07/Aug/2026
Segundo estudo da Carbonn Nature, elaborado com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), o agronegócio brasileiro tem potencial para gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono até 2035. O principal desafio para transformar esse potencial em negócios não está na capacidade técnica ou na demanda internacional, mas na regulamentação necessária para permitir a autorização da comercialização externa dos créditos. O estudo estima que, mesmo em um cenário conservador, com autorização governamental para comercialização internacional de aproximadamente 5% do potencial total identificado, equivalente a cerca de 4% da meta climática brasileira (NDC), o País poderia gerar receitas entre R$ 2,4 bilhões e R$ 3,5 bilhões com créditos destinados a outros países ou ao Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional (Corsia).
A análise foi baseada em projetos registrados ou em diferentes estágios de desenvolvimento que utilizam metodologias reconhecidas internacionalmente. Para estimar o potencial de 314,3 milhões de créditos, a Carbonn Nature avaliou três cenários: um considerando apenas créditos já emitidos, outro incluindo projetos em fase avançada de validação e um terceiro incorporando todos os projetos atualmente em desenvolvimento com previsão de geração até 2035, período correspondente à segunda NDC brasileira. A estimativa considera apenas iniciativas já estruturadas ou em processo de certificação, sem incluir áreas que ainda não ingressaram em projetos de carbono. O cálculo de receitas também adotou uma abordagem conservadora, utilizando médias de preços observadas em transações internacionais e análises de sensibilidade para diferentes cenários de mercado. Segundo o levantamento, praticamente todo o potencial identificado está concentrado em projetos de recuperação de áreas degradadas e manejo aprimorado de terras agrícolas, que respondem por 312,1 milhões dos 314,3 milhões de créditos estimados.
O estudo destaca que essas iniciativas podem ampliar o estoque de carbono no solo, elevar a produtividade agropecuária e reduzir a necessidade de abertura de novas áreas. O Brasil possui aproximadamente 160 milhões de hectares de pastagens, dos quais entre 90 milhões e 110 milhões apresentam algum nível de degradação. A recuperação dessas áreas é apontada como uma das principais oportunidades para geração de créditos de carbono associados ao setor agropecuário. Apesar da dimensão do potencial, atualmente apenas um projeto de recuperação de pastagens está registrado e apto a emitir créditos no País. Outros 15 projetos encontram-se em diferentes fases de desenvolvimento e validação, mas ainda não alcançaram a etapa de emissão, devido à necessidade de auditorias e processos de certificação que podem levar anos. A comercialização de créditos de carbono pode funcionar como mecanismo de financiamento para recuperação de áreas degradadas, transformando recursos do mercado climático em capital para elevar a produtividade das propriedades rurais.
O principal entrave identificado está na regulamentação do mercado brasileiro de carbono, prevista na Lei nº 15.042. O governo federal trabalha atualmente na definição das regras para operacionalizar o Artigo 6 do Acordo de Paris, que permitirá ao Brasil autorizar a comercialização internacional dos chamados ITMOs (Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente), créditos reconhecidos para cumprimento de metas climáticas por outros países. A regulamentação, com prazo legal para conclusão até dezembro de 2026, deverá estabelecer critérios para autorização dos créditos, emissão das cartas de autorização pelo governo e mecanismos de monitoramento, reporte e verificação das reduções de emissões. O Brasil já possui escala produtiva, metodologias reconhecidas e condições de integridade ambiental para competir no mercado internacional, mas depende de segurança jurídica para transformar o potencial identificado em investimentos efetivos.
A demanda externa é considerada uma oportunidade estratégica, especialmente diante de negociações conduzidas por países interessados na aquisição futura de créditos de carbono. O levantamento cita mercados como o Corsia e compradores potenciais como Suíça e Cingapura, que já desenvolvem acordos bilaterais para aquisição de créditos. No caso do setor aéreo internacional, a demanda potencial supera a oferta estimada de créditos provenientes do agronegócio brasileiro, indicando espaço para expansão do mercado. Entretanto, a demora na regulamentação pode reduzir a capacidade de o País capturar essa oportunidade, enquanto outros países avançam em acordos internacionais. A definição das regras do mercado de carbono brasileiro será determinante para posicionar o País como fornecedor relevante de créditos ambientais e para transformar projetos já existentes no campo em fonte adicional de receita e financiamento para a agropecuária. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.