17/Jul/2026
O governo brasileiro iniciou uma análise detalhada das medidas anunciadas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que confirmou a aplicação de novas tarifas sobre produtos importados do Brasil. A avaliação interna é de que não deve haver uma resposta imediata, uma vez que a prioridade é estruturar uma estratégia consistente para enfrentar um tema considerado de elevada sensibilidade, por envolver o segundo maior parceiro comercial do País. A avaliação de integrantes do governo que acompanham as negociações desde o início é de que os Estados Unidos vinham demonstrando disposição para intensificar o confronto comercial e não apresentaram, ao longo das tratativas, propostas efetivas de negociação.
Nesse contexto, a orientação inicial é examinar detalhadamente o conteúdo das medidas, bem como o alcance das exceções previstas, antes da definição dos próximos passos. O governo brasileiro classificou, por meio de nota da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, o novo pacote tarifário como um marco negativo na relação bilateral e informou que pretende utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às medidas adotadas pelos Estados Unidos. Segundo integrantes das negociações, foram realizados mais de 30 contatos entre representantes dos dois países desde o anúncio inicial das tarifas, incluindo reuniões presenciais, encontros virtuais e conversas telefônicas em níveis presidencial, ministerial e técnico.
Nesse período, ocorreram tratativas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, além de 11 contatos entre autoridades brasileiras e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer. A avaliação do governo brasileiro é de que todas as iniciativas para manter o diálogo partiram do Brasil. No entendimento das autoridades brasileiras, os temas utilizados pelos Estados Unidos para justificar as medidas, como desmatamento e o sistema de pagamentos Pix, não foram objeto de propostas concretas de negociação. O governo sustenta que houve redução de aproximadamente 50% do desmatamento na Amazônia entre 2022 e 2025 e considera que as justificativas apresentadas possuem caráter predominantemente político.
O governo também ressalta que, no chamado Liberation Day, o Brasil havia sido enquadrado na alíquota mínima de 10% das tarifas norte-americanas. A avaliação é de que a elevação para 50%, anunciada por Donald Trump em 9 de julho do ano anterior, decorreu de motivações políticas relacionadas a manifestações públicas do presidente norte-americano envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF). A abertura da investigação com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos foi estruturada como alternativa para manter as restrições comerciais caso o tarifaço original fosse invalidado pela Justiça norte-americana. A Seção 301 permite ao governo dos Estados Unidos investigar e adotar medidas de retaliação contra países cujas práticas comerciais sejam consideradas desleais.
Integrantes do governo brasileiro também avaliam que a manutenção de argumentos relacionados ao desmatamento, considerados inconsistentes diante dos dados oficiais apresentados pelo Brasil, reforça a percepção de ausência de negociação em boa-fé. Além disso, apontam contradição entre a política energética defendida pela administração norte-americana e a utilização de justificativas ambientais para embasar a adoção de sanções comerciais. Nos bastidores, a interpretação é de que tanto o tarifaço original quanto a investigação conduzida com base na Seção 301 integram um mesmo processo político, diferenciando-se apenas pela fundamentação jurídica utilizada. A avaliação é de que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos permanecem essencialmente as mesmas e servem de base para uma ação unilateral na política comercial norte-americana. O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou como injusta e descabida a tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Segundo ele, os argumentos apresentados pelo governo norte-americano para justificar a medida não possuem fundamento e não refletem a realidade das relações comerciais entre os dois países. As justificativas apresentadas no âmbito da Seção 301 da legislação comercial norte-americana, incluindo referências ao Pix e ao desmatamento, partem de premissas consideradas equivocadas pelo governo brasileiro. Segundo o vice-presidente, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não prejudicou a concorrência no setor financeiro, destacando que outros meios de pagamento, como cartões de crédito, continuaram registrando crescimento no País. Em relação ao meio ambiente, afirmou que o Brasil não estaria registrando recordes de desmatamento, como apontado nas alegações norte-americanas. Os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil, argumento utilizado pelo governo brasileiro para contestar a aplicação da nova tarifa. Segundo Alckmin, o governo federal saberá como implementar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos "no momento adequado". Segundo o vice-presidente, a legislação oferece mecanismos para que o Brasil responda a medidas consideradas discriminatórias adotadas por outros países. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.