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10/Jul/2026

El Niño e protecionismo: impacto em preços agrícolas

O Goldman Sachs avalia que os riscos de elevação dos preços globais das commodities agrícolas associados ao El Niño não decorrem apenas dos impactos climáticos, mas também das respostas protecionistas que grandes países exportadores tendem a adotar diante de perspectivas de escassez. A elevada concentração geográfica da oferta mundial faz com que restrições preventivas às exportações tenham potencial para retirar do mercado internacional um volume superior ao provocado pelo próprio choque de produção, ampliando a volatilidade e a intensidade da alta dos preços. Nos mercados de soja, milho, arroz, açúcar e óleo de palma, os principais exportadores concentram entre 60% e 90% do comércio global. Em mercados com esse nível de concentração, perdas relativamente moderadas de produção ou mesmo expectativas de redução da oferta podem estimular medidas defensivas, reduzir o volume disponível para exportação, fragmentar o comércio internacional e aumentar a sensibilidade dos preços a novos eventos adversos.

Três fatores são capazes de desencadear esse movimento no curto prazo. O primeiro é o próprio El Niño. O fenômeno já está estabelecido e atribui 63% de probabilidade de evolução para um super El Niño. Como grandes exportadores de produtos básicos, como arroz, e de matérias-primas destinadas à produção de biocombustíveis, como açúcar e óleo de palma, estão concentrados em regiões historicamente mais afetadas pelo fenômeno, mesmo uma redução limitada da produção ou o receio de seus efeitos pode incentivar restrições preventivas às exportações. Como exemplo, pode-se citar a Índia, responsável por aproximadamente 40% das exportações globais de arroz. Em 2023, o país proibiu embarques do cereal como medida preventiva diante do risco climático relacionado ao El Niño, embora a produção doméstica tenha crescido 1,5% naquela temporada. Ainda assim, os preços internacionais do arroz registraram forte valorização. O segundo fator de risco está relacionado aos biocombustíveis.

A elevação dos preços da energia observada no primeiro semestre de 2026 e as preocupações com segurança energética podem levar diversos governos a ampliar os mandatos obrigatórios de mistura de biocombustíveis, direcionando volumes de soja, açúcar, milho, colza e óleo de palma para o mercado interno de combustíveis e reduzindo a disponibilidade para exportação. Nesse contexto, destaca-se a Indonésia, responsável por cerca de 50% do óleo de palma comercializado globalmente. Entre 2016 e 2026, o país elevou gradualmente a mistura obrigatória de biodiesel de 20% para uma faixa entre 40% e 50%, enquanto a produção apresentou crescimento apenas moderado. Essa política reduziu diretamente o excedente exportável e elevou o piso de preços de todo o complexo de óleos vegetais. O terceiro vetor de preocupação envolve o mercado de fertilizantes. O segmento permanece exposto a possíveis interrupções logísticas no Estreito de Ormuz durante o período crítico de compras do terceiro trimestre por grandes importadores de fertilizantes nitrogenados destinados ao plantio do segundo semestre. Eventuais restrições no fluxo da região podem elevar os custos de produção agrícola em um momento estratégico do calendário agrícola mundial.

Destaque para a estratégia adotada pela China para reduzir sua dependência externa por meio do fortalecimento dos estoques e da ampliação da autossuficiência alimentar. A China mantém participação desproporcionalmente elevada nos estoques globais de milho, trigo, arroz e soja em relação ao seu consumo, refletindo uma política deliberada de reforço da segurança de abastecimento. As projeções do banco indicam que a autossuficiência alimentar chinesa poderá avançar dos atuais níveis próximos de 60% para cerca de 90% até 2035, ainda que isso implique custos mais elevados de produção doméstica. Políticas de fortalecimento da segurança alimentar e de restrição às exportações aumentam a resiliência dos mercados internos, mas também reduzem a liquidez do comércio internacional, intensificam a fragmentação dos fluxos comerciais e elevam a volatilidade das commodities agrícolas. Em simulação apresentada no relatório, o Goldman Sachs estima que, em um mercado regionalizado, um mesmo choque de produção pode provocar impacto sobre os preços aproximadamente duas vezes superior ao observado em um mercado global plenamente integrado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.