ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

27/Jul/2026

El Niño: entrevista Eduardo Assad-pesquisador FGV

A eventual confirmação de um El Niño de forte intensidade este ano pode impor novos desafios à agricultura brasileira, justamente em um momento em que o setor convive com dívidas e alta de custos, diz o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Eduardo Assad. Especialista em agroclimatologia e aquecimento global e proprietário e diretor técnico da Fauna Projetos, ele explica que o fenômeno climático tem potencial, caso seja classificado como "super forte", de reduzir em até 10% a produção nacional de grãos, como já ocorreu em outros anos.

Mas enfatiza que o maior problema não é o El Niño, e sim a demora em preparar os sistemas produtivos para enfrentar um clima que já mudou. Pesquisador da Embrapa e ex-secretário de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Assad tem trabalhos reconhecidos como pioneiros em estudos agroclimáticos e aquecimento global. Ele afirma que soluções para reduzir perdas já existem, mas exigem planejamento de longo prazo. Também critica o atraso na adaptação da agricultura brasileira às mudanças climáticas e o conceito, baseado em fatos distorcidos, de que o País seria uma "potência agroambiental". Segue a entrevista:

O El Niño deve ser tratado com cautela ou o risco de um evento forte é real?

Eduardo Assad: O El Niño já está instalado. Agora é avaliar a intensidade. Hoje, tanto os modelos climáticos da NOAA, nos Estados Unidos, quanto os europeus mostram mais de 90% de probabilidade de um El Niño forte ou até superforte. O que caracteriza isso é a anomalia da temperatura da superfície do Pacífico. Um El Niño fraco começa com meio grau acima da temperatura média das águas do Oceano Pacífico. O forte fica entre 1°C e 1,5°C. Acima de 2°C, a gente já fala em um evento superforte. E os modelos climáticos indicam 90% de probabilidade de ele ser forte ou superforte.

Qual pode ser o impacto para a produção de grãos no Brasil?

Eduardo Assad: Nos últimos dez anos tivemos três episódios muito fortes de El Niño que afetaram a produção brasileira. O principal é o de 2023/24. Naquela safra houve perdas importantes no Norte, Nordeste e Sudeste, enquanto o Sul aumentou a produção por causa do excesso de chuva. Na soja e no milho, as perdas ficaram entre 7% e 10% da safra, principalmente por causa da seca. Se este novo El Niño vier com a intensidade que os modelos estão prevendo, podemos voltar a perder até 10% da produção de grãos, coisa que o Brasil não pode se dar ao luxo. Na safra 2025/26, que deve render cerca de 320 milhões de toneladas só de soja e milho, seriam 32 milhões de toneladas com potencial de perda. É muita coisa.

A área plantada deve crescer em torno de 1,5% nesta safra. Esse aumento pode compensar parte das perdas provocadas pelo clima?

Eduardo Assad: Não acredito. Em 2023/24 também houve aumento de área e isso não impediu perdas entre 7% e 10% na produção. Agora, uma coisa é importante: se esse aumento ocorrer pela conversão de pastagens degradadas, e não de desmatamento, ótimo. Além disso, muitos produtores continuam bastante endividados e renegociando dívidas. Esse contexto também pesa sobre a capacidade de reação do setor diante de um evento climático extremo.

A combinação entre mudanças climáticas e El Niño torna esses eventos mais preocupantes do que eram no passado?

Eduardo Assad: O que sabemos é que o Oceano Atlântico está mais quente e isso já altera bastante o clima. Também estamos observando maior frequência de episódios intensos no Pacífico, mas afirmar que uma coisa causa diretamente a outra ainda seria precipitado. Há cientistas no mundo todo estudando essa relação, mas sem conclusão definitiva, ainda.

Há tempo de o produtor adotar medidas para reduzir os impactos de um El Niño forte ainda este ano?

Eduardo Assad: Praticamente não. Na agricultura, as tecnologias para enfrentar eventos climáticos extremos existem há mais de 35 anos, mas não são adotadas de um dia para o outro, levam de três a quatro anos. Mesmo produtores que adotaram práticas sustentáveis tiveram perdas em eventos extremos. Só que perderam cerca de 15%. Quem não fez nada perdeu mais de 25%.

Quais são essas soluções?

