05/Aug/2026
O agronegócio brasileiro registrou 1.263 produtores rurais em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre de 2026, aumento de 66% na comparação com o estoque registrado no mesmo período de 2025 e alta de 21,4% ante o encerramento do ano passado. Os dados fazem parte do Monitor RGF-Bizdoc, levantamento das consultorias RGF e Bizdoc que acompanha a evolução dos processos de reestruturação e insolvência no País. O levantamento aponta que o agronegócio se tornou o principal foco do ciclo de insolvência no Brasil. Considerando também os segmentos de insumos, agroindústria e comercialização, o número total chega a 1.575 CNPJs em recuperação judicial, equivalente a aproximadamente 20% de todo o estoque nacional de processos dessa natureza. A taxa de recuperações judiciais no agronegócio alcança 1,8 processo a cada mil empresas ou produtores, índice seis vezes superior à média brasileira. O aumento do número de casos também está relacionado à ampliação do levantamento, que passou a incluir microprodutores rurais.
Entre os produtores rurais, a cadeia da soja concentra o maior número de recuperações judiciais, com 589 casos ao fim do primeiro semestre de 2026, representando quase metade do total. O volume cresceu 26,7% em relação ao fim de 2025 e praticamente dobrou na comparação anual. No primeiro semestre, 124 produtores de soja ingressaram com pedidos de recuperação judicial, após duas safras comercializadas abaixo do custo de produção, acúmulo de dívidas e ausência de geração de lucro suficiente para amortização dos débitos na temporada 2025/26. Outras cadeias produtivas também registraram aumento nos processos. A pecuária de corte aparece como a segunda atividade com maior número de casos entre produtores rurais. No primeiro semestre, foram registradas 19 novas recuperações judiciais no segmento. Entre as cadeias com maior crescimento proporcional desde dezembro de 2025, destacam-se arroz, com alta de 53,8%, milho, com avanço de 45,2%, e café, com elevação de 44,4%.
A recuperação judicial entre produtores de leite aumentou 257% no período, alcançando 50 casos. Os efeitos do endividamento dos produtores já começam a atingir os segmentos relacionados à produção, incluindo fornecedores de insumos, agroindústria e comercialização. Com exceção das indústrias de suínos e aves e das unidades de moagem de trigo, todos os demais segmentos analisados apresentaram crescimento de recuperações judiciais, incluindo revendas de insumos, fábricas de rações, fabricantes e concessionárias de máquinas agrícolas, usinas, laticínios, frigoríficos de bovinos, comercializadoras de grãos e empresas ligadas ao café. As revendas de fertilizantes e defensivos concentram o maior número de processos entre os elos da cadeia produtiva, com 48 recuperações judiciais, seguidas por fábricas de rações, com 24 casos, e concessionárias de máquinas agrícolas, com 17 processos.
As Regiões Sul e Centro-Oeste concentram o maior número de recuperações judiciais no agronegócio, com 392 e 391 casos, respectivamente. O Rio Grande do Sul e Mato Grosso são os Estados com maior número de produtores nessa situação. Mato Grosso registra 196 CNPJs em recuperação judicial, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 194. O levantamento também destaca o avanço das recuperações judiciais entre micro e pequenos produtores. Do total de 874 processos ativos nesse grupo, 54% envolvem microempresários, 26% pequenos produtores e 20% médios produtores. Desde o primeiro trimestre de 2023, o estoque de recuperações judiciais de microempresas do setor cresceu dez vezes, enquanto o volume entre pequenas empresas aumentou quase nove vezes. A ampliação dos pedidos entre produtores de menor porte está associada à maior utilização do mecanismo como ferramenta de proteção patrimonial e reorganização financeira.
Com a maior restrição de crédito bancário, produtores também passaram a buscar alternativas de financiamento junto a fornecedores de insumos, comercializadoras de grãos e agentes do mercado de capitais, aumentando a transferência de risco dentro da cadeia. Para os próximos períodos, a expectativa é de continuidade do aumento dos pedidos de recuperação judicial no segundo semestre de 2026 e em 2027, em razão das margens reduzidas observadas nas safras 2024/25 e 2025/26. A situação também pode ser pressionada pelo aumento dos custos de produção, especialmente em um cenário de incertezas no mercado internacional de fertilizantes devido às restrições logísticas associadas ao conflito no Oriente Médio e ao Estreito de Ormuz. Fatores como a expectativa de redução gradual da Selic e a exclusão de segmentos como carne bovina, café e açúcar das tarifas impostas pelos Estados Unidos poderão contribuir para a recuperação dos setores afetados, mas os efeitos devem ocorrer principalmente entre 2027 e 2028. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.