto a eventos climáticos, como tempestades de granizo, capazes de provocar perdas relevantes independentemente das práticas de gestão adotadas na propriedade.
A baixa cobertura do seguro também amplia os efeitos econômicos de eventuais quebras de produção. A perda de renda do produtor pode comprometer o pagamento de financiamentos bancários, fornecedores de insumos e demais compromissos, propagando os impactos para outros segmentos da economia. Nesse contexto, a ampliação do seguro poderia reduzir o efeito em cadeia provocado por perdas agrícolas generalizadas. A modernização do seguro rural também pode contribuir para elevar o nível tecnológico da produção. As seguradoras tendem a estabelecer requisitos relacionados à adoção de tecnologias e práticas adequadas de produção para a concessão da cobertura, o que pode estimular a utilização de melhores sistemas produtivos e elevar os padrões de gestão das propriedades. A expansão do seguro rural também teria efeitos sobre o mercado de crédito.
Com a produção protegida contra determinados riscos, os bancos privados poderiam ampliar a concessão de financiamento ao setor, reduzindo a exposição das instituições financeiras às perdas decorrentes de eventos climáticos e produtivos. Outro efeito apontado é a redução da necessidade de utilização de recursos públicos para socorrer produtores após grandes perdas. Em situações de quebra generalizada, a deterioração da capacidade de pagamento pode levar à renegociação e à prorrogação de dívidas rurais, transferindo para o Tesouro parte dos custos de um problema que poderia ser parcialmente absorvido por mecanismos privados de seguro. No Congresso Nacional, tramita projeto de autoria da senadora Tereza Cristina (PP-MS) voltado à reformulação do seguro rural. A proposta é considerada um possível avanço para ampliar e modernizar a cobertura do instrumento, sem abandonar a política existente. Em relação ao Plano Safra, a avaliação é de que a retirada do seguro rural de sua estrutura e sua transferência para outro conjunto de medidas não representa mudança estrutural relevante.
O Plano Safra também teria perdido parte da importância que apresentava no passado, diante da necessidade crescente de o agronegócio recorrer a fontes privadas de financiamento. Nesse contexto, instrumentos de mercado, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e outros títulos destinados ao financiamento do setor, ganham importância como mecanismos para reduzir a dependência dos produtores em relação aos recursos públicos. Seguro rural e instrumentos privados de crédito são considerados componentes de uma estratégia integrada de fortalecimento da autonomia financeira do produtor. A definição de qual estrutura governamental será responsável pela política de seguro é considerada menos relevante do que a criação de um mecanismo capaz de oferecer proteção adequada à renda agrícola. A ampliação da cobertura poderia contribuir para reduzir a necessidade de renegociação emergencial de dívidas, melhorar as condições de acesso ao crédito privado e aumentar a resiliência financeira do setor diante de eventos climáticos e de mercado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.