Eduardo Assad: Uma das principais é criar condições para que a planta consiga buscar água mais profundamente no solo. Nós precisamos aprofundar o sistema radicular, manter cobertura permanente do solo, trabalhar com plantio direto de qualidade, integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). A braquiária (uma gramínea de pasto), por exemplo, ajuda muito porque melhora a estrutura do solo e permite que as raízes de culturas de grãos explorem camadas mais profundas. Nas regiões sujeitas a enchentes, também é fundamental recompor a vegetação. Nada disso é novidade.

Mesmo quem adota práticas sustentáveis estará sujeito a perdas diante de um El Niño forte?

Eduardo Assad: Sim. Quando você junta deficiência hídrica com temperatura elevada, a planta sofre alterações na fisiologia. Para tentar driblar isso, muita gente aposta em cultivares superprecoces de soja para garantir, em seguida, a safrinha de milho. Só que essas plantas fazem fotossíntese muito rapidamente e transpiram muito mais. Se vier um veranico de dez ou quinze dias durante um El Niño forte, elas vão sofrer. A gente propõe outro caminho: trabalhar com cultivares de ciclo médio, que suportam melhor essas oscilações climáticas. Aí o produtor diz: "Mas vou perder a safrinha". E eu respondo: você quer perder a safrinha ou quer perder a fazenda?

O senhor defende essas práticas há décadas. O agricultor está mais receptivo aos efeitos das mudanças climáticas e à necessidade de práticas conservacionistas?

Eduardo Assad: Está mudando, e isso me deixa muito satisfeito. Quando o bolso é atingido, o produtor começa a perceber que há um problema. Então, vejo muito mais abertura para discutir mudanças climáticas, sobretudo em pecuária e produtores de milho. Sojicultores ainda têm resistência, mas bem menor hoje em dia.

Qual deveria ser a prioridade do poder público para reduzir a vulnerabilidade da agricultura aos eventos climáticos?

Eduardo Assad: O seguro rural não deveria ser tratado como um gasto e sim como investimento. Quando criamos o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, em 1996, o então ministro da Agricultura olhou para mim e disse: "Vocês estão salvando o seguro rural brasileiro". O zoneamento virou uma política pública permanente, mas o seguro não. Há mais de 30 anos discutimos seguro rural no Brasil e continuamos tratando o tema sempre como um problema fiscal. Não pode ser assim.

A efetiva implementação do Código Florestal pode servir como instrumento de adaptação às mudanças climáticas?

Eduardo Assad: Não tenho dúvida. Está mais do que demonstrado que o desmatamento reduz as chuvas, aumenta a temperatura e intensifica as ondas de calor. O Código Florestal existe para minimizar esses efeitos, e não para atrapalhar o produtor. Foi criado para proteger as condições que tornam a agricultura possível. Quando exige reserva legal, áreas de preservação permanente e proteção das nascentes, está ajudando a manter a chuva, temperaturas mais equilibradas e a disponibilidade de água. Quem mantém reserva legal, mata ciliar e nascentes está protegendo o próprio sistema produtivo. Com a consolidação do mercado de carbono, essas áreas tendem a ganhar ainda mais valor econômico. A reserva legal deixa de ser vista como um custo e passa a representar um ativo econômico. O mundo precisa remover carbono da atmosfera para enfrentar as mudanças climáticas.

O discurso de que o Brasil seria uma "potência agroambiental" ainda se sustenta?

Eduardo Assad: Houve uma campanha baseada em informações equivocadas sobre a cobertura florestal brasileira. Os números não refletem a realidade de todo o País. São veiculados números de que o Brasil preserva cerca de 60% de sua cobertura vegetal nativa, mas não dá para pegar (os dados da) floresta da Região Norte e expandir isso para o Brasil inteiro. Mato Grosso é bem aquinhoado em termos de cobertura vegetal, mas em Minas Gerais, Goiás, não é bem assim. Está havendo, por exemplo, uma reação muito forte no oeste da Bahia, onde os agricultores estão percebendo que, se não mantiverem o tapete vegetal, não vão conseguir produzir. Então onde está esse "agroambiental" que era o melhor do mundo, a luz, a paz, a alegria? As pessoas começaram a ver que isso não era bem verdade.

O senhor acredita que ainda temos tempo para adaptar a agricultura às mudanças climáticas?

Eduardo Assad: Temos, mas precisamos agir rápido. Os estudos mais recentes mostram que aquele aumento de 2°C na temperatura global, que antes era projetado para 2050, pode acontecer por volta de 2040. Isso diminui muito a nossa margem de reação. Esperar o problema chegar nunca foi uma estratégia inteligente.

Fonte: Broadcast Agro.