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08/Jul/2026

Calor extremo expõe vulnerabilidade das cidades

A atual onda de calor na Europa evidencia os impactos crescentes das mudanças climáticas sobre a infraestrutura urbana e reforça os desafios enfrentados por grandes centros urbanos diante da intensificação dos eventos climáticos extremos. Em países como Alemanha e França, as elevadas temperaturas provocaram o derretimento de pavimentos asfálticos e a dilatação de trilhos ferroviários, exigindo desvios no transporte ferroviário. Na Holanda, autoridades mantiveram pontes móveis sob resfriamento contínuo com jatos de água para evitar falhas mecânicas decorrentes da expansão térmica das estruturas. Segundo levantamento recente da organização CDP, que reúne informações climáticas para empresas e governos, 60% dos governos subnacionais em todo o mundo já registraram impactos significativos do calor extremo sobre a operação cotidiana de suas infraestruturas.

Grande parte da infraestrutura atualmente em operação foi projetada com base em séries históricas de temperatura e precipitação que já não refletem o comportamento climático atual. O aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos reduz a previsibilidade utilizada no dimensionamento de obras de engenharia, ampliando os riscos para sistemas urbanos. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os principais impactos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura concentram-se em quatro áreas: transporte e mobilidade, edificações e habitação, saneamento e gestão hídrica, além dos setores de energia e tecnologia. Na atual onda de calor europeia, os maiores efeitos foram observados sobre os sistemas de transporte.

As temperaturas elevadas provocam estresse térmico no pavimento, reduzindo sua resistência mecânica, enquanto a expansão dos trilhos ferroviários aumenta o risco de deformações, interrupções operacionais e desvios na circulação dos trens, afetando a logística das grandes cidades. O setor da construção dispõe de tecnologias capazes de elevar a resiliência da infraestrutura frente aos eventos climáticos extremos, incluindo asfaltos modificados, concretos de alto desempenho, pavimentos com maior refletividade térmica, materiais mais duráveis e soluções baseadas na natureza para reduzir a temperatura urbana e ampliar a vida útil das estruturas. O principal desafio permanece na adoção dessas tecnologias em larga escala. Os impactos das ondas de calor também se refletem na saúde pública.

Desde meados de junho, pelo menos 1.300 mortes foram registradas na Europa em decorrência das altas temperaturas, principalmente entre idosos e crianças, grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor extremo. Em diversos países europeus, edificações residenciais, escolas e ambientes de trabalho não foram projetados para suportar temperaturas superiores a 41°C, registradas em países como Alemanha e República Tcheca. Em resposta ao episódio, França e Itália reforçaram programas de assistência social voltados ao acompanhamento de idosos que vivem sozinhos durante os períodos de calor intenso, buscando reduzir os riscos à população mais vulnerável.

Em países de clima mais quente, como o Brasil, as ondas de calor também elevam significativamente a demanda por energia elétrica devido ao uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado, aumentando a sobrecarga sobre transformadores e redes de distribuição, com potencial para provocar interrupções no fornecimento de energia. O avanço da inteligência artificial e da digitalização amplia outro desafio urbano. Centros de processamento de dados instalados nas cidades demandam volumes crescentes de energia elétrica e água para sistemas de resfriamento, especialmente durante períodos de temperaturas elevadas, aumentando a pressão sobre a infraestrutura energética e hídrica. No Brasil, o aquecimento também favorece a ocorrência de chuvas intensas, que elevam os riscos de enchentes, inundações e deslizamentos de terra.

A enchente registrada no Rio Grande do Sul em 2024 ilustrou os impactos sobre rodovias, pontes e encostas, comprometendo a infraestrutura logística e de transporte. Os deslizamentos decorrentes de chuvas concentradas afetam principalmente áreas ocupadas por moradias precárias em encostas e regiões sujeitas a alagamentos. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), aproximadamente 9,5 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de alto risco no Brasil. Além disso, eventos extremos de precipitação têm superado a capacidade operacional de sistemas antigos de drenagem urbana. No início de 2025, Recife (PE) registrou acumulado superior a 300 milímetros de chuva, provocando o colapso da infraestrutura pluvial, paralisação do transporte urbano e transbordamento de canais.

Ao mesmo tempo, períodos prolongados de seca também representam desafios crescentes para o abastecimento de água. Durante o primeiro semestre do ano passado, o interior de São Paulo enfrentou condições de seca severa, levando sistemas integrados de abastecimento, como o Cantareira, a operar em níveis críticos e ampliando o risco de restrições na distribuição de água. O avanço das mudanças climáticas amplia a necessidade de investimentos em infraestrutura resiliente, planejamento urbano, adaptação tecnológica e gestão de riscos, diante da tendência de maior frequência de ondas de calor, enchentes, secas prolongadas e demais eventos climáticos extremos capazes de comprometer o funcionamento das cidades, a segurança da população e a continuidade dos serviços essenciais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.