10/Jul/2026
O fortalecimento das projeções para o fenômeno El Niño aumentou a preocupação de economistas com possíveis impactos sobre a produção agropecuária brasileira e a inflação de alimentos. Segundo previsões da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 63% de probabilidade de o evento ser classificado como muito forte. Em 2023/24, quando o fenômeno apresentou intensidade elevada, o Brasil registrou perda de 8,2% na produção agrícola. Uma redução de magnitude semelhante na próxima temporada poderia afetar os estoques globais de grãos e pressionar os preços dos alimentos. O cenário climático adiciona incertezas a um ambiente já marcado por dificuldades de crédito, margens reduzidas para produtores, possíveis impactos de tarifas comerciais dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e instabilidade geopolítica internacional. Os maiores riscos estão concentrados principalmente no Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde períodos irregulares de chuva e veranicos prolongados podem comprometer a produtividade das lavouras.
O El Niño tende a provocar distribuição irregular de precipitações no Centro-Oeste e no Matopiba, afetando o desenvolvimento da soja e podendo atrasar o plantio da 2ª safra de milho. Na Região Sul do Brasil, o fenômeno geralmente está associado ao aumento das chuvas, o que pode favorecer a produtividade de soja e milho, mas também amplia os riscos de enchentes e ocorrência de doenças nas lavouras. A relevância do Brasil no mercado global de grãos torna o País um dos principais pontos de atenção para o equilíbrio da oferta mundial. Mesmo diante dos riscos climáticos, as projeções indicam possibilidade de nova safra recorde de soja, com produção estimada em 182,4 milhões de toneladas. Entretanto, uma quebra de 6% na colheita brasileira poderia reduzir a relação estoque/consumo global de soja de 28% para 23%, levando os estoques ao menor nível desde a safra 2023/24. A diferença em relação ao ciclo anterior é que, em 2023/24, a recuperação da produção argentina ajudou a compensar parcialmente a quebra brasileira.
No cenário atual, com balanços globais mais ajustados, a capacidade de outros países produtores compensarem uma eventual perda do Brasil é menor, aumentando a importância da safra nacional para o abastecimento internacional. A projeção de uma safra recorde de soja permanece como cenário-base devido à expectativa de crescimento de 0,5% na área plantada e à ausência, até o momento, de uma definição concreta sobre a intensidade do El Niño. O fenômeno é classificado como muito forte quando provoca elevação superior a 2°C na temperatura das águas do Oceano Pacífico, com a classificação oficial prevista para o fim de julho. Além da soja, a 2ª safra de milho está entre as culturas mais vulneráveis. O atraso no plantio causado por irregularidades climáticas pode expor as lavouras a períodos de altas temperaturas e déficit hídrico. Durante o El Niño muito forte registrado na safra 2015/16, a queda de produtividade da 2ª safra de milho superou 20% no Brasil e ultrapassou 40% no Matopiba.
Os impactos do fenômeno também alcançam outras cadeias agrícolas. No arroz, o excesso de chuvas no Sul pode prejudicar a produção, enquanto no café a irregularidade das precipitações e o aumento do estresse térmico podem afetar a floração, a qualidade e a produtividade. No episódio de El Niño de 2023/24, o café conilon produzido no Espírito Santo registrou as maiores perdas entre as regiões produtoras brasileiras. Apesar dos riscos, especialistas avaliam que a dimensão territorial do Brasil reduz a possibilidade de um impacto uniforme sobre toda a produção agrícola, já que perdas em algumas regiões podem ser parcialmente compensadas por ganhos em outras. O principal ponto de monitoramento nos próximos meses será a evolução da intensidade do fenômeno e seus efeitos sobre as principais regiões produtoras. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.