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21/Jul/2026

Brasil deve manter pragmatismo na relação com EUA

A forma como o Brasil responderá à sobretaxa imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros mostrará o grau de maturidade do País. Logo após o anúncio, o Palácio do Planalto afirmou que haverá retaliação. Não é bem assim, no entanto, que uma represália costuma funcionar na prática e alguns pontos precisam ser analisados. Usar a mesma moeda é um caminho previsto e considerado adequado no comércio internacional, e revela muito para o mundo o quanto um país afetado se sentiu injustiçado por uma medida de outro. Nada de errado aqui, mas "o troco" não é algo automático, no sentido mais simplório do toma lá dá cá. Retaliações precisam ter seus efeitos domésticos e externos mensurados caso a caso, item a item.

É um trabalho complexo e não por acaso equipes de vários ministérios foram acionadas para fazer essas avaliações. Um outro ponto é que o Brasil parece não querer errar a mão aos olhos do mundo. Não apenas em relação a efeitos econômicos, mas na narrativa de que vem sendo "achacado" pelo governo Trump. Como mal comparou uma fonte debruçada sobre o tema, a preocupação é não se tornar Israel: um país que teria o direito legítimo de responder a um ataque terrorista, mas que "acabou pesando a mão" e desencadeando uma escalada muito maior. Dependendo da área em que atuam, empresários brasileiros se dividem. Uma parte quer o olho por olho. Outra tem adotado o discurso do "veja bem...". Em ano de eleição; sim, tudo em 2026 tem a ver com o pleito de outubro; o governo também tem que equilibrar um lado e outro para não ferir apoiadores.

Afinal, este ano parece que vai repetir a disputa de 2022, quando todo voto importou. Segundo técnicos envolvidos na discussão, uma retaliação pode levar de dois a três meses para ser apresentada. E uma eventual lista não deve ser apresentada apenas por resultados obtidos por cálculos matemáticos. É preciso ter muito pragmatismo nas ações e mostrar que o objetivo número 1 do processo é a preocupação com os impactos domésticos. Durante a sabatina de Daniel Perez para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil na semana passada, o democrata Tim Kaine comentou que seu país tem mais a perder do que o Brasil com nova tarifa de 25%, e ressaltou o superávit massivo que os Estados Unidos têm com o Brasil. Com uma lista de exceções ainda maior do que no passado, está claro, porém, que a Casa Branca já se resguardou dos impactos mais pesados, como o de inflação, por exemplo.

Mesmo que adote uma retaliação de maior alcance, o País não fará cócegas na economia norte-americana. Então, o foco deverá estar mais na reputação do Brasil após o episódio, contrabalançando ações econômicas, com reforço de sua soberania. Muito provavelmente é um mix que o País deverá adotar entre retaliações e medidas paralelas. O mais importante de tudo é mostrar para o mundo que o Brasil é um jogador honesto no comércio internacional e respeitoso das regras diplomáticas. Por exemplo: a Coluna procurou alguns interlocutores a respeito do agrément de Daniel Perez, que é o aval que os países dão ou não sobre a indicação de profissionais para esse tipo de cargo.

Os Estados Unidos quebraram todos os protocolos do processo, então o Brasil poderia fazer algum tipo de "birra" e simplesmente barrar a sugestão do deputado norte-americano para o cargo. Historicamente, o agrément não passa pela imprensa, e costuma ser uma informação exclusiva dos países envolvidos, como determina a Convenção de Viena. Em vez de "fazer fusquinha" com a situação, todas as respostas obtidas foram na linha de resguardar as conversas bilaterais. Mais do que isso, ressaltaram que não haveria comentários sobre o processo porque as regras internacionais são respeitadas pelo Brasil. Se essa postura prevalecer, o Brasil terá demonstrado que é possível defender seus interesses sem abrir mão da responsabilidade diplomática. E poderá sair desse episódio com um ativo talvez mais valioso que uma retaliação imediata: sua credibilidade internacional. Fonte: Célia Froufe. Broadcast Agro.