27/Jul/2026
Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, o menor número da série histórica iniciada em 2012. O volume representa taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes e redução de 8,2% em relação a 2024, consolidando o quinto ano consecutivo de queda desse indicador. Apesar da redução, o nível de violência permanece elevado. O levantamento indica que o País ainda registra, em média, cerca de quatro mortes violentas intencionais por hora e concentra aproximadamente 10% dos homicídios registrados no mundo. Além disso, sete unidades da Federação apresentaram aumento nos indicadores em 2025. O conceito de mortes violentas intencionais utilizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, sendo considerado um dos principais indicadores para monitoramento da violência no País.
Parte da redução dos homicídios está associada ao fortalecimento do controle territorial exercido por organizações criminosas em determinadas regiões. A consolidação da atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em áreas específicas tende a reduzir conflitos entre grupos rivais em alguns momentos, embora o cenário permaneça instável e sujeito a mudanças conforme a dinâmica das organizações criminosas. Estudo realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, divulgado em maio, aponta que 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 68,7 milhões de pessoas, identificam a presença de organizações ligadas ao tráfico de drogas ou milícias nos bairros onde residem. Esse contexto exige cautela na interpretação da redução dos homicídios, uma vez que parte da diminuição pode estar relacionada ao domínio territorial exercido por grupos criminosos, sem representar necessariamente uma redução estrutural da criminalidade.
Na análise específica dos homicídios dolosos, o País registrou 32.914 ocorrências em 2025, correspondentes a taxa nacional de 15,4 casos por 100 mil habitantes, queda de 10% em comparação com o ano anterior. A redução foi observada mesmo diante do aumento de 4% nos casos de feminicídio. Com esse resultado, o Brasil antecipou em dois anos o cumprimento da meta estabelecida pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, revisada em 2021, que previa reduzir a taxa de homicídios dolosos para 16 casos por 100 mil habitantes até 2027. O levantamento aponta ainda que todas as regiões do País registraram redução nas mortes violentas intencionais, embora sete unidades da Federação tenham apresentado aumento nas taxas. Os maiores avanços ocorreram no Rio Grande do Norte, com alta de 19,6%, seguido por Rondônia (7,5%), Acre (6,3%), Roraima (5,8%), Distrito Federal (5,8%), Mato Grosso do Sul (4,9%) e Rio de Janeiro (2,1%).
Entre os fatores associados à redução dos homicídios, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca mudanças demográficas, com o envelhecimento da população, além do fortalecimento das investigações policiais voltadas aos crimes contra a vida. Ao mesmo tempo, o avanço das organizações criminosas exige uma estratégia nacional permanente de enfrentamento ao crime organizado, incluindo ações voltadas à retomada de territórios dominados por facções, fortalecimento da cooperação entre órgãos públicos e intensificação de operações integradas contra a infiltração do crime organizado na economia formal. Estados da Região Norte, como Amazonas e Pará, são apontados como áreas estratégicas para o tráfico internacional de cocaína e outros ilícitos provenientes de Peru, Bolívia e Colômbia, reforçando a necessidade de políticas coordenadas de segurança pública. O Brasil registrou 1.571 casos de feminicídio em 2025, aumento de 4% em relação às 1.504 ocorrências contabilizadas em 2024.
O resultado representa o quarto ano consecutivo de crescimento desse tipo de crime e confirma a manutenção da tendência de elevação dos assassinatos de mulheres motivados por razões de gênero. Desde a tipificação do feminicídio, em 2015, os registros apresentam trajetória predominantemente ascendente. A única exceção ocorreu em 2021, quando houve redução de 0,6% frente a 2020. Em comparação com 2016, primeiro ano completo após a criação da tipificação penal, quando foram registrados 929 casos, o número de feminicídios aumentou 69,1% ao longo da última década. A aceleração observada em 2025 representa motivo de preocupação, uma vez que o crescimento anual vinha oscilando entre aproximadamente 1% e 2% nos anos anteriores. O levantamento indica que, apesar do avanço do marco legal e das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero, os mecanismos de proteção às mulheres ainda não têm sido suficientes para conter a evolução dos casos.
