23/Jul/2026
A nova fase do tarifaço aplicado pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil acontece num momento contaminado pela campanha eleitoral no País. Por isso, é importante separar o discurso em busca de votos do trabalho de negociação comercial que deve acontecer, avalia o professor Matias Spektor, fundador da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e associado ao Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). A retaliação ameaçada pelo governo brasileiro aos Estados Unidos não deve se concretizar, acredita, e as negociações tendem a entrar em um momento de espera por conta do calendário eleitoral. Spektor também defende que a atenção especial de Donald Trump ao Brasil na questão das tarifas tem ligação com a necessidade de o presidente norte-americano em manter sua influência na região, afastar negócios com a China e promover uma reindustrialização dos Estados Unidos. Segue a entrevista.
O que significa essa nova fase de aplicação de tarifas, iniciada com esses 25% sobre as exportações brasileiras aos Estados Unidos?
Matias Spektor: Esse é um processo que culmina em uma dinâmica de uma década, desde a chegada de Trump ao poder pela primeira vez, em 2017, de instrumentalização do comércio internacional como forma de retomar a industrialização dos EUA e provocar o isolamento da China.
E por que o Brasil tem sido tratado com atenção especial, tendo recebido tarifas maiores e antes de outros países?
Matias Spektor: O Brasil é relevante por competir com os EUA em alguns mercados importantes, em especial, na agricultura. Mas as investigações que levaram às tarifas sobre o Brasil também foram feitas contra 60 países. O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que Trump quer restaurar na América Latina. O País também era governado pela esquerda quando Trump assumiu pela primeira vez, virou o sinal em 2019 para a direita e, depois, voltou para a esquerda. É um País relevante para as aspirações de Trump. Há uma coisa conjuntural.
Então, há um componente político forte?
Matias Spektor: Internamente, a política de Trump de fechamento do comércio para promover a industrialização do país foi muito atacada pela Suprema Corte dos EUA. E, na disputa de Trump com a Suprema Corte, ele tomou como decisão encontrar novos argumentos jurídicos ainda não explorados, o que levou a mobilizar essa investigação pela Seção 301, para chegar com uma bateria grande de novas demandas. Essa questão não é sobre o Brasil. O foco não é o Brasil. Trata-se de uma batalha com a Suprema Corte para ter o poder de decisão.
Trump também deu argumentos para aplicar as tarifas relacionados ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro pela Justiça brasileira. Ele também quer influenciar politicamente o Brasil?
Matias Spektor: Trump preferia um Brasil governado pela direita? Sem dúvidas. Mas ele vai se sacrificar pela família Bolsonaro? Não. Ele não gosta de perdedores. Se Flávio Bolsonaro perder as eleições, ele continuará a negociação com Lula. O governo brasileiro entendeu bem essa dinâmica e adota essa atitude de negociação permanente, de nunca fechar a porta para a negociação. A única diferença agora é que o governo brasileiro está prestes a enfrentar uma eleição. Essa dinâmica interna muda as coisas, já que o governo vai buscar explorar as tarifas politicamente. Isso é normal.
Qualquer governo faria isso, nesse momento, tratando a eleição como prioridade?
Matias Spektor: Sim. Mas, da mesma maneira que o governo brasileiro negociou arduamente lá atrás contra as tarifas de 50%, ele continuará negociando os 25%. A questão é que, pelo vazamento da proposta comercial entregue pelos EUA ao Brasil neste ano, parece algo absolutamente inaceitável, de rendição.
O relato é de um pedido de tarifa zero para o etanol norte-americano e de uma abertura grande para importações industriais, áreas que o Brasil tradicionalmente protege bastante.
Matias Spektor: Sim, e sem contrapartidas.
E parece algo que nenhum governo brasileiro aceitaria nessas condições?
Matias Spektor: Qualquer governo que não seja do (senador e pré-candidato à Presidência da República) Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Então, o governo deve manter esse status de negociação permanente, mas a prioridade não vai acabar sendo fechar um acordo, ainda mais um que demonstre concessões?
Matias Spektor: Tudo vai ficar parado agora por conta do ciclo eleitoral, mas muito provavelmente volta logo depois.
E quanto a esses discursos de possibilidade de retaliação contra as tarifas, mesmo que outros países não tenham seguido esse caminho?
Matias Spektor: Não acredito num cenário de retaliação. Esse é um discurso para consumo doméstico no contexto eleitoral. Nada no comportamento do governo indica que ele vai retaliar, como também não fez no passado recente. Faz parte do processo eleitoral esse discurso.
Fonte: Broadcast Agro.