A maior parte dos feminicídios ocorre no ambiente familiar, contexto em que a atuação preventiva do Estado enfrenta maiores dificuldades e onde os episódios de violência tendem a permanecer invisibilizados por períodos prolongados. O estudo mostra ainda que os parceiros atuais das vítimas foram responsáveis por 60,9% dos feminicídios registrados em 2025, enquanto os ex-parceiros responderam por outros 18,9% dos casos, evidenciando a predominância da violência praticada no contexto das relações afetivas e familiares. A taxa de mortes em decorrência da intervenção policial teve alta de 5,4% em 2025. Foram 6.602 casos envolvendo policiais militares e civis em serviço e de folga, o maior número da série histórica, que teve início em 2016. Com isso, o índice de casos por 100 mil habitantes chegou à marca de 3,1. Os dados mostram que Amapá, Bahia e Sergipe concentram mais uma vez as maiores taxas desse indicador, embora a maioria dos Estados registre aumento nas ocorrências desse tipo. A alta no Rio de Janeiro é claramente pela Operação Contenção.
A pesquisa mostra que os 117 civis mortos na megaoperação representam 15% do total de pessoas mortas pelas polícias fluminenses em 2025. Pelo terceiro ano consecutivo, o suicídio foi a principal causa de morte entre policiais civis e militares no País, superando as mortes em confrontos durante o serviço e aquelas registradas fora do expediente. Em 2025, 110 policiais tiraram a própria vida. Desde 2017, o número de policiais que morreram por suicídio cresceu 37,8%, enquanto as mortes violentas intencionais de agentes despencaram 63,7%. Sete dos dez Estados com as maiores taxas de mortes violentas intencionais (MVI) em 2025 estão localizados na Região Nordeste, enquanto os outros três pertencem à Região Norte. A expansão das organizações criminosas, as disputas por rotas do tráfico de drogas, a atuação em mercados ilegais e, em alguns casos, os elevados índices de letalidade decorrente de intervenções policiais explicam a concentração da violência nessas regiões.
O ranking estadual é liderado pelo Amapá, com taxa de 42,5 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Na sequência aparecem Bahia (36,8), Ceará (34,7), Alagoas (33,1), Pernambuco (33,0), Maranhão (29,7), Rio Grande do Norte (29,1), Pará (28,4), Rondônia (28,1) e Paraíba (24,6). O indicador de mortes violentas intencionais reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, tanto em serviço quanto fora dele. Em 2025, a Região Nordeste registrou taxa média de 31,6 mortes por 100 mil habitantes, superior à média nacional de 19,1. A Região Norte apresentou taxa de 25,3, seguida pelo Centro-Oeste, com 17,3, Sudeste, com 12,6, e Sul, com 11,9 mortes por 100 mil habitantes. A configuração regional da violência está associada à expansão territorial das facções criminosas, que disputam rotas de tráfico, mercados ilegais e áreas estratégicas para suas operações.
No Amapá, a localização na fronteira com a Guiana Francesa, a extensa malha hidrográfica e as dificuldades de fiscalização favorecem a utilização do Estado como corredor para o tráfico internacional de drogas e armas. O cenário é agravado pelas disputas entre organizações criminosas nacionais e grupos locais e pelos elevados índices de letalidade policial. Na Bahia, o avanço da violência alcançou municípios do interior do Estado. O levantamento mostra que cinco das dez cidades mais violentas do Brasil estão localizadas na Bahia. O estudo relaciona esse cenário ao avanço das disputas entre facções para além da Região Metropolitana de Salvador, aliado à elevada letalidade policial, à baixa capacidade de esclarecimento de homicídios e às desigualdades sociais. O Ceará ocupa a terceira posição entre os Estados mais violentos do País, com conflitos associados ao controle de territórios urbanos e de rotas marítimas utilizadas pelo tráfico de drogas.
O Rio Grande do Norte apresentou uma das maiores deteriorações dos indicadores em 2025, com aumento de 19,6% na taxa de mortes violentas intencionais. O número de homicídios dolosos passou de 655 para 843 casos, em um contexto atribuído ao fortalecimento das disputas entre organizações criminosas. Em Rondônia, o crescimento da violência foi impulsionado principalmente pelo aumento das mortes decorrentes de intervenção policial, que passaram de 8 para 47 ocorrências. No recorte municipal, Maranguape (CE) permaneceu pelo segundo ano consecutivo como a cidade mais violenta do Brasil entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. O município registrou taxa de 100,3 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025. As dez cidades com maiores índices de violência estão localizadas na Região Nordeste. A lista inclui Maranguape (CE); Maracanaú (CE); Caucaia (CE); Eunápolis (BA); Simões Filho (BA); Porto Seguro (BA); Jequié (BA); Juazeiro (BA); Santa Rita (PB); e Cabo de Santo Agostinho (PE). Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.